A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior  (Capes) divulgou no dia 20/9 os resultados da 1ª etapa da Avaliação Quadrienal 2017 dos programas nacionais de Pós-Graduação. Dentre os 210 programas de mestrado e doutorado da USP, 40 tiveram sua nota rebaixada, 39 melho­­raram a sua clas­sificação e 125 mantiveram a mesma nota. Seis programas foram iniciados durante o período de avaliação.

Em diferentes unidades, a reação às notas foi negativa. O programa de História Econômica da FFLCH, por exemplo, teve sua nota rebaixada de 4 para 3. Uma plenária com professores e estudantes do curso foi organizada para discutir a questão e uma comissão está encarregada de formular um recurso à Capes. Os pedidos de reconsideração de notas podem ser enviados até 20 de outubro.

“Não esperava isso, o programa tem produção há muito tempo. Desde os anos 1970 é o único programa do Brasil inteiro nessa área de pesquisa”, disse ao Informativo Adusp o professor Everaldo de Oliveira Andrade, coordenador do programa de História Econômica. “O programa corre o risco de não formar doutores para os próximos quatro anos, o que é devastador para os projetos de pesquisa em andamento”, explica o professor.

Também na FFLCH, o programa de Linguística, que por vários anos recebeu a nota máxima da Capes, também foi surpreendido pelo rebaixamento de sua nota, de 7 para 5. “A nota 7 é uma nota dada em função do grau de internacionalização do programa, essencialmente. Eu tenho dificuldade de conce­ber um programa mais internacio­nalizado, na área de Linguística, do que o nosso programa. Todos os professores têm algum convênio, parceria ou colaboração com colegas de centros importantes de fora do Brasil”, comentou o professor Marcos Lopes, do Departamento de Linguística, a pedido do Informativo Adusp

Enganos

Segundo Lopes,  “diferentes tipos” de erros foram cometidos. “Antes de mais nada houve uma troca no sistema de coleta de informações, a plataforma Sucupira substituiu o antigo, que também tinha problemas, mas não tantos”, descreve.

“Em segundo lugar, a Capes talvez não teve tempo de subsidiar os avaliadores com informações como o fator de impacto das publicações internacionais. Não sei como ficou para as outras áreas, no caso de Letras houve uma lacuna muito notória em relação a isso, é uma coisa que vamos procurar esclarecer. Depois, erro humano: no final das contas, é muito trabalho colocado sobre um único avaliador. Não sei onde exatamente ocorreu o problema, mas temos os números para mostrar”.

“Política invasiva”

No entender do professor Everaldo de Oliveira Andrade, a Capes aplica uma “política invasiva”, que tenta introduzir uma cultura que não faz parte da tradição de seu curso. “O principal é que eles cobram um aumento de produtividade, quantita­tivo, que não corresponde à pro­dução do curso [de História Econômica], que tem estudos clássicos na área. Isso não foi considerado, eles usam cálculos que cobram um índice de produtividade e oferecimento de vagas que não correspondem ao que o curso sempre trabalhou”, disse o professor.

“Na verdade, essa avaliação instrumentaliza alguns professores que ingenuamente acreditam que estão fazendo bem para a ciência. Mas eles são instrumentalizados por uma política que está destruindo os cursos em uma conjuntura nacional extremamente obscu­rantista para a universidade, a ciência e tecnologia, e principalmente para a área de História, que está sendo atacada por um setor da sociedade que não quer reflexão. É nessa conjuntura que estão aplicando essa avaliação. Ela acaba contribuindo para destruição de várias áreas da ciência”.

“A questão de fundo na avaliação Capes é que ela tem por base uma análise quantitativa em detrimento de uma real verificação da qualidade. Visa assim impor um modelo produtivista que atropela as especificidades das áreas e dos cursos, estabelecendo um controle sobre eles e, neste sentido, os que não se adaptam são rebaixados, como o programa de História Econômica que ao se recusar, por exemplo, a descredenciar seus professores mais antigos acabou em 10 anos passando da nota 6 para a 3”, afirma o professor Rodrigo Ricupero, presidente da Adusp e também membro do programa de História Econômica. 

“Outros programas para poderem manter suas notas acabam excluindo muitos docentes que não conseguem produzir no ritmo exigido e sempre crescente. Portanto, a questão não é tanto possíveis erros dos relatórios ou dos próprios avaliadores, mas discutir a própria avaliação, como aliás a representante da Capes fez em reunião esta semana na USP”.

Informativo nº 441