O diretor da instituição, Ricardo Osório Galvão, docente do Instituto de Física da USP, foi alvo de pesadas críticas vindas do próprio Planalto, como a acusação de manipulação de dados sobre o desmatamento na Amazônia feita pelo general Augusto Heleno. Na próxima semana, Galvão se reúne com o ministro Marcos Pontes -  até lá, o governo determinou que o professor não faça declarações à imprensa. Entidades da comunidade acadêmica vieram a público para ressaltar a importância do trabalho do Inpe e conclamar o governo a não negar a realidade

O diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Osório Galvão, terá uma reunião na próxima quarta-feira (31/7) com o ministro Marcos Pontes, do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC). Em e-mail enviado ao Informativo Adusp como resposta a uma solicitação de entrevista, Galvão - docente do Instituto de Física (IF) da USP - informou que, por determinação do ministério, não deve conceder entrevistas à imprensa antes da reunião com Pontes.
 
Na audiência no MCTIC deve ser definida a situação de Galvão à frente do instituto. Desde o início de julho, críticas e questionamentos aos dados sobre desmatamento divulgados pelo Inpe vêm sendo disparados do Planalto. Em entrevista publicada pela BBC Brasil no dia 3/7, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general Augusto Heleno, afirmou que "esses índices de desmatamento da Amazônia são manipulados".
 
Na semana passada, foi a vez do próprio Jair Bolsonaro acusar o instituto de divulgar informações que não correspondem à realidade. "A questão do Inpe, eu tenho a convicção que os dados são mentirosos, e nós vamos chamar aqui o presidente do Inpe para conversar sobre isso, e ponto final nessa questão", declarou. "Se for somado o desmatamento que falam dos últimos dez anos, a Amazônia já acabou. Eu entendo a necessidade de preservar, mas a psicose ambiental deixou de existir comigo."
 
Na última segunda-feira (22/7), Bolsonaro voltou a atacar o Inpe e disse que a divulgação dos dados não poderia ser feita sem passar antes por ele, que não quer ser "pego de calças curtas" em relação a temas que possam ter impacto em negociações do país.
 
"Você pode divulgar os dados, mas tem que passar pelas autoridades até para não ser surpreendido. Até por mim, eu não posso ser surpreendido por uma informação tão importante como essa daí. Eu não posso ser pego de calças curtas. As informações têm que chegar a nosso conhecimento de modo que nós possamos tomar decisões precisas em cima dessas informações", disse.
 
Numa entrevista coletiva concedida no último sábado (20/7), Galvão afirmou que não vai se demitir e criticou a postura de Bolsonaro: "Ele fez acusações indevidas a pessoas do mais alto nível da ciência brasileira. Não estou dizendo só eu, mas muitas outras pessoas". O diretor do Inpe ressaltou que o capitão reformado não tem qualificação para fazer análise de dados e precisa respeitar "um senhor de 71 anos, professor titular da Universidade de São Paulo, membro da Academia Brasileira de Ciências, presidente da Sociedade Brasileira de Física durante três anos, membro do Conselho Científico da Sociedade Europeia de Física durante três anos". 
 
Não faltou também uma farpa ao anúncio da indicação de um dos filhos de Bolsonaro para ocupar a Embaixada do Brasil nos Estados Unidos: "Todos os diretores dessas unidades de pesquisa não são escolhidos por indicação política ou porque o pai deles quis dar um filé mignon pra eles", fustigou Galvão. Nesta sexta (26/7), por sinal, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, confirmou que deu o primeiro passo para indicar Eduardo Bolsonaro ao posto de embaixador, com o encaminhamento do pedido de agrémant - consulta ao país que receberá o indicado - ao governo norte-americano.
 
"Ações recentes colocam em risco um patrimônio científico estratégico"
 
Diversas entidades e associações científicas saíram em defesa de Galvão e do Inpe contra os disparos vindos do próprio governo. Entre as manifestações divulgadas nos últimos dias está a do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), que publicou nota em apoio na qual registra indignação com o ataque ao Inpe e ao seu diretor.
 
