Apontadas por Jair Bolsonaro e seus seguidores como úteis no combate à Covid-19, em estudos duplo-cego randomizados a hidroxicloroquina e a ivermectina mostraram-se totalmente contraindicadas para essa doença. “Dá um pouco de dó dessa ignorância”, diz o docente da Faculdade de Saúde Pública da USP referindo-se aos médicos que defendem o kit-Covid. “Só não dá mais dó porque todos os medicamentos têm efeitos colaterais. A cloroquina, hidroxicloroquina são cardiotóxicas. A ivermectina e a nitazoxanida são hepatotóxicas”. A CPI da Pandemia indiciou seis membros do “gabinete paralelo” por envolvimento na apologia do “tratamento precoce”

Marcos Oliveira/Agência Senado

Senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Omar Aziz (PSD-AM) e Humberto Costa (PT-PE) entregam cópia do relatório final da CPI ao ministro Luiz Fux, presidente do STF
A CPI da Pandemia, instalada pelo Senado Federal em abril, votou a versão definitiva do seu relatório final em 26/10. Aprovado por 7 votos a 4, o documento indicia 78 pessoas, entre as quais o presidente da República, ministros e ex-ministros, o governador do Amazonas, parlamentares, médico(a)s e empresário(a)s. Duas empresas também foram indiciadas. O relatório final foi encaminhado, para as providências cabíveis, ao procurador-geral da República, Augusto Aras, ao Ministério Público Federal (MPF), ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, ao Tribunal de Contas da União (TCU) e ao Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP). O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), foi outro que recebeu o documento.
 
Foram objeto de destaque no relatório, entre outras questões, a atuação do “gabinete paralelo” da Covid-19, que assessorou informalmente o presidente da República, e a defesa do chamado “tratamento precoce” dessa doença, que constituiu uma das principais linhas de ação desse grupo. A tese do “tratamento precoce” à base de medicamentos indicados para outras finalidades — em especial hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina — era complementar às outras bandeiras do grupo: a “imunidade de rebanho” e a negação da eficácia e da segurança sanitária das vacinas.
 
“Diante dos trabalhos realizados por esta Comissão, foi possível colher elementos de prova suficientes para comprovar a existência de um gabinete paralelo, composto por médicos, políticos e empresários, que, ao longo dos anos de 2020 e 2021, prestava orientações ao Presidente da República sobre o modo como a pandemia da Covid-19 deveria ser enfrentada, bem como participava de decisões sobre políticas públicas, ao arrepio das orientações técnicas do Ministério da Saúde, sem ter investidura formal nos cargos públicos responsáveis por essa função”, registra o relatório final da CPI da Pandemia.
 
No entender da CPI, o gabinete paralelo aconselhou o governo a “permitir que o novo coronavírus se propagasse livremente entre a nossa população”, abrindo-se exceção somente para idosos e pessoas com comorbidades (isolamento vertical), com a finalidade de “atingir a imunidade de rebanho” por meio da contaminação natural. “Conforme se verificará ao longo deste relatório, a estratégia pela busca da imunidade de rebanho por infecção levou o Presidente da República a resistir fortemente à implementação de medidas não farmacológicas, tais como o uso de máscara e o distanciamento social, bem como a não promover a celeridade necessária na aquisição de vacinas. Ademais, levou o chefe do Poder Executivo Federal a dar ênfase ao uso de medicamentos comprovadamente ineficazes no combate da Covid-19”.
 
Diversos depoimentos colhidos pela CPI revelaram a existência de um aconselhamento dado por pessoas que não integravam o Ministério da Saúde: “Já na primeira oitiva realizada, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disse acreditar que o presidente Bolsonaro tinha outra fonte de informações, embora não soubesse dizer qual. Isso porque o presidente falava sobre cloroquina como tratamento precoce, apesar de não haver evidências científicas, e sobre adoção de confinamento vertical, o que o Ministério também não recomendava”. Mandetta apontou o deputado federal Osmar Terra [MDB-PR] como uma das pessoas que orientavam o presidente.
 
“O ex-ministro citou também reunião que ocorreu no Palácio do Planalto, em que estavam presentes outros ministros e médicos, quando foi apresentada uma minuta de decreto presidencial em que se sugeria a mudança da bula do medicamento cloroquina, prevendo sua indicação para o tratamento precoce da Covid-19”, prossegue o relatório. “No entanto, o presidente da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], Antonio Barra Torres, que estava presente na reunião, recusou a ideia, como ele próprio confirmou ao depor à CPI”. Uma cópia da minuta do decreto para a mudança da bula da cloroquina foi entregue à CPI pela médica Nise Hitomi Yamaguchi, uma das expoentes do “gabinete paralelo”.

