Recentemente, a pesquisa “Interações na USP”, do Escritório USP Mulheres, estampou manchetes do Jornal da USP e até mesmo da mídia comercial. A publicidade dada aos resultados deve-se principalmente aos dados sobre a percepção que os estudantes têm da universidade: 71% a consideram um lugar machista; 89% a caracterizam como elitista; 64% como racista. Entretanto, outro dado tão preocupante quanto estes não teve tanto destaque na mídia: 47% dos estudantes que participaram da pesquisa já vivenciaram uma situação em que se sentiram desrespeitados, humilhados, discriminados ou intimidados na USP.

A pesquisa, coordenada pelo professor Gustavo Venturi, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), foi realizada por meio de um questionário enviado por e-mail a 78 mil estudantes da USP, dos quais 13.377 responderam.

Se para a cúpula da universidade e para a mídia os resultados foram surpreendentes, este não é o caso dos que sofrem, estudam e combatem as formas de opressão presentes na USP e na sociedade. Por exemplo, Beatriz Souza, estudante de Ciências Sociais e membro do Núcleo de Consciência Negra, não acha os resultados da pesquisa inesperados. “Não surpreende porque a USP desde sua fundação, e não se alterou em nada, mantém ideais elitistas, machistas, racistas, de afirmação do patriarcado e da cultura europeia. Então isso já é uma característica da USP, não é uma coisa que é nova, porque praticamente metade dos alunos da pesquisa diz que já sofreu uma violência moral, simbólica ou até mesmo sexual dentro da universidade”.

A maior parte dos resultados da pesquisa tampouco constitui novidade para a professora Heloísa Buarque de Almeida (FFLCH), uma das fundadoras da Rede Não Cala USP. “A gente tinha noção de que havia um problema de violência grave, não é surpreendente”, afirmou a professora. “O que me surpreende mais talvez seja o preconceito de classe: como uma quantidade de alunos se sente diminuída dentro da universidade. A questão das violências morais, sexuais e físicas a gente já mais ou menos imaginava”.

De fato, segundo a pesquisa, 54% dos estudantes já se sentiram inferiorizados por seus colegas. “Quem entra na USP? Quem são as pessoas que estão aqui?”, questiona Beatriz. “Na mesma pesquisa foi relatado que as pessoas se sentem inferiores aos seus colegas de classe. Não é porque ela chegou lá e se sentiu inferior, é porque as pessoas realmente cometem agressões dentro de espaços de interação dos estudantes, tanto [nas associações] atléticas como festas. É uma reprodução do que a universidade é”.

No total, 18% dos alunos já foram humilhados por seus professores, 17% por um colega, 14% foram vítimas de assédio ou de exposição pública, e 11% sofreram ameaça ou perseguição. Se a própria instituição comete agressões desse tipo, avalia a estudante, os alunos tendem a fazer as mesmas coisas. “E quando este aluno vulnerável abre uma reclamação, contra a universidade ou contra outros alunos, não é escutado. Quantos casos de estupro não aconteceram aqui dentro e [a denúncia] não foi adiante? Quantos casos de racismo?”

Sindicâncias inadequadas e falta de locais de acolhimento

Um dos diferenciais da pesquisa foi a existência de perguntas abertas, qualitativas, para além das questões de múltiplas escolhas, quantitativas. Segundo o professor Gustavo Venturi, durante a apresentação dos primeiros resultados em junho, a análise das perguntas qualitativas ainda está em andamento, devido ao tamanho reduzido da equipe da pesquisa. Entretanto, já é possível examinar alguns de seus resultados. Por exemplo, o dado de que 47% dos estudantes já vivenciaram uma situação de desrespeito, humilhação ou intimidação é complementado pela descrição dos estudantes de como isto aconteceu. A partir destes relatos, foi possível construir uma nuvem de palavras com as mais citadas nas descrições dos acontecimentos, como “assédio”, “festa”, “trote” e “sexual”.

A pesquisa também classifica as violências sofridas pelos estudantes, dividindo-as entre violência moral, como assédio sexual e humilhação verbal; violência sexual, como abuso sexual ou contatos físicos sem consentimento; e violência física, como agressões e espancamentos. Segundo os resultados, 26% dos estudantes já sofreram violências morais, 7%, sexuais e 3%, físicas.

“A grande questão da USP não é só que a violência acontece aqui, mas o que aconteceu quando alguém tentou denunciar este tipo de violência. Não era o objetivo da pesquisa, que já é muito longa”, afirmou a professora Heloísa. “A sensação que eu tenho, falando como uma professora da Rede Não Cala, é que a gente já sabia que a coisa era séria. A gente falava isso para a Reitoria e USP Mulheres. Pouco antes de sair o resultado da pesquisa, estas pessoas que estão na gestão diziam que ‘não chegou denúncia formal’. A pesquisa é boa para mostrar que as denúncias formais não chegam porque as pessoas não denunciam, porque sabem o que acontece com quem já denunciou”.

