No Encontro de Docentes da USP de 2018, evento organizado pela Reitoria em 6/7 direcionado aos docentes contratados após 2009, as reclamações e as críticas do público contra o sucateamento e a precarização da universidade ofuscaram as apresentações do reitor Vahan Agopyan e dos membros de sua gestão.
 
Agopyan deu início ao evento declarando que seu objetivo era "apresentar como pensa a USP" e "mostrar que existem canais de comunicação entre docentes e a gestão". No seu discurso, o reitor anunciou novas medidas para a categoria, como o retorno da progressão horizontal e a criação de editais de apoio aos professores recém-contratados. Em seguida, Agopyan cedeu sua fala ao vice-reitor Antonio Carlos Hernandes, que explicou sua função e ressaltou a importância dos projetos acadêmicos institucionais, e, cerca de 30 minutos depois do começo do encontro, ambos se retiraram do auditório alegando que deveriam estar presentes em uma reunião no Palácio dos Bandeirantes.
 
 
Com a ausência do reitor e de seu vice, o evento prosseguiu com apresentações superficiais dos pró-reitores de Cultura e Extensão, de Graduação e de Pesquisa, seguidos pelos presidentes das agências USP de Cooperação Acadêmica Nacional e Internacional (Aucani) e de Inovação (Auspin). Após as falas de todos estes dirigentes, o professor Osvaldo Novais de Oliveira Junior, presidente da Comissão Especial de Regimes de Trabalho (CERT), apresentou brevemente o papel da comissão e, com um tom motivacional, incentivou o público a refletir como seus projetos de pesquisa poderiam se relacionar com o tema da Inteligência Artificial.
 
Ao fim da fala do professor Novais o caráter do evento sofreu uma reviravolta. A sucessão de discursos já conhecidos dos dirigentes foi interrompida quando Novais se dispôs a responder perguntas do público sobre os métodos de avaliação. Esta abertura, no entanto, foi utilizada pela plateia, composta majoritariamente por Professores Doutores, para extravasar suas reclamações contra os dirigentes da universidade. 
 
"Eu quero discutir questões práticas. Nossa realidade está difícil, pedem-se muitas métricas, mas ao mesmo tempo não se olha o tempo que temos que trabalhar", afirmou um professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) que deu início à série de críticas. "Eu amo esta universidade, mas não vejo habilidade para entender a realidade", concluiu o professor da FEA, sob fortes aplausos dos presentes.
 
"Eu troquei um emprego em uma universidade particular e a possibilidade de atender meus paciente na expectativa de ter uma carreira docente que iria me valorizar e que ao longo dos anos eu iria recuperar o poder aquisitivo que eu abri mão. Bom, aí eu tive um choque de realidade, ao ingressar aqui em 2014 eu não tinha nem cadeira para sentar, nem mesa, nem computador, não tinha laboratório e, atualmente, ainda não tenho", relatou, emocionado, um docente da Faculdade de Medicina (FM).  O sucateamento da infra-estrutura da universidade também foi apontado por uma docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. "Eu tive um projeto da Fapesp aprovado, ganhei dez equipamentos, que estão em caixas até hoje. O projeto já foi, já aprovaram o relatório final. Consegui desenvolver [meu projeto] em outro laboratório, a três quilômetros de onde eu trabalho", disse a professora, reclamando da falta de espaço apropriado para seu trabalho.
 
Uma professora da Faculdade de Saúde Pública (FSP), por sua vez, listou os motivos de sua insatisfação. "Se é uma reunião que o reitor fica apenas 15 minutos e, no único momento que temos para nos pronunciar, ele não está, eu questiono a validade desta reunião. Saímos com sentimento de insatisfação com três pontos que estamos falando e que não estão sendo compreendidos. Um é a falta de condições, e isso inclui salário, mas não só. [Outro ponto é o] obscurantismo. Tudo foi obscuro nas apresentações de hoje, não entendo o que é inovação nestes termos apresentados". O terceiro motivo de insatisfação citado pela docente da FSP foi a falta de democracia. A professora ressaltou sua experiência de trabalho anterior na Unifesp, onde a reitora foi eleita por voto direto e cujo órgão de avaliação também foi construído democraticamente. O caso de assédio moral provocado pelo professor Herbert Lancha Jr, na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE), também foi citado pela docente como um exemplo de falta de democracia. "Assédio só acontece quando há assimetria de poder", afirmou.
 