CPI documentou 17 reuniões de Bolsonaro com Osmar Terra e ou com Nise Yamaguchi

A CPI levantou robusta documentação sobre a agenda do Palácio do Planalto, confirmando assim a presença de Osmar Terra e de Nise Yamaguchi em diversas reuniões com Bolsonaro. Há registro de ao menos 12 reuniões com a presença de Terra, algumas apenas com o presidente, de abril de 2020 a março de 2021. Há registros de ao menos cinco reuniões de Nise com o presidente no decorrer de 2020. Os documentos encaminhados à CPI por companhias aéreas evidenciaram ainda que Nise realizou 15 viagens a Brasília durante o período de março de 2020 a maio de 2021.
 
A existência de aconselhamento paralelo foi corroborada por um vídeo exibido durante a oitiva de Terra, no qual é registrada reunião do presidente da República com médicos e com Terra para tratar da pandemia, no Palácio do Planalto, “quando conversavam sobre eficácia e desenvolvimento de vacinas e hidroxicloroquina”. A reunião foi realizada em 8/9/2020, teve como assunto “Médicos pela Vida” e contou com a presença de outro(a)s representantes desse movimento, entre eles Nise.
 
Nessa reunião, o virologista Paolo Marinho Andrade Zanotto, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (ICB), assim se manifestou: “[...] eu acho que a gente tem quer ter vacina, ou talvez não. Porque o grande problema dos coronavírus é que eles têm, intrinsecamente, problemas no desenvolvimento vacinal. A minha sugestão, até enviei mensagem ao executivo, mandei a carta pro Weintraub, pro Arthur, talvez fosse importante se montar um grupo. [...] Eu não vou fazer parte desse grupo, porque não sou especialista em vacina, mas eu gostaria de ajudar o executivo a montar um shadow board. Como se fosse um shadow cabinet. Esses indivíduos não precisam ser expostos, digamos assim à popularidade” (grifado no relatório da CPI).
 
Manifesto do movimento “Médicos pela Vida”, intitulado “Carta do Brasil – 2021”, direcionado ao Presidente da República, assevera: “[...] O uso obrigatório e maciço das máscaras, principalmente em crianças — o que é desumano e cruel — e a obrigatoriedade indireta da vacinação em massa (com a exigência de uma carteira de vacinação para acesso a diversas atividades sociais) configuram coerção e manipulação [...]. Por isso, solicitamos: 1. O estabelecimento da profilaxia e tratamento imediato da Covid-19, conforme protocolos reconhecidos pela comunidade médica e respeitando a autonomia do ato médico, na rede pública e privada em todo o país, para garantir ao cidadão a liberdade de escolher o tratamento, seja ele medicamentoso ou imunizante, podendo receber a medicação para início subsequente” (grifado no relatório da CPI).
 
O manifesto dos “Médicos pela Vida” recomenda ainda a “promoção da profilaxia da Covid-19, com apoio para hábitos de higiene, proteção dos vulneráveis ou isolamento vertical, medicamentos (hidroxicloroquina, ivermectina), oligoelementos (zinco) e vitaminas D e C, de forma individualizada sempre que possível”, bem como “estímulo ao tratamento imediato domiciliar: com uso associado de vários medicamentos (hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, zinco e outros), instituído logo após o diagnóstico clínico, de sinais e sintomas da Covid-19 e outras doenças” (destaques conforme o relatório).
 
“Observa-se, assim, que o movimento ‘Médicos pela Vida’, ao mesmo tempo em que propôs a existência de um gabinete paralelo, desestimulava medidas não farmacológicas, como o uso de máscaras, e reforçava o isolamento vertical e o uso de medicamentos como hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina. E conforme se verá adiante, esse movimento foi ainda responsável pela publicação do ‘Manifesto pela Vida’, um informe publicitário divulgado em jornais e mídias sociais em defesa do tratamento precoce”, prossegue o relatório, assinalando ainda a convergência entre o teor de declarações feitas a respeito por Terra e por Bolsonaro. “Há uma clara coincidência de posicionamentos. Eles assumem a mesma posição em relação à imunidade de rebanho (abril de 2020) e à cloroquina (maio de 2020), criticam o isolamento social (maio de 2020), falam que a pandemia estaria no final (dezembro de 2020) e sustentam não haver pressa para a aquisição das vacinas (dezembro de 2020)”.

