Professor Emérito da FFLCH e autor de textos clássicos como Crítica à razão dualista morreu nesta quarta-feira (10/7), aos 85 anos. Faculdade divulga nota de pesar na qual afirma que Chico era um “sociólogo marcante na história do pensamento social e um dos maiores intérpretes da sociedade brasileira”

O sociólogo Francisco de Oliveira morreu na madrugada desta quarta-feira (10/7), aos 85 anos, em São Paulo. Chico de Oliveira, como era conhecido, era professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP desde 1988. “Faleceu hoje o professor Francisco Maria Cavalcanti de Oliveira, sociólogo marcante na história do pensamento social e um dos maiores intérpretes da sociedade brasileira”, diz nota emitida pela direção da unidade. “Intelectual público e engajado, Chico de Oliveira mesclou sua vida pessoal à história do Brasil. A Diretoria da FFLCH enlutada solidariza-se com a família, amigos, estudantes e colegas de Chico de Oliveira”, completa o texto, assinado pela diretora, Maria Arminda do Nascimento Arruda, e pelo vice-diretor, Paulo Martins.

Uma das primeiras manifestações sobre a morte de Chico foi feita por Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da FFLCH, em sua página no Facebook: “Chico de Oliveira nos deixou essa madrugada. Semana passada visitei-o no hospital e ele pareceu-me animado e falante. Combinamos uma conversa p’ra essa semana sobre o novo projeto do Cenedic [Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da FFLCH]. Infelizmente, esse papo não acontecerá. Quanta tristeza. Que perda”.

O Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) publicou nota de pesar na qual afirma que, para além de sua obra teórica, Chico de Oliveira “teve importante atuação na universidade”. O Sintusp lembra que, em 2009, o sociólogo se lançou, com apoio do sindicato, “como anticandidato a reitor” da USP, “cumprindo importante papel na denúncia da estrutura de poder da universidade”.

O velório ocorre no salão nobre do prédio administrativo da FFLCH (Rua do Lago, 717, na Cidade Universitária) até as 22 horas desta quarta-feira. Até o fechamento deste texto não havia confirmação sobre horário e local do sepultamento.

Uma pessoa antes do Cebrap e outra depois

Nascido no Recife em 7 de novembro de 1933, Chico de Oliveira graduou-se em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco. Trabalhou no Banco do Nordeste e na Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), onde atuou com Celso Furtado. No livro A navegação venturosa, escreveu, a respeito do economista: “Num Brasil e Nordeste plagados de patrimonialismos, Furtado entrou como um cavaleiro da razão, montado no Rocinante de uma aguda inteligência plasmada para desvendar os enigmas de uma sociedade que se ergueu pela desigualdade e se alimenta dela. Alto e austero, seco de carnes, semblante talhado a foice, como certos tipos do sertão, o cavaleiro da razão é um Quixote que, do alto de sua loucura, combate incansavelmente os moinhos satânicos do capitalismo predador e de suas classes-abutres”.

Chico ficou preso por dois meses após o golpe de 1964 e depois mudou-se para o Rio de Janeiro. Em 1970, a convite do sociólogo Octavio Ianni (professor da USP, então compulsoriamente aposentado pelo AI-5), ingressou no Centro Brasileiro de Pesquisa e Planejamento (Cebrap), onde permaneceu até 1983. Retornou à instituição como seu presidente entre 1993 e 1995.

A passagem pelo centro foi tão importante que o próprio sociólogo afirmou, numa entrevista ao professor Ruy Braga, que considerava a existência de duas pessoas: uma antes e uma depois do Cebrap. “Era um ambiente muito fértil. Para mim foi uma escola, porque eu tinha uma formação sociológica muito fraca, muito débil. Fiz um curso de Ciências Sociais na minha universidade que não me deu muita sociologia, mas me deu o socialismo, o que foi uma troca extremamente proveitosa para mim”, declarou.

Um mestre da dialética” segundo Roberto Schwarcz

Os debates produzidos no Cebrap naquele período deram origem a vários textos clássicos sobre a realidade brasileira. Um dos trabalhos mais importantes de Chico de Oliveira, o artigo “A economia brasileira: crítica à razão dualista”, de 1972 (publicado como livro pela editora Vozes em 1981), foi escrito nesse contexto.

“O livro foi feito em resposta ao Fernando Henrique, que tinha um artigo [O regime político brasileiro] que no fundo dizia que a revolução burguesa, que não houve no Brasil, estava sendo feita pela ditadura. Então eu e Paul Singer protestamos. Eu com aquele texto, e o Singer com As contradições do milagre, em que ele tentava demonstrar com argumentação classicamente marxista que o milagre se explicava pelo aumento da taxa de exploração. Eu fui pelo outro lado, tentando mostrar quais eram os fundamentos da sociedade brasileira”, relembrou na entrevista a Ruy Braga.

