foto: Daniel Garcia

Únicas novidades foram a crítica do superintendente do HU à proposta de desvinculação e o anúncio de acordo entre USP e Prefeitura de São Paulo para construção de uma UPA no Butantã, em terreno cedido pela universidade

O “Encontro de Professores da USP 2018” aconteceu na manhã do dia 22/8, com a participação dos professores Luiz Bevilacqua, ex-reitor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Fábio Frezatti, vice-presidente da Comissão de Orçamento e Patrimônio (COP) e diretor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), Luiz Eugênio Garcez Leme, superintendente do Hospital Universitário (HU), e Marcílio Alves, presidente da Câmara de Atividades Docentes (CAD) e representante dos Professores Associados no Conselho Universitário (Co).

Embora tenha agendado algumas questões centrais da USP neste momento (financiamento, avaliação docente, HU), este “Encontro de Professores 2018” não trouxe contribuições significativas ao debate de nenhum delas. É importante relembrar que ele aconteceu menos de dois meses depois do “Encontro de Docentes” organizado pela Reitoria, no qual as políticas da administração foram alvo de severo julgamento da plateia. Desta vez, porém, as críticas à gestão foram pontuais.

O Encontro contou com uma breve aparição do reitor Vahan Agopyan, que falou por menos de dez minutos. Agopyan parabenizou a comissão organizadora e disse que ficou “agradavelmente surpreso” com “a reunião de julho”, pois as críticas “nem sempre chegam à Reitoria”. Antes do seu rápido discurso, o evento foi aberto pelo professor Bevilacqua, que explanou sobre a necessidade da interdisciplinaridade e de se repensar a divisão das áreas de ensino frente aos avanços tecnológicos e ao cenário político internacional.

A organização coube a uma comissão formada por Marcílio Alves (EP) e Luiz Fernando Ramos (ECA), representantes titular e suplente dos Professores Associados no Co, Amâncio Jorge Oliveira (IRI), representante dos Professores Titulares no Co, e ainda Bruno Caramelli (FM), Ana Estela Haddad (FO) e Simone Hage (FOB).

USP do passado “jamais voltará”, diz diretor da FEA

Fábio Frezatti, vice-presidente da COP, fez um discurso exageradamente didático e sem novidades sobre a situação financeira da universidade. Explicou à plateia de docentes o significado de conceitos simples, como “déficit”, “superávit” e “saldo”, enquanto procurava conciliar o discurso oficial da gestão, de que a receita advinda do ICMS ainda não voltou a patamares “saudáveis”, com um tom otimista de que ações estratégicas da Reitoria garantiriam um retorno financeiro a longo prazo.

Dentre estas ações estratégicas defendidas por Frezatti foram citadas as “parcerias” com empresas (como a Petrobras), o Programa de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV) e a terceirização de serviços. Ao fim de sua apresentação, em provável referência às críticas (ouvidas no Encontro de Docentes de julho) às cada vez mais árduas condições de trabalho docente, Frezatti afirmou que a universidade “continua sendo um ótimo lugar para trabalhar”, mas que a transição para uma situação melhor “pode ser mais longa do que qualquer um de nós gostaria”.

Posteriormente, quando a palavra foi franqueada ao público, a declaração de Frezatti foi questionada por uma professora, que perguntou a ele quais ações a USP estaria adotando para combater a precarização e a evasão de docentes. Em resposta, Frezatti relativizou novamente as condições de trabalho docente, mas teve que admitir que sua própria unidade, a FEA, também enfrenta a perda de professores, concluindo que a USP do passado “jamais voltará”.

O discurso do vice-presidente da COP foi criticado, ainda, por um professor do Instituto de Química (IQ), que questionou a terceirização como uma forma de corte de custos baseada na exploração do trabalho, e pediu explicações sobre as deduções ilegais realizadas pelo governo ao calcular os repasses de ICMS às universidades públicas estaduais. Ao responder, Frezatti foi evasivo e resumiu o problema a uma “briga política” na Assembleia Legislativa (Alesp).

Defesa do HU e crítica velada a M.A. Zago

Na sua apresentação, o superintendente do Hospital Universitário (HU) Luiz Eugênio Garcez Leme compartilhou dados referentes à atual situação do hospital e que reforçam a sua importância para o ensino na universidade. De certa forma, seu discurso foi um ataque velado às atitudes tomadas pela última gestão reitoral, da qual a atual gestão é herdeira política. Mas, ao mesmo tempo, Garcez Leme defendeu o atual reitor. Sem citar M. A. Zago, ele rebateu as alegações feitas desde 2014 pelo então reitor, favoráveis à desvinculação do hospital. “O HU é fundamental, dizer que não é necessário para a formação médica é um erro básico”, declarou o superintendente.

O superintendente explicou as atuais dificuldades do hospital, mas não citou a emenda parlamentar, aprovada pela Alesp, que destinaria R$ 48 milhões ao hospital (e que foi vetada, em julho, pelo governador Márcio França). Dentre os problemas apontados por ele estariam os “custos desproporcionais” com o corpo médico. De acordo com Garcez Leme, no início das suas atividades a administração “tentou resolver o problema dos plantões médicos remunerando-os como hora-extra a 100%, além do adicional noturno, o que levou com o tempo a valores fora da realidade de mercado”.

Um destaque da apresentação foi o anúncio de um acordo entre USP e a Prefeitura de São Paulo para a construção de uma Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) na região do Butantã, com o objetivo de diminuir a demanda por atendimento primário na região e desafogar o HU. Segundo o superintendente, o acordo consiste na cessão de um terreno da USP para a construção da UPA, com a possibilidade de estágio de alunos de medicina no local. Este acordo, entretanto, ainda não foi anunciado oficialmente nem pela Reitoria nem pela Prefeitura.

Projetos acadêmicos levarão a um “paraíso”?

Por último, Marcílio Alves, presidente da CAD, explicou o atual formato da Comissão Permanente de Avaliação (“Nova CPA”), além de esclarecer detalhes sobre o formato dos projetos acadêmicos. Sua apresentação repetiu o discurso vigente da atual gestão de que o novo processo de avaliação será descentralizado, porque supostamente seria baseado em um diálogo entre os projetos acadêmicos individuais dos docentes e os dos respectivos departamentos e unidades de ensino.

Alves destacou também que os projetos acadêmicos permitirão liberdade e autonomia aos docentes, que poderão escolher priorizar suas atividades entre Graduação, Pós-Graduação, Pesquisa e Cultura e Extensão, e que também não haverá o risco de um projeto ser reprovado.

Tal discurso de autonomia e descentralização na elaboração dos projetos acadêmicos foi, entretanto, questionado por alguns dos professores presentes. Uma professora, por exemplo, foi irônica ao caracterizar a apresentação dos projetos como um “paraíso” e perguntou como o desejo individual dos professores será conciliado com as metas do departamento e da unidade. Ao responder, Alves admitiu que o desejo individual dos docentes terá que ser compactuado com as metas e o projeto acadêmico do departamento.