"Macular o renome conquistado pelo Inpe e pelo professor Galvão é desmerecer as instituições e enfraquecer a reputação da pesquisa nacional, prejudicando a imagem do país no exterior. Aliás, referente à imagem do país, fiscalizar o desmatamento trará resultados mais positivos do que contestar a sua divulgação", salienta o Cruesp.
 
Os reitores apontam ainda que, "mesmo enfrentando dificuldades inerentes a um país em desenvolvimento", as instituições científicas nacionais e os seus pesquisadores "conseguem produzir pesquisas respeitadas internacionalmente".
 
O Conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) também divulgou manifestação de apoio integral ao instituto e ao seu diretor. "Em ciência, os dados podem ser questionados, porém sempre com argumentos científicos sólidos, e não por motivações de caráter ideológico, político ou de qualquer outra natureza. Desmerecer instituições científicas da qualificação do Inpe gera uma imagem negativa do País e da ciência que é aqui realizada", diz a nota, que manifesta ainda "preocupação com as ações recentes que colocam em risco um patrimônio científico estratégico para o desenvolvimento do Brasil e para a soberania nacional".
 
Já no dia 10/7, dirigentes de sete entidades - entre elas a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a SBPC e a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) - haviam remetido carta a Bolsonaro em defesa do Inpe, "o maior instituto de pesquisas do Brasil", cujo trabalho qualificaram como "exemplo mundial de competência" em sua área. O documento foi enviado também aos ministros Marcos Pontes, Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Tereza Cristina Dias (Agricultura).

"Declarações de Augusto Heleno são um exemplo triste de negação"

"O Brasil tem o melhor sistema de monitoramento de florestas tropicais do mundo", afirmou em entrevista ao jornal Valor o climatologista Carlos Nobre, que atuou no Inpe de 1983 a 2012. "É muito importante que o Brasil continue a divulgar estes dados publicamente", defende. Nobre atualmente coordena o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) para Mudanças Climáticas, e já ocupou muitos outros cargos e funções em organizações do Brasil e do exterior.
 
O climatologista é um dos signatários de artigo divulgado pela Coalizão Ciência e Sociedade, que tem entre seus integrantes vários docentes da USP. O grupo publicou no site da ABC um texto intitulado "O governo e o desmatamento: a negação como mecanismo de defesa". No artigo, os cientistas se referem à entrevista concedida à BBC Brasil pelo general Augusto Heleno.
 
"A psicanálise define a negação como um mecanismo de defesa que basicamente se manifesta pela recusa em reconhecer que um evento ocorreu. A negação tem um componente inconsciente, mas também pode ter um elemento consciente significativo, com o intuito de simplesmente 'fazer vista grossa' para uma situação desconfortável", diz o texto. "As declarações do general Augusto Heleno Ribeiro Pereira são um exemplo triste de negação, em consonância com outras vozes influentes no governo que também negam a extensão das preocupações ambientais no Brasil."
 
"A negação da realidade objetiva do desmatamento nos cobra um alto custo, na diminuição do bem-estar da população brasileira, da credibilidade e reputação da comunidade científica nacional e de nossas perspectivas de inserção como parceiro comercial em um mundo onde a sustentabilidade abre as portas para mercados importantes e cooperações relevantes", prosseguem os cientistas.
 
A Coalizão Ciência e Sociedade encerra o artigo afirmando: "O mundo inteiro hoje é capaz de, por meio de uma constelação ampla de satélites com alta resolução e frequência de imageamento, avaliar o desmatamento da Amazônia e dos demais biomas brasileiros. Ou seja, não é mais possível 'tapar o sol com a peneira' ao negar dados reais e públicos com base em afirmações sem embasamento, e muito menos desprestigiar o trabalho sério e criterioso realizado pela ciência nacional. Ao contrário, nossos dirigentes demonstrariam amadurecimento e compromisso com o bem do país se tratassem de frente e com coragem a realidade objetiva do desmatamento, a começar pelo respeito e confiança na capacidade científica brasileira."