O texto seria republicado em 2003 pela editora Boitempo, juntamente com o ensaio O ornitorrinco, no qual Chico atualizava sua análise na busca pela intersecção permanente entre a política, a economia e a sociedade brasileira e seus conflitos. No ano seguinte o livro ganharia o Prêmio Jabuti na categoria de Ciências Humanas.

Em seu último livro, Brasil, uma biografia não autorizada, lançado em 2018 pela Boitempo, Chico escreveu: “Desde logo, eis os elementos do truncamento que alimentou a autoironia dos brasileiros, às vezes cáustica, mas baseada em fatos: uma independência urdida pelos liberais, que se fez mantendo a família real no poder e se transformou imediatamente numa regressão quase tiranicida; um segundo imperador que passou à história como sábio e não deixou palavra escrita, salvo cartas de amor um tanto pífias; uma abolição pacífica, que rói as entranhas da monarquia; uma república feita por militares conservadores, mais autocratas que o próprio imperador”.

Crítico literário e professor de Teoria Literária na USP e na Unicamp, Roberto Schwarcz escreveu num artigo a respeito de Chico em 1992: “O marxismo aguça o senso de realidade de alguns, e embota o de outros. Chico evidentemente pertence com muito brilho ao primeiro grupo. Nunca a terminologia do período histórico anterior, nem da luta de classes, do capital ou do socialismo lhe serve para reduzir a certezas velhas as observações novas. Pelo contrário, a tônica de seu esforço está em conceber as redefinições impostas pelo processo em curso, que é preciso adivinhar e descrever”.

Assim, prossegue Schwarcz, “os meninos vendendo alho e flanela nos semáforos não são a prova do atraso do país, mas de sua forma atroz de modernização”. Mais ainda: “Algo análogo vale para as escleroses regionais, cuja explicação não está no imobilismo dos tradicionalistas, mas na incapacidade paulista para forjar uma hegemonia modernizadora aceitável em âmbito nacional. Chico é um mestre da dialética.”

Chico foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), no qual integrou a primeira diretoria executiva da Fundação Wilson Pinheiro, antecessora da Fundação Perseu Abramo. No final de 2003, deixou o partido, fazendo pesadas críticas ao presidente Lula, que então terminava o primeiro ano de seu governo, e tornou-se um dos fundadores do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Entre os títulos que recebeu, estão os de doutor honoris causa concedidos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Em 2008, passou a ser Professor Emérito da FFLCH.

“Estado vai ficar cada vez mais impotente para controlar violência privada”

Uma entrevista publicada em maio de 1996 pela Revista Adusp está entre as manifestações de Chico de Oliveira registradas pelos periódicos da Adusp. Entre outros temas, Chico analisou o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem havia sido colega no Cebrap. Na sua opinião, FHC fazia “um governo conservador e desastroso”.

Na entrevista, concedida ao jornalista Marcos Cripa, o professor traçava a seguinte visão a respeito do futuro da sociedade brasileira: “Vamos voltar a ser uma sociedade de arquipélagos, cheia de ilhotas de ricos extravagantes, de empresas bem-sucedidas, mas sem integração. A economia brasileira há muito tempo foi concebida como um conjunto de arquipélagos. Cada uma se ligava a uma determinada demanda externa. O açúcar ficou no exterior, depois os metais nobres como o ouro, depois as peles, o cacau e também o café. Então, a economia brasileira descrita pelos grandes historiadores era uma economia de arquipélagos. [...] O Estado vai ficar cada vez mais impotente para lidar com a sua própria territorialidade, para controlar a violência privada.”

Em março de 2000, no artigo “Universidade = Igualdade: a equação insubstituível”, publicado pela Revista Adusp, Chico defendia que “a universidade é, hoje, talvez mais do que no passado, um lugar por excelência do conflito social, do conflito de classes no sentido preciso de crivo insubstituível por onde passa a estruturação da sociedade”. “No passado, quando Marx formulou a teoria mais ampla sobre o sistema capitalista”, prossegue o texto, “ciência e técnica eram concebidas apenas como fatores auxiliares da acumulação de capital, portanto, da exploração da ampla classe proletária – não apenas no sentido fabril estrito. Hoje, como uma tendência que se reafirma desde a máquina a vapor e o tear mecânico, ciência e tecnologia não são apenas fatores ‘auxiliares’: elas são as próprias forças produtivas.”