Outra professora, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), sintetizou o espírito do evento. "O problema é que a gente vem enfrentando na universidade a falta de espaço para que a gente se coloque. Nós, os Professores Doutores, somos a maior categoria docente desta universidade, e temos apenas um representante no Conselho Universitário. Você [professor Novais] acaba de nos dizer que não há possibilidade de termos um representante na CERT, que é para professores titulares. E quando a gente vem para uma atividade como esta, em que a possibilidade da gente intervir é muito pequena e em que a gente ouve o que já está no site das prós-reitorias, quando abre um espaço a gente quer e precisa falar. Existe uma falta generalizada de democracia na USP", declarou a docente, que também recebeu aplausos calorosos.
 
Acuado e escondendo seu constrangimento, o presidente da CERT tentou responder cada uma das críticas, incapaz de apresentar novas soluções. Posicionou-se contrariamente à democratização da estrutura de poder na USP, e apontou as unidades de ensino como responsáveis pelos problemas de infra-estrutura citados pelos docentes.
 
Ao fim da rodada de críticas, o professor Cristian Ortiz, do Instituto de Matemática e Estatística (IME), pediu a palavra para apresentar uma pesquisa de opinião realizada por ele e outros colegas com 156 docentes contratados entre 2009 e 2018. Segundo a pesquisa, apenas 7,7% dos docentes estão muito satisfeitos com sua carreira na USP; 44,2% dos docentes estão razoavelmente satisfeitos; 43,6% estão pouco satisfeitos e 4,5% estão nada satisfeitos.
 
Dos professores que responderam à pesquisa, 30% consideram muito deixar sua posição na USP; 31,4% consideram razoavelmente esta possibilidade; 25%, pouco, e apenas 12,6% não consideram mudar de emprego. Outro resultado também aponta para a insatisfação generalizada: 40,4% dos docentes não estão nada satisfeitos com seus salários e sua progressão na carreira; 37,8% estão pouco satisfeitos; e apenas 19,2% e 2,6% estão razoavelmente ou muito satisfeitos, respectivamente.
 
Após o almoço, o reitor Vahan retornou ao evento, que prosseguiu com a palestra "Docência: uma carreira sem fronteiras" e um discurso proferido por José Goldemberg, ex-reitor da USP e atual presidente da Fapesp, realizados para um auditório esvaziado. Apesar de os docentes terem sido informados por e-mail institucional que haveria uma apresentação sobre a Comissão Permanente de Avaliação, ela não aconteceu, sem justificativa ou esclarecimento quanto ao cancelamento. 
 
"Ao final do encontro, aparentemente todos saíram frustrados", descreveu uma professora que participou do evento e compartilhou com a Adusp um depoimento sobre os acontecimentos. "Os dirigentes universitários, que pretendiam celebrar e fabricar a imagem da grandeza internacional da USP como universidade de excelência da qual cada docente ali presente teria o privilégio de fazer parte devendo 'fazer por merecer' o lugar que nela ocupa, viram exposta a fragilidade de seu discurso pelas denúncias de docentes, pertencentes às mais diversas unidades e posições na carreira, ao mostrar os problemas de infraestrutura, a pouca atratividade dos salários iniciais e a falta de democracia interna", afirmou a professora.
 
"Algumas questões de fundo continuam sem resposta: qual o significado da tão falada excelência no projeto da Universidade de São Paulo? Quando se fala de interação com a sociedade, a que sociedade está se referindo? A comunidade no Butantã que sofre a falta do Hospital Universitário desmontado na gestão Zago-Vahan não é parte dessa sociedade?", questionou a docente. "De tudo que foi apresentado durante o encontro a impressão que fica é da excelência como posições em rankings internacionais, enquanto a sociedade para quem a USP deve devotar seus esforços resume-se aos governos e ao mercado".

