Novo evento, que será realizado na Esalq em 23/11, tem apoio da Adusp e representa um espaço de resistência aos ataques que as políticas de segurança alimentar estão sofrendo por parte do governo federal

Portão 1 da USP

O evento organizado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), com apoio da Adusp, por ocasião da Semana Mundial da Alimentação evidenciou notadamente a importância de sustentar as instâncias e dispositivos de participação social em favor da segurança alimentar, o que está sob forte ataque pelo atual governo federal. Na mesa-redonda realizada no último dia 17/10 no Pavilhão de Ciências Humanas da Esalq, Natália Gebrim Dória, presidente do Conselho de Segurança Alimentar de Piracicaba (Consea), realçou que as conferências previstas para os próximos dias no nível municipal representam espaços de resistência contra o desmonte do sistema nacional de promoção da segurança alimentar e estão sendo preparadas apesar da intenção do governo federal de extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional.

Efetivamente, os problemas agroalimentares brasileiros se agravaram nos últimos meses. Os participantes da mesa redonda trataram de questões pertinentes para o aprofundamento do conhecimento neste âmbito.

Rafael Buralli, doutorando da Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP), apresentou os resultados de sua pesquisa de avaliação de risco à saúde de agricultores familiares expostos aos agrotóxicos. Ele ressaltou que esses trabalhadores (com baixa escolaridade e pouco apoio técnico) estão constantemente expostos a múltiplos agrotóxicos sem os equipamentos de proteção recomendados e cuidados laborais que poderiam reduzir riscos.

Ademais, a saúde destes trabalhadores e suas famílias é afetada por diversos outros fatores, como viver perto de áreas de aplicação de agrotóxicos, ingerir alimentos com resíduos de pesticidas e estar expostos à contaminação do ar e água. Como consequência, apresentam muitos sintomas de intoxicação, distúrbios mentais e respiratórios, com alterações da função pulmonar. Neste quadro, o palestrante recomenda maior apoio técnico a esses agricultores familiares, atenção integral à saúde e a promoção de alternativas agrícolas mais sustentáveis.

Em seguida, Fábio Frattini Marchetti, pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ecologia Aplicada da USP (PPGI-EA Esalq/CENA) e membro do Grupo de Pesquisas em Agriculturas Emergentes e Alternativas (Agremal), abordou os principais resultados de sua tese de doutorado sobre a agrobiodiversidade de mandioca em áreas de reforma agrária na Bahia (Extremo Sul) e em São Paulo (Pontal do Paranapanema).

A pesquisa revela como os assentamentos rurais são espaços importantes para a circulação e a manutenção de dezenas de variedades de mandioca, em especial no Extremo Sul da Bahia, onde foram catalogadas 37 variedades locais, associadas a diferentes usos, como a produção artesanal de farinha, beiju, tapioca, biscoito de polvilho, entre outros produtos alimentícios. Com efeito, a agrobiodiversidade em áreas de reforma agrária e em territórios tradicionais constitui um verdadeiro patrimônio agrícola nacional, cultural e ecologicamente diverso, que contribui com o aumento da segurança e soberania alimentar das comunidades agrícolas.

Alimentação homogeneizada leva à “monotonia alimentar”

Quanto à palestra de Sandro Dias, também pós-doutorando do PPGI-EA e membro do Agremal, a ênfase recaiu sobre a homogeneização da alimentação. Apesar do aumento a cada ano da produção de alimentos, nossas escolhas alimentares nunca foram tão reduzidas. A agricultura moderna industrial reduz a agrobiodiversidade. Os padrões de consumo se tornam muito similares, independentemente da territorialidade considerada. Trata-se de um bloqueio ao desenvolvimento autônomo e à alimentação saudável. Uma monotonia alimentar se dissemina em contextos de riqueza ou de carestia. Neste quadro, o olhar sobre o papel de uma “gastronomia engajada”, que valoriza a culinária nacional e produções sustentáveis (como aquelas vinculadas a circuitos curtos alimentares e às iniciativas agroecológicas) se torna muito pertinente.

Em que medida esta gastronomia pode desempenhar uma função de educação alimentar ou até que ponto eventos gastronômicos são capazes de promover uma conscientização em favor dos agricultores familiares ecológicos e da cultura alimentar brasileira são perguntas estimulantes para o desenvolvimento de estudos sobre as mudanças alimentares no Brasil.

Enfim, Natália Gebrim Dória, que é mestre em Ecologia Aplicada e integrante do Agremal, apresentou um histórico das ações públicas no âmbito da segurança alimentar, cujos avanços estão fortemente associados à participação social em conselhos situados nos três níveis da administração pública. No entanto, estes avanços estão ameaçados. Logo no primeiro dia do atual governo federal, a Medida Provisória nº 870 extingue o Conselho Nacional de Segurança Alimentar. Diante desta conjuntura de riscos à democracia e à soberania nacional, o conselho local de segurança alimentar está convocando uma conferência municipal a fim de fortalecer as atuações coletivas locais, articuladas em rede disseminada pelo país.

Assim, a Adusp se une a estes esforços de organização, colaborando com a convocação da III Conferência Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional, que ocorrerá no dia 23/11 em Piracicaba, das 8h às 17h, com a seguinte chamada: “Fortalecendo as bases para a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, com democracia, resistência e participação popular”. O evento acontecerá na Esalq, no Anfiteatro “Urgel de Almeida Lima”.