Foi assassinada a tiros no Rio de Janeiro, na noite de 14/3, a vereadora Marielle Franco (PSOL). Ativista das causas das mulheres, dos negros e dos direitos humanos, Marielle tinha 38 anos e foi a quinta parlamentar mais votada na eleições de 2016. Ela voltava de uma roda de conversa com jovens negras quando seu carro foi atacado por ocupantes de outro veículo, no bairro do Estácio, na região central carioca. Os assassinos dispararam nove vezes. A vereadora e seu motorista, Anderson Gomes, tiveram morte instantânea.

Os criminosos fugiram sem levar nada, mas até o fechamento desta matéria a Polícia Civil ainda não havia confirmado a hipótese de execução, e alega que não descarta “nenhuma possibilidade” quanto à motivação do crime. De acordo com o jornal O Globo e o site G1, fontes da Polícia Civil afirmaram que os assassinos de Marielle seguiram seu carro desde que ela saiu do evento em que estava.

A morte de Marielle soma-se às de 63 jovens negros e às de 385 mulheres assassinados diariamente, em média, no Brasil (conforme o Mapa da Violência 2016, da Flacso-Brasil). Seu assassinato, no entanto, sobressai-se em meio às estatísticas não só por se tratar de uma destacada parlamentar, mas por Marielle ser uma líder comunitária e defensora dos direitos humanos, diretamente engajada na fiscalização das ações repressivas da Polícia Militar e também das Forças Armadas, que intervêm no Estado do Rio de Janeiro desde o decreto do presidente Michel Temer de 16/2/2018.

Nascida e criada no Complexo da Maré, trabalhando desde 11 anos, Marielle cursou a graduação em Ciências Sociais na PUC-Rio, com bolsa integral, e mestrado na Universidade Federal Fluminense (UFF), onde defendeu a dissertação “UPP: a redução da favela a três letras”. Presidente da Comissão da Mulher da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, desde 28/2 Marielle tornou-se também a relatora da “Comissão de Representação de Acompanhamento da Intervenção Federal na Segurança Pública do Rio”.

Abusos da Polícia Militar

Nos últimos dias, Marielle vinha denunciando publicamente os abusos cometidos na comunidade de Acari pelo 41º Batalhão da PM, que segundo a Folha de S. Paulo é responsável, desde sua criação em 2011, por 12% de todas as mortes produzidas por policiais militares na cidade e agrupadas sob o rótulo de “oposição à intervenção policial”. Ou seja: é o batalhão da PM que mais mata na capital carioca.

O assassinato da combativa vereadora foi noticiado por alguns dos principais jornais do mundo. Entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil, a Associação Juízes pela Democracia (AJD), Movimento Sem Terra (MST), CUT, Conlutas, Andes-Sindicato Nacional (Andes-SN), Anistia Internacional e vários partidos, a começar do próprio PSOL, PT, PCB emitiram notas de protesto.

Como resposta ao assassinato, marchas contra o genocídio negro estão sendo marcadas em pelo menos nove capitais e em cidades como Campinas, Ribeirão Preto, Bauru e Juiz de Fora, entre outras. Em São Paulo, o ato ocorre hoje, 15/3, a partir das 17 horas, no MASP.

Nota do Andes-SN

“A luta pelos direitos humanos, incluindo a denúncia da violência policial no Estado do Rio de Janeiro, era uma das bandeiras empunhadas por Marielle Franco, e o Andes-SN manifesta grande preocupação a respeito desta tragédia, que ocorre no momento em que há um aumento da militarização do estado do Rio de Janeiro, o qual se encontra sob autoritária intervenção das forças armadas”, diz a nota do Sindicato Nacional.

“Assim como as lutas encampadas pelo Andes-SN sempre encontravam com Marielle pelas ruas da cidade, o nosso luto por Marielle deverá ser transformado em resistência e luta em sua homenagem e respeito. O assassinato de Marielle representa também o extermínio da população negra, das mulheres e moradoras de favela. Não vão nos calar! Por Marielle e todas as mulheres negras, pobres e faveladas que são exterminadas pela quadrilha no poder a serviço do capital. Marielle, presente! Anderson, presente!”