Confira abaixo o relato completo escrito pela professora:

"O evento aconteceu na sexta feira, 6 de julho de 2018, pela manhã, dia de jogo do Brasil contra a Bélgica pela copa do mundo de futebol. Ao fim dos trabalhos, no início da tarde, o jogo seria exibido em um telão. Não acompanhei esse momento.
 
A primeira parte da programação contou com apresentações do reitor, vice-reitor, pró-reitores de graduação, pesquisa, cultura e extensão, pós-graduação. Também se manifestaram os representantes da Aucani (Agência USP de cooperação acadêmica nacional e internacional) e da Auspin (Agência USP de inovação). Ao longo dessas apresentações, não houve espaço para manifestações do plenário, entretanto, curiosamente, o reitor, ao final de sua fala, chamou ao palco do auditório do Centro de Difusão Internacional, a mais recente docente contratada pela USP (do ICB) que fez um relato pessoal contando a alegria de estar ali, realizando 'o sonho' de ingressar na USP vindo do interior do Estado de São Paulo e tendo sido aluna de escolas públicas.
 
Interessante notar que esse primeiro conjunto de apresentações, além de dados institucionais, foi marcado por depoimentos pessoais sobre a relação afetiva dos dirigentes ali presentes com a USP e o significado afetivo da universidade para eles. A pró-reitora de extensão chegou a afirmar que seu partido é a Universidade de São Paulo. O substituto do pró-reitor de pós-graduação deu o testemunho de um mineiro que pode 'realizar o sonho de estar na USP', enquanto o pró-reitor de pesquisa afirmou que 'como bom nordestino, pensava em vir para São Paulo', o representante da Aucani falou do 'privilégio de prestar serviço a essa grandiosa universidade'. Todos eles enfatizaram o árduo trabalho que realizam, ultrapassando 12 horas diárias de dedicação à Universidade.
 
Os dados institucionais apresentados também ilustravam a grandiosidade da Universidade de São Paulo, sobretudo os dados das pró-reitorias de pesquisa, pós-graduação e da Aucani. Posições privilegiadas em rankings internacionais; a USP é a universidade que mais titula doutores no mundo; a quinta do mundo com maior número de artigos publicados (12.000 por ano); as publicações frutos de colaborações internacionais são em sua maior parte com Harvard. O representante da Auspin, por seu turno, trouxe a informação de que a USP é a Universidade mais empreendedora do país.
 
A apresentação feita pelo Staff da universidade deveria expressar os modos como vêm sendo desenvolvidos os três princípios norteadores da gestão que foram citados pelo reitor na abertura do encontro: excelência, interação com a sociedade e valorização dos recursos humanos.
 
O último dirigente a apresentar os trabalhos de sua comissão foi o presidente da  CERT (Comissão especial de regimes de trabalho). Em suas palavras iniciais o reitor chamara atenção para o fato de que as pessoas acham a CERT 'um bicho de sete cabeças', daí a importância da apresentação que seria feita. Após a fala do presidente da CERT foi aberto espaço para questões e manifestações dos docentes convidados. Estava prevista uma apresentação sobre a CPA (Comissão Permanente de Avaliação) que foi suprimida por falta de tempo, dado que a atividade já adentrava o horário de almoço.
 
O presidente da CERT apresentou o funcionamento da Comissão, sem muitas novidades. O que houve de não rotineiro em sua fala foram as considerações pessoais tecidas sobre o que é a avaliação docente - o fato da avaliação olhar para o passado e a carreira se desenvolver no futuro; a afirmação de que devemos orientar nossa carreira de acordo com aquilo que temos vontade de fazer, ainda que não seja um tema da moda. Para o presidente da CERT, devemos cumprir o que a comissão exige para 'não termos problemas', mas não devemos deixar de seguir 'o caminho daquilo que está em nosso coração'. O professor fechou sua exposição falando sobre inteligência artificial e como devemos considerar essa realidade ao propormos um problema de pesquisa. Essa proposição não ficou muito clara para mim.
 
