Nos últimos três anos, de acordo com o jornal, 73 professores pediram exoneração e outros 70 solicitaram afastamento não remunerado. Oportunidades em outras instituições do Brasil e do exterior, aumento da pressão produtivista e precarização das condições de trabalho são alguns dos fatores apontados para justificar o crescimento do número de pedidos

Reportagem da Folha de S. Paulo publicada na última terça-feira (28/1) demonstra que o número de professores que pedem para sair da USP “deu um salto nos últimos três anos”. O texto, assinado pela repórter Angela Pinho, apresenta levantamento realizado com base na Lei de Acesso à Informação e aponta que, de 2017 a 2019, 73 docentes pediram exoneração da universidade e 70 solicitaram afastamento não remunerado. Nos três anos anteriores, esses números foram, respectivamente, de 47 e 23. Na avaliação da Adusp, com base na folha de pagamento da universidade, os números podem ser ainda maiores.
 
“A crescente saída de docentes está ligada a melhores oportunidades de trabalho no exterior e em outras instituições educacionais do país. Outros motivos citados por pesquisadores são a situação política do Brasil e os cortes na ciência, além de questões pessoais”, diz a reportagem.
 
A Folha obteve informações sobre a situação atual de 42 dos 73 docentes que pediram demissão da USP nos últimos três anos. Cerca de metade (22) foi trabalhar, lecionar ou fazer pesquisa em instituições no exterior; oito saíram para universidades federais e cinco para instituições de ensino privadas.
 
De acordo com a reportagem, o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) de São Carlos está entre as unidades que mais perderam docentes – em 2015, eram 141, incluindo os temporários, contra 126 na atualidade. O êxodo, explicou ao jornal o vice-diretor da unidade, André Ponce de Leon Ferreira de Carvalho, “deve-se principalmente ao mercado internacional aquecido nas áreas de ciência de dados e inteligência artificial”. Em regra, continua o texto, “quem pede para sair é porque recebeu convite para sair do país, seja para migrar para uma instituição acadêmica ou uma empresa”.
 
A consequência da evasão, considera Carvalho, “é a sobrecarga dos que ficam e a interrupção de diversas pesquisas em andamento”. “O Brasil está perdendo a onda em inteligência artificial porque não tem gente suficiente”, afirmou ao jornal.

“Pressão por resultados, depressão e insatisfação com o trabalho”

Um dos depoimentos mais contundentes obtidos pela reportagem da Folha foi dado por um docente da área de engenharia que saiu para uma universidade federal em outro estado por razões familiares e preferiu não se identificar. Sua fala resume dificuldades enfrentadas por muitos docentes submetidos às exigências produtivistas das instâncias da administração e da burocracia da universidade, como a Comissão Especial de Regimes de Trabalho (CERT) e o novo sistema de “avaliação” centralizada – objeto de publicação especial da Adusp em outubro de 2018.
 
“A pressão por resultados no estágio inicial da carreira na USP” foi citada pelo professor “como um fator que tem levado colegas à depressão, o que pode contribuir para a insatisfação com o trabalho”.
 
“O período de estágio probatório é agressivo, principalmente na USP, porque você tem que produzir, aprender a preparar aula e fazer parte dos conselhos da universidade para ganhar pontos para a progressão na carreira. Você trabalha mais de oito horas por dia, escreve artigo no fim de semana e é comum o parecerista do relatório de estágio probatório reclamar da sua produção”, disse o professor ao jornal. “Sem dúvida nenhuma, tem-se um orgulho em ser professor da USP. Mas isso só vale do portão para fora, ou seja, para a socieade. Dentro, você é apenas mais um.”
 
O reitor Vahan Agopyan enviou declaração por escrito ao jornal afirmando que “o fato de mantermos um teto muito baixo era extremamente desmotivante para professores mais antigos e significava uma frustração para os jovens, que acabavam optando por seguir carreira em lugares onde não há esse tipo de limitação”. Agopyan faz referência à recente decisão do Supremo Tribunal Federal que igualou o teto salarial dos docentes das universidades estaduais ao das federais.
 
