“Para um pesquisador aposentado, é muito triste caminhar hoje no Centro Experimental do Instituto Agronômico de Campinas [IAC] e ver as estufas abandonadas da antiga unidade de Virologia e outras estufas e ripados, antigamente ativos. Feito o desmonte, agora o governo do Estado se prepara para privatizar o IAC, com base no PL 77/15, recém aprovado”. A declaração é do agrônomo aposentado Carlos Jorge Rossetto, que trabalhou no IAC de 1961 até 2009. Na sua opinião, a instituição corre o risco de ser privatizada já em 2016.

Rossetto, que tem 76 anos, dos quais quarenta e oito vividos no IAC, e é segundo vice-presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), acaba de divulgar uma carta pública de sua autoria, denominada “O desmonte do Instituto Agronômico de Campinas”. Nela, fornece dados concretos de como vem ocorrendo o sucateamento desta que é uma das mais importantes instituições de pesquisa do Brasil.

Na década de 1960, a Seção de Virologia do IAC tinha nove pesquisadores. “Hoje tem apenas dois, já com tempo de se aposentarem”. A equipe da Seção de Algodão tinha oito pesquisadores, sem contar outros três que trabalhavam com algodão na Seção de Tecnologia de Fibras. “Desses oito, resta apenas um, já com tempo para se aposentar, e mais um da equipe de tecnologia de fibras. Estes fatos é que denomino desmonte do IAC. O instituto era como um continente, ativo. Hoje se assemelha a um arquipélago, com algumas unidades ainda ativas, como os centros de café e citrus”.

Rossetto assinala que, ao contrário do que alegam os defensores da privatização, no caso da pesquisa em ciência e tecnologia o setor privado não pode substituir o setor público. Porque, enquanto a pesquisa privada tem objetivo comercial ou financeiro, com foco no lucro, na pesquisa pública o foco é social ou ambiental.

Para ilustrar o que afirma, Rossetto apresenta dois exemplos na carta. O primeiro é o desenvolvimento de uma cultivar de soja transgênica tolerante ao herbicida glifosato, que “dá duplo lucro ao fabricante do herbicida, com a venda do próprio herbicida e da semente a ele tolerante”. O problema, explica, é que as folhas da planta absorvem o herbicida aplicado, que se armazena na semente que será comercializada para utilização como alimento. Para comercializar o grão da nova cultivar, a empresa precisou obter um aumento de 50 vezes no limite de resíduo do glifosato permitido no grão de soja. “É claro que esse melhoramento privado foi bom para a empresa, foi em parte bom para o agricultor, mas foi nocivo ao consumidor, que tem que comer 50 vezes mais resíduo de herbicida do que comeria com a cultivar não tolerante”.

O segundo exemplo vai no sentido oposto: é a cultivar de mandioca amarela IAC 574/70, resultante de um programa de hibridação e seleção e que, possuindo qualidade agronômica e nutricional, substituiu em todo o Estado as cultivares de mandioca branca. “As cultivares amarelas de mandioca obtidas pelo IAC foram propagadas livremente, sem nenhuma burocracia ou barreira de propriedade intelectual”, relata o pesquisador.

“Hoje o povo paulista consome mandioca amarela, rica em caroteno, de alta qualidade nutricional. O IAC não teve nenhum lucro direto com esse trabalho, que todavia teve um enorme efeito social para o povo paulista. A pesquisa privada não substitui a pesquisa pública”, conclui o dirigente da APqC, para quem a eventual privatização do instituto será prejudicial à população.