O ponto alto do evento, porém, ficou por conta das manifestações do plenário. O auditório do Centro de Difusão comporta 600 pessoas. Aparentemente, pouco mais de 1/6 desse espaço encontrava-se ocupado. Entretanto, os docentes que ali estavam aproveitaram o espaço para uma chuva de críticas às condições de trabalho e à carreira dos recém-ingressos revelando o descompasso entre a USP grandiosa, internacionalizada, empreendedora desenhada nos discursos dos dirigentes e a realidade do dia-a-dia dos docentes em suas unidades.
 
O primeiro docente a se manifestar afirmou, exatamente, 'a cegueira' dos dirigentes universitários com relação ao que chamou do 'chão da fábrica'. Foram se somando a essa fala outras que denunciavam a falta de democracia na Universidade; a falta de infraestrutura, como nos casos de docentes ali presentes que tiveram projetos aprovados pela Fapesp, mas lhes faltava espaço para alocar os equipamentos adquiridos. Uma das docentes a se pronunciar, vinda da Unifesp para a USP, afirmou que encerrou o probatório com elogios da CERT, é bolsista de produtividade do Cnpq, tem realizado tudo aquilo que a universidade determina, mas não encontra apoio para desenvolver seu trabalho. Também questionou a validade do próprio encontro como espaço de diálogo, uma vez que os reitores fizeram suas apresentações e se retiraram. Além disso, tendo em vista o período de recesso e o próprio jogo da seleção brasileira, o evento deveria ter sido remarcado para momento favorável a maior participação docente.
 
Após as inúmeras críticas sem respostas consistentes do presidente da CERT que se limitou, na maior parte das vezes, a responsabilizar às unidades de origem dos docentes pelos problemas de infraestrutura relatados, foi apresentada uma pesquisa elaborada por um grupo de docentes a partir de uma lista de e-mails criada pela própria reitoria entre os/as contratados/contratadas entre os anos de 2009 e 2018. Eles obtiveram resposta de 150 docentes do universo da lista sobre satisfação com a carreira e condições de trabalho. Salta aos olhos a significativa percentagem daqueles/daquelas que estariam dispostos a trocar a carreira na USP por uma melhor oportunidade de trabalho.
 
Ao final do encontro, aparentemente todos saíram frustrados. Os dirigentes universitários que pretendiam celebrar/fabricar a imagem da grandeza internacional da USP como universidade de excelência da qual cada docente ali presente teria o privilégio de fazer parte, devendo 'fazer por merecer' o lugar que nela ocupa viram exposta a fragilidade de seu discurso pelas denúncias de docentes pertencentes às mais diversas unidades e posições na carreiRa a mostrar problemas de infraestrutura, pouca atratividade dos salários iniciais e falta de democracia interna.
 
Os/As docentes que foram ao encontro esperando discutir o projeto de universidade pautado pela gestão Vahan/Hernades,  sobretudo no que diz respeito à nova estrutura de avaliação implantada com a CPA, no momento em que as unidades da USP estão produzindo seus projetos acadêmicos saíram sem ver esse ponto contemplado, uma vez que a apresentação sobre a CPA foi suprimida por 'falta de tempo'.
 
Algumas questões de fundo continuam sem resposta: qual o significado da tão falada excelência no projeto da universidade de São Paulo? Quando se fala de interação com a sociedade, a que sociedade está se referindo? A comunidade no Butantã que sofre a falta do Hospital Universitário desmontado na gestão Zago-Vahan não é parte dessa sociedade? De tudo que foi apresentado durante o encontro a impressão que fica é da excelência como posições em rankings internacionais; enquanto a sociedade para quem a USP deve devotar seus esforços resume-se aos governos e ao mercado".