Kit-Covid” pode incluir proxalutamida, spray nasal, vitaminas e suplementos

No tópico destinado especificamente ao “tratamento precoce”, a CPI, após diferenciar esse termo do “tratamento preventivo” (anterior ao contágio), define-o da seguinte forma: “é a utilização de um ou mais medicamentos para o tratamento da Covid-19 após a existência de um diagnóstico suspeito [sic] ou confirmado”. “Dentre os fármacos que fazem parte desse chamado kit-covid, os mais conhecidos são a cloroquina, a hidroxicloroquina, a ivermectina e a azitromicina. Esse não é um rol fechado porque, a depender de quem se expressa, podem ser incluídos a flutamida, proxalutamida, colchicina, spray nasal, bem como vitaminas diversas e suplementos alimentares”. Em comum, acrescenta, “há o fato de que são medicamentos para os quais existe pouca ou nenhuma evidência de eficácia contra a Covid-19”.
 
O relatório traça um breve histórico da ideia de “tratamento precoce”. “Em março de 2020, o canal [norte]americano de notícias Fox News entrevistou, por duas vezes, Gregory Rigano, advogado que, em parceria com James Todaro, médico, escreveu — sem revisão científica — um artigo a respeito de como a cloroquina e a hidroxicloroquina seriam capazes de tratar a Covid-19. Rigano afirmou que se baseava em artigo científico do pesquisador Didier Raoult, que seria ‘o mais importante especialista em doenças infecciosas do mundo’. Ademais, de forma categórica, declarou que ‘nós sabemos como curar a doença, usando hidroxicloroquina em combinação com o antibiótico azitromicina, com uma taxa de 100% de cura contra o coronavírus’”.
 
Baseando-se no livro O Ano da Peste, de Lawrence Wright (The Plague Year: America in the Time of Covid, New York: Alfred A. Knopf, 2021), o relatório informa que, no dia seguinte à segunda entrevista de Rigano à Fox News, o então presidente Donald Trump declarou à imprensa que ordenara ao Federal Drug Administration (FDA) que acelerasse a aprovação do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina. “Foi a primeira menção das drogas por Trump, que ficaria obcecado por elas”, diz Wright. Assim, em 28 de março o FDA aprovou o uso emergencial da cloroquina e da hidroxicloroquina, mas apenas para cancelá-lo três meses depois.
 
O FDA entendeu que esses fármacos eram ineficazes no tratamento do Covid-19 e apresentaram ‘graves efeitos cardíacos adversos e outros efeitos colaterais, incluindo lesões nos rins, problemas no fígado e morte’”. Além disso, quando ministrados conjuntamente com a azitromicina (combinação publicamente incentivada por Trump), “pacientes tinham duas vezes mais chances de sofrer um ataque cardíaco do que aqueles que não haviam ingerido nenhuma das drogas”. De acordo com o relatório da CPI, “o presidente Jair Bolsonaro começou a defender publicamente a cloroquina — uma versão mais tóxica do que a hidroxicloroquina — no dia 21 de março, nas redes sociais, dois dias depois da coletiva do presidente Donald Trump”.
 
As experiências de Raoult padeciam de graves erros metodológicos, como ele próprio admitiu depois, mas “repercutiram muito rapidamente no Brasil”, segundo a CPI. “O caso mais notório — mas não o único — foi o estudo conduzido pela Prevent Senior, uma empresa de planos de saúde proprietária de vários hospitais. Tal estudo, que foi suspenso pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) acabou por ter vários outros desdobramentos. Em razão disso, a análise do caso Prevent Senior é tratada em um capítulo à parte”.
 
A CPI decidiu indiciar, por suspeita de terem causado epidemia, “com resultado morte” (artigo 267 do Código Penal), os membros mais notórios do “gabinete paralelo”: Terra, Nise, Zanotto, Arthur Weintraub (ex-assessor da Presidência da República), o empresário Carlos Wizard Martins e o médico Luciano Dias Azevedo. A pena prevista para esse crime é reclusão por dez a quinze anos. “O ônus da prova é do acusador”, declarou Zanotto ao portal G1 a propósito de seu indiciamento.
 
