O Brasil saiu da letargia neste sábado, 29/5, quando centenas de milhares de manifestantes voltaram às ruas nas principais cidades do país para expressar seu veemente protesto contra o governo genocida e ultraliberal de Jair Bolsonaro (ex-PSL, sem partido). O impeachment e a vacina foram os motes centrais das manifestações. “Se o povo protesta em meio a uma pandemia é porque o governo é mais perigoso que o vírus”, dizia um dos cartazes, inspirado em frase usada na greve geral contra o governo colombiano.

A virada política ocorre quando o país já registra oficialmente mais de 460 mil mortes pela Covid-19. Daqui para a frente, será difícil para a tropa de choque parlamentar do governo manter engavetados os mais de 60 pedidos de impeachment do presidente da República por crimes de responsabilidade protocolados e até agora ignorados por Rodrigo Maia (quando presidente da Câmara dos Deputados) e Arthur Lira (atual presidente).

“Bolsonaro genocida”, “Bolsonaro no Tribunal de Haia”, “Faltam quantos mortos para o impeachment?” eram os dizeres de alguns dos cartazes empunhados por manifestantes, que também exibiram fotos de parentes próximos mortos em razão da pandemia e mensagens de menção a personalidades como o ator Paulo Gustavo.

A Adusp esteve presente no protesto realizado na Avenida Paulista, representada por docentes que se juntaram à manifestação levando as bandeiras da entidade e do Andes-Sindicato Nacional.Usavam máscaras PFF2 e se mantiveram distantes dos pontos de maior aglomeração ao redor dos carros de som. O grupo esteve presente até o momento em que a manifestação começou a se deslocar para a Avenida da Consolação.

“Nossa avaliação foi a de que deveríamos participar tomando todos os cuidados necessários. O que estamos vivendo é muito grave e concordamos com as pessoas que consideram que a permanência de Bolsonaro no governo significa maior risco de se perder vidas do que a militância nas ruas, com todos os cuidados”, explica a professora Michele Schultz Ramos, vice-presidente da Adusp. “Entre o pequeno risco de contaminação em espaço aberto, com máscaras adequadas e distanciamento, e o risco de Bolsonaro permanecer até o final do mandato, ficamos com o primeiro”.

Apagão da mídia representa “vergonha histórica”, “negacionismo noticioso”

“O Brasil nas ruas contra Bolsonaro: milhares em marcha porimpeachment e vacina”. A manchete é do tradicionalíssimo jornal italiano Corriere della Sera. Parecida com a do The Guardian, jornal inglês mais à esquerda: “Dezenas de milhares de brasileiros marcham para exigir o impeachment de Bolsonaro”. De modo geral, a mídia mundial procurou refletir a importância do #29M. A exceção, claro, foi a mídia brasileira.

Dos grandes jornais tradicionais brasileiros, apenas a Folha de S. Paulo deu manchete condizente com a magnitude das manifestações: “Protestos contra Bolsonaro reúnem milhares nas ruas em meio à pandemia”.Já O Globo e O Estado de S. Paulo fingiram que nada aconteceu.“PIB reaquece,e empresas desengavetam R$ 164 bilhões em projetos”, foi o principal destaque de capa do diário carioca. A do Estadão foi na mesma linha de matérias frias dominicais: “Cidades turísticas se reinventam para atrair o home office”.

A jornalista e escritora Eliane Brum não perdoou o comportamento de ambos, classificando suas capas como “vergonha histórica”. A seu ver, esses jornais estão “traindo os fatos” e “não aprenderam nada com a ditadura militar”. No Twitter, Daniel Mack ironizou: “A crise financeira da grande imprensa é tão grave que Estadão e Globo não têm mais correspondentes no Brasil”.

Igualmente grave foi o comportamento das grandes emissoras, TV Globo e Globonews à frente, ao longo do #29M. Noticiaram os protestos como algo relevante, mas sem lhes atribuir a importância devida, e destacando a ocorrência de “aglomerações” (algo que a Folha, por exemplo, também fez). A cobertura só melhorou no dia seguinte.

“A capa de jornais e revistas de informação sempre pretende ser, mais que a face, a boca confiável da história. Quando a boca se acovarda, independentemente de chamadas menores na própria capa, nas páginas internas e na rede, é a história que fala: trata-se de negacionismo noticioso, escancarado na face e pela boca, entre dentes amedrontados”, avalia o professor Eugenio Trivinho, do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

“No âmbito da grande imprensa conservadora brasileira, esse negacionismo noticioso, quando ocorre, não serve apenas a interesses inconfessos. Arrogante, pretende, em vão, cancelar fatos históricos. Entretanto, não se reduz à mera recusa a conceder a manchete principal. Se desfavorável, a manchete pode ser tão ou mais nefasta quanto sua ausência. O negacionismo noticioso pratica, em geral, depreciação da natureza, do tamanho e das repercussões dos fatos”, destaca.

Ainda segundo Trivinho, o negacionismo noticioso “despreza para isolar e promove para emplacar” — e, “escudado em suposta neutralidade jornalística ou equidistância isenta entre interesses políticos, expressa sua própria ideologia, parcial como tutti quanti”.

 

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