Relatório do diretor clínico para Waldyr Jorge aponta “grande impacto” nos serviços de Clínica Pediátrica, Neonatologia e Pronto Atendimento

“Como leitos foram fechados, pacientes estão permanecendo nas macas de emergência. A UTI [Unidade de Tratamento Intensivo] foi reduzida em 40% e isso coloca a vida das pessoas em risco. É um absurdo um hospital que já estava sobrecarregado ver diminuído o número de profissionais via Programa de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV)”. O comentário é do vice-diretor clínico do Hospital Universitário (HU), Gerson Salvador, que também é diretor do Sindicato dos Médicos (Simesp), a propósito da profunda crise vivida pelo hospital em razão do corte da remuneração dos plantões e da saída de 218 profissionais de saúde que aderiram ao PIDV. 

“Se alguém morrer ou sofrer dano irreversível à saúde no HU, por conta das condições precárias em que o hospital se encontra, a responsabilidade é do reitor Marco Antonio Zago”, declarou Salvador ao Informativo Adusp

Um detalhado relatório sobre a situação atual do HU, assinado por José Pinhata Otoch, diretor clínico do hospital, e Marcelo Rodrigues Borba, chefe técnico do Departamento Médico, acaba de ser encaminhado ao superintendente Waldyr Jorge, que acumula esse cargo com os de superintendente da Assistência Social (ex-Coseas) e diretor da Faculdade de Odontologia. De acordo com o documento, “a implantação do novo teto salarial e o início do PIDV no final de fevereiro deste ano causam um grande impacto na estrutura do Departamento Médico deste hospital, atingindo tanto o ensino quanto a assistência aos doentes atendidos”.

Perda de médicos

O relatório indica as perdas de médicos em cada departamento e tipo de serviço prestado pelo HU e a redução causada nos respectivos atendimentos. Na área de Clínica Pediátrica (DCP), por exemplo, uma das mais importantes do hospital, haverá grande impacto: “O número total de médicos da DCP é 43. Atualmente estamos com com 3 claros anteriores que não foram repostos, que são médicos do Pronto Atendimento”, aos quais se somam 3 demissões no PIDV. “A redução de carga horária da equipe médica deve-se a estes claros e à redução das horas extras determinadas pelo limite salarial”. 

Algumas das consequências sofridas pelo DCP: redução de 50% do Ambulatório de Puericultura destinado a funcionários da USP e seus dependentes, com maior demora no atendimento; redução do número de médicos assistentes na Enfermaria, com menor supervisão dos alunos de graduação e médicos residentes; redução das escalas de plantão no Pronto Atendimento, nos períodos da manhã e da tarde, de 4 médicos para apenas 3 e “em alguns momentos” para apenas 2; redução das escalas de plantão na UTI Pediátrica, de 4 médicos pela manhã e 3 médicos à tarde para 3 e 2 respectivamente; na Neonatologia, redução do número de partos em 20%.

A Divisão de Clínica Cirúrgica perdeu 2 médicos em razão do PIDV, o que acarretará a perda de 40 consultas mensais de cirurgia geral e a suspensão de 40 atendimentos ambulatoriais em coloproctologia. “No Centro Cirúrgico houve o cancelamento de 15 cirurgias mensais, com grande prejuízo dos estágios dos residentes, estagiários internacionais e do internato. Com o PIDV espera-se uma redução em torno de 20% das cirurgias eletivas”, diz o relatório. No Serviço de Oftalmologia, 2 dos 6 médicos aderiram ao PIDV, o que levou a direção a suspender o atendimento de urgências para a comunidade Butantã. 

“Situação caótica”

O Simesp deu publicidade ao documento e o encaminhou ao Conselho Regional de Medicina e ao Ministério Público Estadual, como explicou Gerson Salvador: “O gestor responsável pelo HU, professor Waldyr Jorge, tem que tomar conhecimento da situação caótica em que o hospital se encontra”. Desde que a Reitoria anunciou suas propostas para o HU, o Simesp vem se pronunciando contra a desvinculação do hospital e sua propalada transferência para a Secretaria Estadual da Saúde. 

No entendimento do professor Francisco Miraglia, diretor secretário da Adusp, há uma clara intenção de “destruir os serviços públicos e transformar necessidades básicas em fonte de lucro” nas medidas empregadas contra o HU: “Após a ‘trapalhada’ que envolveu o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais de Bauru [HRAC, desvinculado da USP pelo Co, em 2014, em votação que não alcançou o quórum exigido], a Reitoria da USP adotou a tática clássica dos privatistas, neoliberais e conservadores de quatro costados: estrangular financeiramente a instituição, até que torne-se ‘óbvio’ que é melhor privatizá-la”. 

O Informativo Adusp procurou o superintendente Waldyr Jorge, em 30/3, para que comentasse o relatório e a situação vivida pelo HU, encaminhando-lhe algumas perguntas pelo correio eletrônico. O professor entrou em contato com a reportagem em 1º/4, informando que tem máxima disposição de esclarecer as questões pertinentes ao HU, mas se disse sem tempo para elaborar as respostas. Comprometeu-se a receber a equipe do Informativo Adusp na próxima semana.

Também procurado, por intermédio de sua assessoria, até o fechamento desta matéria para publicação o reitor M.A. Zago não havia enviado respostas às três perguntas que lhe foram encaminhadas em 30/3. 

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