O presidente da República, por sua vez, foi indiciado pela CPI por possível envolvimento em nove crimes, entre os quais “epidemia com resultado morte”, “charlatanismo” (artigo 283 do Código Penal) e “crimes contra a humanidade, nas modalidades extermínio, perseguição e outros atos desumanos”, previstos no artigo 7º do Tratado de Roma (decreto 4.388/2002). Talvez como resposta, em nova demonstração de deboche, nesta quinta-feira (4/11) Bolsonaro concedeu a si mesmo a maior honraria científica nacional: o título de grão-mestre da Ordem Nacional do Mérito Científico.

Experimentação in vitro ou “buscar uma agulha no palheiro”

O Informativo Adusp solicitou ao professor Gonzalo Vecina Neto, do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da USP, que expusesse suas opiniões sobre o chamado “tratamento precoce”. Vecina Neto foi secretário nacional de Vigilância Sanitária e, posteriormente, presidente da Anvisa (de abril de 1999 a fevereiro de 2003). Na sua avaliação, essa ideia deriva de práticas que expressam ignorância dos postulados da ciência.
 
“Primeiro, qual a ideia de tratamento precoce? Na verdade ela vem de dois comportamentos muito interessantes de profissionais da saúde, em particular de médicos”, diz o professor da FSP. “O primeiro comportamento é de quem acredita na sorte: o de buscar uma agulha no palheiro. O que é buscar uma agulha no palheiro? Você tem uma doença e quer resolver o problema achando alguma droga que possa fazer efeito nela. E aí você resolve fazer experimentação in vitro tentando achar algum produto, alguma molécula, que produza algum tipo de alteração no que você consegue entender que é aquela doença”.
 
Ele dá como exemplo o caso de bactérias e fungos, em que se faz a cultura juntamente com um produto que se suponha que seja um inibidor daqueles patógenos. “É um típico acerto-e-erro, mas feito ao azar. E como é feito ao azar, a chance de ter solução é próxima de nula. Mas tem gente que faz isso. Eu conheço um pesquisador que de qualquer lugar que ele visite no mundo ele traz uma porção de terra. Ele leva para o laboratório, põe no caldo de cultura, e cultiva o que tiver naquela terra. E vai fazer experiências: se alguma das coisas que cresceram naquela terra inibe bactérias, por exemplo. Um pouco na linha do que aconteceu, sem querer, com a descoberta da penicilina. [Alexander] Fleming teve sorte ao ter o crescimento de um fungo numa placa em que ele estava cultivando estafilococos. O fungo cresceu e inibiu o crescimento do estafilococos”.
 
No seu entender, trata-se de um comportamento usual. “Quando essa crise começou, no ano passado, os cientistas, os técnicos de laboratório etc. fizeram muito isso. Pegam substâncias, fazem crescimento celular, infectam com o vírus e colocam lá alguns produtos, para ver se algum produto inibe a reprodução viral. E aconteceu de haver uma série de produtos que inibem in vitro a reprodução viral. É o caso da nitazoxanida, da ivermectina, da hidroxicloroquina, da cloroquina”.
 
Hoje, explica, esse tipo de experimento pode ser feito em laboratório com uso de inteligência artificial (IA). “Você alimenta um software com múltiplas informações sobre o microorganismo que você quer atacar e informações sobre moléculas. E há um processamento desse conjunto de informações que vai ter um provável resultado e possíveis alvos. E aí tem que estudar esses possíveis alvos. Então esse é o primeiro comportamento. E saiu esse conjunto de moléculas e muitas outras”.
 
O segundo comportamento, “muito frequente nos médicos”, é o chamado estudo observacional, continua Vecina Neto. “É o famoso ‘como eu trato’. Os bons médicos, na boa tradição clínica, fazem coisas que não estão nos livros. E ao longo da vida eles desenvolvem alguns ‘vícios’, não necessariamente uma coisa ruim, mas um jeito particular de fazer alguma coisa. E muito frequentemente os médicos têm alguns vícios ao tratar algumas doenças com as quais eles têm relacionamento maior. Isso é muito comum. Nos congressos de medicina com muita frequência tem lá uma sessão: ‘como eu trato’. A característica principal é que não tem nada de ciência. Tem a intuição, que não é um jogo ao azar. A intuição é um somatório de conhecimentos que nem sempre são lembrados”.
 
