A pressão das ruas contra o governo de Jair Bolsonaro (eleito pelo PSL e atualmente sem partido) foi intensificada no último sábado (3/7) com a realização de novos protestos em cerca de 320 cidades do Brasil e em mais de 30 cidades do exterior.

Avenida Paulista

A terceira grande rodada de atos pelo impeachment de Bolsonaro desde o final de maio mostrou mais uma vez que, mesmo com as dificuldades e as limitações impostas pela tragédia sanitária da pandemia da Covid-19, os movimentos, partidos e coletivos reunidos na Campanha #ForaBolsonaro demonstram capacidade de articulação, organização e resistência. Como nas manifestações do #29M e #16J, os participantes usavam máscaras e álcool em gel e procuraram manter o distanciamento.

As manifestações estavam previstas inicialmente para o dia 24/7, mas foram antecipadas por conta das denúncias feitas à CPI da Pandemia no Senado indicando fraudes bilionárias na aquisição de vacinas pelo governo federal. Na avaliação dos organizadores, a participação popular no último sábado superou a dos protestos do dia 19/6, que mobilizaram cerca de 750 mil pessoas.

Em São Paulo, a manifestação voltou a se concentrar à tarde na avenida Paulista, reunindo dezenas de milhares de pessoas, que seguiram em passeata ao centro da cidade no início da noite. Representantes da Adusp e do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN) participaram do ato. A Adusp também esteve representada nas manifestações realizadas no interior do Estado.

Fernanda Ponzio/Andes-SN

Viçosa (MG)

Na capital, militantes do Partido da Causa Operária (PCO) tentaram expulsar um grupo que se apresentou como “Ala da Diversidade do PSDB” — pela primeira vez tucanos participaram oficialmente das manifestações. Integrantes do Movimento Sem Teto do Centro (MSTC) intervieram para impedir a agressão e três deles acabaram com ferimentos. Também foram registradas ações violentas da PM contra manifestantes após um ciclista ter sido atingido pelo motorista de um carro importado que não respeitou a sinalização de trânsito enquanto a passeata se dirigia ao centro, provocando reações de outros participantes do ato.

“É hora de ir para cima do Congresso Nacional”, diz presidenta do Andes-SN

A professora Rivânia Moura, presidenta do Andes-SN, considera que é preciso manter a pressão nas ruas. ‘‘Hoje [sábado] foi mais um dia de luta pelo Fora Bolsonaro. No Brasil inteiro, tivemos pessoas pelas ruas, pois não é hora de recuar. É hora de ir para cima do Congresso Nacional para que a vontade do povo brasileiro seja respeitada e que coloque o impeachment de Jair Bolsonaro para andar e que ele possa ser punido por todos os crimes que cometeu’’, afirmou, em reportagem publicada no site da entidade.

Na avaliação do professor Ricardo Musse, docente do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, “as manifestações de 3 de julho cumpriram a função de manter a mobilização iniciada em 29 de maio”. “Convocadas às pressas, por conta das denúncias de corrupção na compra de vacinas pelo governo federal, levaram às ruas um número expressivo de pessoas, em atos com dimensões semelhantes aos de 19 de junho. A novidade foi o engajamento de (ainda poucos) militantes do PSDB e do Cidadania, em sintonia com o arco de apoio ao superpedido de impeachment protocolado na Câmara dos Deputados no dia 30 de junho”, disse o professor ao site IHU Online.

Elineudo Meira/Fotos Públicas

Avenida Paulista

“As revelações da CPI, com suas repercussões na grande imprensa, nas redes sociais e nas ruas, colocaram em cena, com força, a possibilidade do impeachment”, considera o professor — para quem, no entanto, a conjugação de fatores necessários para convencer o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e a maioria qualificada dos deputados a fazer o processo avançar ainda não se mostra suficiente.

Denúncias de rachadinhas envolvem familiares e coronel da reserva

Passadas poucas horas das manifestações, a semana começou agitada para Bolsonaro e família. Nesta segunda, o UOL publicou graves denúncias apresentando áudios que apontam o envolvimento direto do ex-capitão no esquema ilegal de entrega de salários de assessores na época em que exercia mandatos de deputado federal (de 1991 a 2018), as célebres “rachadinhas”.

Os áudios da fisiculturista Andrea Siqueira Valle, ex-cunhada de Bolsonaro, citam várias pessoas da família (como seus filhos) e do círculo próximo do chefe do Executivo, incluindo um coronel da reserva do Exército, Guilherme dos Santos Hudson, colega de Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) na década de 1970. De acordo com Andrea, Hudson recolhia o seu salário como assessora do então deputado estadual e hoje senador Flávio Bolsonaro entre 2008 e 2018. O próprio coronel chegou a ser contratado como assessor do filho 01 na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Também nesta segunda, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) divulgou pesquisa que demonstra o crescimento da rejeição a Bolsonaro. O governo é avaliado negativamente (ruim + péssimo) por 48,2% dos entrevistados, enquanto 62,5% desaprovam o desempenho pessoal de Bolsonaro. A gestão da pandemia pelo governo federal foi desaprovada por 57,2% dos entrevistados e, na área econômica, 92,4% acreditam que os preços estão aumentando muito.

Pirassununga (SP)

A pesquisa ouviu presencialmente 2.002 pessoas em 137 municípios de 25 unidades da Federação entre os dias 1º e 3/7.

CPI pode aprovar quebra de sigilos do deputado Ricardo Barros

Más notícias pra o governo também devem vir do front da CPI da Pandemia no Senado. Na manhã desta terça (6/7), a comissãoouve o depoimento da servidora Regina Célia Silva Oliveira, fiscal de contratos no Ministério da Saúde que autorizou a compra da vacina indiana Covaxin, negociação sob suspeita de superfaturamento para pagamento de propinas.

A denúncia de irregularidades no caso foi levada pessoalmente a Bolsonaro em março pelo deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) e por seu irmão Luis Ricardo Miranda, servidor do Ministério da Saúde. Bolsonaro teria mencionado o envolvimento do deputado federal Ricardo Barros (PP-PR) no caso e prometeu tomar providências, mas nada fez, o que caracterizaria prevaricação.

Nesta terça, a CPI deve votar ainda uma série de requerimentos pedindo a quebra de sigilos bancário, fiscal e telefônico do próprio Barros, ex-ministro da Saúde no governo de Michel Temer, e de outras pessoas ouvidas ou investigadas pela comissão. Também podem ter os sigilos quebrados odeputado Luis Miranda, o policial Luiz Paulo Domiguetti, que se apresentou como intermediador de venda de vacinas e denunciou pedidos de propina no Ministério da Saúde, e o empresário Cristiano Alberto Carvalho, CEO da Davati Medical Supply.

Igor Sperotto/Extraclasse

Porto Alegre (RS)

Larissa Lana/Andes-SN

Ouro Preto (MG)

Ricardo Stuckert

Esplanada dos Ministérios