É o mesmo tom adotado em nota emitida nesta quinta (30/1) pelo presidente do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), Marcelo Knobel, reitor da Unicamp. O comunicado diz que o Cruesp considera que a decisão de equiparar o teto “representa um passo importante para corrigir distorções da Constituição Federal e evitar a fuga de docentes e pesquisadores das universidades estaduais paulistas, preservando, assim, as condições necessárias para que elas se mantenham entre as melhores da América Latina”.
 
Saídas voluntárias agravam déficit de docentes nas três universidades estaduais
 
“O que está ocorrendo atualmente na universidade, com salários cada vez mais baixos e sem reposição das perdas inflacionárias, piso baixo, estágio probatório agressivo, falta de apoio e uma série de dificuldades, faz com que os docentes acabem pedindo demissão, o que era raro e agora está se tornando frequente”, considera o presidente da Adusp, professor Rodrigo Ricupero. “O número de pedidos de afastamento com prejuízo de vencimentos indica que essa tendência vai seguir crescendo.”
 
As demissões e pedidos de afastamento voluntário agravam um quadro geral de queda do número de docentes da USP, conforme o Informativo Adusp vem apontando reiteradamente. Em setembro de 2014 – primeiro ano da gestão M.A. Zago-V. Agoypan –, a folha de pagamento registrava 6.142 efetivos. Em dezembro de 2019, eram 5.389. Mesmo com as contratações no período, o déficit é de 753 docentes (número que inclui aposentadorias, falecimentos e outros afastamentos).
 
A tendência de alta nos desligamentos se verifica também na Unicamp: entre 2014 e agosto de 2019, foram registradas 469 aposentadorias e 84 pedidos de demissão. Chama a atenção o fato de que, na comparação entre 2018 e o ano passado, o número de pedidos de demissão mais do que dobrou: de 11 para 23, enquanto o total de aposentadorias já havia chegado a 90 – nos dois casos, é bom lembrar, ainda faltando computar os últimos quatro meses do ano. O total de docentes ativos da universidade caiu de 1.910 em 2016 para 1.865 em 2018.
 
“O arrocho salarial nas universidades estaduais paulistas se reforçou no período da crise econômica, entre 2015 e 2019, tornando o mercado das universidades privadas mais atrativo. A possibilidade de estagiar no exterior, com grande chance de lá permanecer, também ocorre”, avalia o professor Wagner Romão, presidente da Associação dos Docentes da Unicamp (Adunicamp) e coordenador do Fórum das Seis. “A ameaça constante de cortes na ciência traz insegurança a docentes e pesquisadores. Além disso, há um desgosto enorme nas universidades com o que se tornou o MEC na gestão Bolsonaro. É dentro destes elementos que podemos compreender essa ampliação nas demissões voluntárias de nossos docentes.”
 
Na Unesp, o número de pedidos de exoneração e rescisão contratual também voltou a subir nos últimos anos. Em 2017 foram nove, no ano seguinte houve um aumento expressivo para 16 e, em 2019, foram 15. De 2010 a 2019, o total chega a 201 – média de 20 por ano. O número de docentes ativos da universidade também vem caindo continuamente: de 3.880 em 2014 para 3.305 em 2018 – uma diferença de 575 docentes.
 
Além dos atrativos e possibilidades oferecidas por outras instituições do Brasil e do exterior, o professor João da Costa Chaves Junior, presidente da Associação dos Docentes da Unesp (Adunesp), cita outros motivos para a saída voluntária de professores da universidade. “A Unesp passou por um processo de precarização e deterioração das condições de trabalho mais intenso do que a USP e a Unicamp”, diz . De 2015 para cá, a defasagem salarial na universidade é de 5,27%, porque em duas ocasiões os servidores da Unesp não receberam aumento na data-base. A sobrecarga de trabalho para os que permanecem é uma das consequências da saída sem reposição de docentes.