No dia 30 de agosto, às 14 horas, no Anfiteatro da História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP), ocorreu o lançamento da edição 59 da Revista Adusp, que deu especial atenção a temas conjunturais: o desmonte em curso na USP — destacadamente o projeto da Reitoria de criar a “Nova CPA” — e a crise política nacional.

Compuseram a mesa os professores Ciro Teixeira Correia (IGc) e José Marcelino de Rezende Pinto (FFCLRP), autores dos artigos relacionados à “Nova CPA” publicados nessa edição, e o jornalista João Peres, autor das reportagens sobre o seminário “Caminhos da Esquerda diante do Golpe”, realizado em maio na FFLCH. Todos fizeram breves comentários. A moderação ficou a cargo do jornalista Pedro Pomar, editor da Revista Adusp.

Peres retratou, concisamente, o cenário atual, marcado pela hegemonia do capital financeiro: “É um capitalismo intolerante com qualquer nível de democracia. O pagamento de juros consome metade do Orçamento federal, mas [Michel] Temer e [Henrique] Meirelles não são questionados sobre esse assunto”.

O jornalista se disse satisfeito pela experiência de cobrir o seminário da FFLCH, dada a riqueza dos debates, mas advertiu: a indagação sobre que rumos as forças políticas de esquerda devem tomar neste dramático momento histórico (indagação que foi a razão de ser do evento e lhe deu o nome) continua colocada, sendo ainda um desafio a construção de uma resposta.

Desqualificação

Em diálogo com a exposição de Peres, Ciro observou que há uma ação de desqualificação dos sujeitos que se opõem ao centro hegemônico: “As decisões do mercado estão fora da agenda de discussão”, de forma tal que as pessoas são alienadas do debate. Analogamente, acrescentou, é o que tem se colocado, também, na USP, onde, a seu ver, se verifica uma desconstrução do espaço de debate, o que, em especial na universidade, é inaceitável.

O professor do IGc e ex-presidente da Adusp traçou um retrospecto da atuação da gestão M.A. Zago-V. Agopyan no tocante à agenda política. Assinalou que, no final da gestão J.G. Rodas, “o Conselho Universitário (Co) teve de reconhecer que havia problemas concretos com a estrutura de poder”, dando início a um processo de reformas, ainda que limitado.

No entanto o atual reitor, após “atropelar” a comissão encarregada de conduzir o processo de reformas (Caeco) e, com seu comportamento autoritário, inviabilizar o debate, desviou a agenda para os temas da avaliação e da carreira, criando sucessivos grupos: “GT-AD” (um “balão de ensaio rechaçado pelas congregações”) e “comissão dos sete”. Ciro qualificou como vergonhosa a participação dos representantes da Reitoria no debate realizado no IAG, por não responderem à maior parte dos questionamentos recebidos.

Destacou também, o modo enviesado e anti-acadêmico com o qual o professor Carlos Martins (membro da “comissão dos sete”), fez referência em sua exposição ocorrida na EACH em 23/8, ao artigo do professor Marcelino, publicado na revista, sugerindo que o texto propunha que a avaliação se desse por especialistas e “cientometristas”, o que não guarda qualquer relação com a bem fundamentada argumentação do artigo, a demonstrar que a comissão da Reitoria sequer se ocupou de incluir alguém da USP que de fato tenha conhecimento do tema.

AI-5 tardio

Marcelino, após registrar a importância da Revista Adusp (“por sua capacidade investigativa, pauta outras publicações”), frisou que a USP precisa de mudanças estatutárias que a democratizem. “Se tem uma instituição que precisaria de uma reforma estatutária, até porque não cumpre a LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação], é a USP. O Estatuto de 1988 é um AI-5 tardio”, ironizou. “Tudo é definido a partir dos professores titulares. Há colegiados secretos, atas secretas!”

“Eu votei nesse reitor, porque ele apresentou uma proposta em que eu acreditei”, revelou o professor da FFCLRP, referindo-se às promessas de diálogo, logo frustradas (“tomou posse e rasgou, então é traição”). “Avaliação sempre foi um mecanismo de controle da atividade docente”, lembrou Marcelino, fazendo referência a seu artigo na revista. Ele classificou como inadequada a exposição de movitos do projeto da “Nova CPA” e denunciou o que chamou de “falsa discussão com a counidade”.

Ao final, abriu-se a palavra ao plenário. O professor Marcos Barbosa de Oliveira (FE), membro do Conselho Editorial da Revista Adusp, notou que o projeto da Reitoria silencia quanto aos métodos de avaliação. A professora Adriana Tufaile (EACH) reforçou que no debate realizado na sua unidade o professor Carlos Martins fez menção distorcida ao artigo do professor Marcelino. A professora Rosangela Sarteschi (FFLCH) citou exemplo de um colega no probatório que seguiu o roteiro proposto pela CERT e anexou ao seu relatório cartas de alunos, tendo o relatório retornado da comissão com elogios ao docente. “São tempos patéticos”, comentou ela.

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