No entender da docente, na USP a denúncia de uma violência é algo que termina por expor quem denunciou: “Os procedimentos não são adequados, as sindicâncias não são adequadas para este tipo de violência”, explicou Heloísa. “O acolhimento a gente faz muito informalmente na Rede Não Cala, a gente propôs à Reitoria a formação de um centro de referência, foi feito um projeto e entregue à Reitoria. Parece que foi ignorado. Se a Reitoria pretende tornar o USP Mulheres um local de acolhimento, ela não fez isto ainda. Faltam canais para combater este tipo de violência muito expresso na pesquisa, mas é preciso também repensar o Regimento Interno, melhorar as sindicâncias e os processos administrativos disciplinares para eles serem mais cuidadosos nestes casos”.

A estudante Beatriz Souza concorda que há uma ausência de espaços de acolhimento para as vítimas na universidade, pois a Superintendência de Assistência Social (SAS) não cumpre adequadamente esse papel. “Às vezes a SAS não é um espaço saudável, os alunos chegam com suas demandas de permanência estudantil e são negligenciados pelas pessoas que atendem e, quando não são, a burocracia da universidade não permite [o atendimento das demandas]. Além disso, um espaço para acolhimento psicológico é cada vez mais necessário, o índice de alunos que precisam disso não é normal”.

Ela aponta, ainda, a falta de suporte a determinados grupos de pesquisa. “Acolhimento acadêmico a USP também não permite. Grupos de pesquisas voltados à Saúde Mental da Mulher ou à Saúde Mental do Povo Negro são coisas que raramente acontecem na USP. [É necessário] permitir que isto aconteça de forma livre e que seja respeitado pela universidade. Porque quando acontece, no máximo vira um grupo de pesquisa largado, sem suporte da universidade para que tenha eficácia”, explica a estudante.

Qual deveria ser o papel da USP frente à violência em seus campi também foi uma das questões abordadas pela pesquisa. Segundo os resultados, 28% consideram prioritário “adotar medidas preventivas e educativas” e 21%, “criar mecanismos para oferecer apoio (psicológico, médico, jurídico) às pessoas que foram vítimas de violência”.

Maiores vítimas são alunos negros e mulheres homo ou bissexuais

Outro diferencial da pesquisa “Interações na USP” é a apresentação de intersecções dos dados, como o número de vítimas de violência por gênero, cor, orientação sexual e renda familiar. A pesquisa mostra, por exemplo, que alunos negros são os que mais sofreram humilhações por parte de professores (22%) ou de colegas (24%), enquanto o mesmo resultado para alunos brancos foi de 18% e 17%, respectivamente.

De forma similar, 38% das mulheres homo ou bissexuais já sofreram assédio, exposição ou outro tipo de ofensa; o resultado para a mesma pergunta foi de 20% para homens homo ou bissexuais, 19% para mulheres héteros, e 7% para homens héteros. Ao se levar em conta o recorte racial, os resultados são ainda mais impressionantes: 50% das estudantes negras e não heterossexuais já foram vítimas de assédio, exposição ou outras ofensas.

“Quando a gente olha os números é a questão das alunas negras não heterossexuais, é uma proporção de violência muito alta. A gente vê como a universidade é desigual, internamente. A grosso modo o mais impressionante é isso, a desigualdade entre os grupos particulares da universidade, e é muito raro a gente ter pesquisa sobre a universidade neste nível de detalhamento”, diz a professora Heloísa.

“Um aspecto é que em parte, os dados que a gente vê na USP são parecidos com a sociedade brasileira em geral. Homossexuais sofrem mais violência do que heterossexuais, mulheres sofrem mais violências do que os homens, mulheres negras sofrem mais que as mulheres brancas; tudo isto está condizente com a sociedade brasileira. No entanto, isto é grave porque a universidade deveria ser o lugar que saberia combater este tipo de coisa, que deveria criar um outro tipo de relação entre os alunos, não só entre alunos e professores”, conclui.

Os resultados, entretanto, poderiam ser ainda mais graves. A pesquisa foi realizada em 2017, antes da entrada de alunos cotistas. Assim, a grande maioria dos que responderam a pesquisa, 74%, foi composta por estudantes brancos. “Se até os alunos brancos estão conseguindo ver a violência que outros alunos ou até mesmo eles sofrem, imagine se fôssemos fazer esta pesquisa com um público de maior vulnerabilidade. Se o público que tivesse respondido fosse majoritariamente este, os dados seriam ainda mais relevantes e mais altos”, comenta Beatriz.