A precarização da carreira docente na USP, iniciada na gestão M.A. Zago-Vahan Agopyan e aprofundada na gestão Vahan Agopyan-Antonio Hernandes, não poupa nenhuma unidade ou curso. Ela acaba de chegar ao curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), que já vinha sendo objeto de disputas internas e controvérsias. Estão em andamento diversos editais destinados à seleção e contratação de professores temporários, com reduzida carga horária (jornada de 12 horas semanais) e baixos salários.
 
Os processos seletivos vinculados ao editais 001/2021/FOB(ATAc) e 002/2021/FOB(ATAc), por exemplo, prevêem a contratação, cada um, de quatro professores temporários “junto [sic] ao Departamento de Odontopediatria, Ortodontia e Saúde Coletiva para atender as necessidades do Curso de Medicina da FOB-USP”, com ênfase nos ambientes de ensino de Atenção Integral à Saúde (Modalidade Atenção Hospitalar) (ambos), Sistemas Orgânicos Integrados (edital 001) e Laboratório de Habilidades e Simulação (edital 002).
 
As contratações, pelo prazo máximo de dois anos, obedecerão ao esquema geral que a USP vem praticando nesses casos, e que impõe salários irrisórios, seja “como Professor Contratado III (MS-3.1, para os contratados com título de Doutor), com salário de R$ 1.918,72”, seja “como Professor Contratado II (MS-2, para os contratados com título de Mestre), com salário de R$ 1.371,79, ou como Professor Contratado I (MS-1, para os contratados somente portadores de diploma de graduação), com salário de R$ 927,33 referência mês de maio de 2019, com jornada de 12 (doze) horas semanais de trabalho”.
 
No dia 6/4, por exemplo, estava prevista a realização das provas didáticas e de arguição do memorial de três candidatos graduados inscritos no edital 001, conforme e-mail enviado pela Assistência Acadêmica da FOB e comunicado de idêntico teor publicado na seção de concursos e licitações da unidade. Também estava prevista a “divulgação do resultado”, mas esta informação ainda não consta da página. Os links para as provas citadas, citados no e-mail e na página intitulada “Transmissões Públicas”, remetem a vídeos indisponíveis.
 
Apesar da remuneração miserável, os editais fazem enormes exigências aos candidatos e candidatas. Além disso, as tarefas atribuídas aos futuros docentes serão pesadas. No caso do edital 001, quem vier a ser aprovado terá de “ministrar os seguintes blocos de disciplinas”: 1) Atenção Integral à Saúde I a VIII, 2) Sistemas Orgânicos Integrados I a VIII, 3) Laboratório de Habilidades e Simulação I a VII. No caso do edital 002, aos blocos já citados é acrescentado um quarto: Eixo Tutorial I a VIII.
 
Os dados apresentados suscitam uma série de questionamentos sobre o curso de Medicina, uma vez que a contratação de professores temporários coloca em dúvida o discurso da direção da FOB de que o curso vem sendo fortalecido. Como agravante, a eventual contratação de professores temporários apenas graduados, sem doutorado nem mestrado, parece incompatível com a qualidade da formação que se espera de um curso de Medicina — e particularmente de um curso de Medicina da USP.
 
“A contratação de docentes temporários para um curso tão novo só comprova a irresponsabilidade da gestão Zago-Vahan na criação de um curso sem garantia das condições mínimas”, declarou ao Informativo Adusp o professor Rodrigo Ricupero, presidente da Adusp.
 
Como revelado recentemente, o projeto de criação de um curso de Medicina na FOB, submetido ao Conselho Universitário (Co) em julho de 2017 pelo então reitor M.A. Zago, foi alvo de questionamento severo por parte de diversos conselheiros — e aprovado por escassa maioria. Além da celeridade indevida da tramitação do projeto, motivada por interesses eleitorais do então governador Geraldo Alckmin (PSDB), foram apontadas inconsistências orçamentárias e a insuficiência numérica do reduzido corpo docente proposto.
 
No dia 8/4 o Informativo Adusp encaminhou ao diretor da FOB, professor Carlos Ferreira dos Santos, por intermédio da assessoria de imprensa da unidade, algumas perguntas que dizem respeito à qualificação dos potenciais novos e novas docentes, aos salários que serão pagos e às funções que lhes serão atribuídas. Não houve retorno do diretor até o fechamento desta matéria. Tão logo as respostas cheguem elas serão publicadas.