Porém, adverte, os estudos observacionais requerem prudência. “Não estou criticando a intuição nem o ‘como eu trato’, a medicina tem uma parte que é arte também. Mas, quando estamos falando de uma doença que mata um monte de gente, não se pode viver de estudos observacionais. Foi isso que o Didier Raoult, médico e cientista francês, fez em março do ano passado. Pegou os laboratórios, exames in vitro, e levou para a prática médica. Só que nós estávamos naquela emergência e o Didier — junto com outros componentes da personalidade dele, de querer resolver logo, um pouco de vaidade — partiu para um estudo observacional com um número pequeno de pacientes, vinte e poucos, sem nenhum tipo de cuidado, e medicou os pacientes [com hidroxicloroquina]. E aconteceu o que acontece com essa patologia. Para 80% das pessoas que pegam a doença, ele podem nem ser diagnosticada ou ser branda. 15% precisam ir para o hospital e receber oxigênio, e 5% vão para a UTI, uma parte vai ser intubada e a mortalidade vai ser muito alta. Nas UTIs brasileiras pacientes intubados tiveram 30% de letalidade, numa boa UTI. Nos hospitais um pouco piores essa letalidade em média foi de 90%. Então, tratar 100 pessoas com qualquer coisa vai dar sempre esse resultado: 80 vão sarar, e o restante vai ter alguma letalidade, que é alta mas no conjunto você tem uma letalidade relativamente baixa”.

Desastre da talidomida impôs estudos duplo-cego randomizados como forma de testar medicamentos

O professor da FSP cita, então, uma das maiores tragédias da medicina moderna. “Ao longo do tempo, particularmente a partir de 1962, nós vivemos o início do desastre da talidomida, uma droga inventada na Alemanha que se descobriu que era um antiemético poderoso para mulheres grávidas, no primeiro trimestre da gravidez. De fato era fantástico e tinha outros efeitos também muito bons no nível psíquico, e se transformou numa febre mundial. Só que ela tinha um efeito colateral que não tinha sido observado, que era a focomelia. As crianças das mães que tomavam esse remédio, particularmente no primeiro trimestre da gravidez, nasciam sem membros, alguns ou todos. Isso é a focomelia. Ainda hoje temos sobreviventes desta doença e deste episódio”.
 
A partir da talidomida, “mudou-se radicalmente a forma de aprovar novos medicamentos”, explica. “A partir daí é que foi construída a ideia da medicina baseada em evidências, da pirâmide das evidências, e da melhor tecnologia para se comprovar uma evidência, que é padrão-ouro na medicina hoje: o estudo duplo-cego randomizado. Você pega uma amostra, aleatoriza quem vai receber o medicamento e quem vai receber o placebo, e ‘cega’ quem dá o remédio e quem recebe o remédio. Ninguém sabe o que está sendo dado e o que está sendo recebido. Isso só vai ser aberto ao final da pesquisa — e sempre com algum tipo de auditoria observando o que está sendo feito dentro da pesquisa. Esse é o padrão-ouro para saber o que um medicamento é capaz de fazer por alguém”.
 
Pois bem: quando submetidos aos estudos realizados com essa metodologia, nenhum dos principais medicamentos do “kit-Covid” foi bem sucedido. “Nos estudos duplo-cego randomizados realizados com os medicamentos que tiveram sucesso in vitro, a nitazoxanida, que é um poli anti-helmíntico; a ivermectina, que é um medicamento fantástico para tratar piolho; a hidroxicloroquina e a cloroquina, que são antimaláricos importantes — mas não para todos os quatro tipos de parasitas que nos infestam, aqui no Brasil particularmente é para o plasmodium ovale, o plasmodium falciparium responde mal; esses quatro medicamentos e mais um antibiótico que é usado junto, a azitromicina, nenhum deles, em estudos duplo-cego randomizados, obteve algum tipo de resultado respeitável. Nenhum”.
 
Já em estudos observacionais, contrapõe Vecina Neto, acontece o que um estudo observacional pode fazer. “Para 80% dos casos foi um sucesso, alguns outros não morreram, mas tiveram a doença. Então é inteligível que tenha uma associação, ‘Médicos pela Vida’, que diz ter 10 mil sócios. São 540 mil médicos [no Brasil] e eles têm 10 mil sócios. Eles têm uma fé danada nessa história de estudos observacionais e eles mesmos fazem estudos observacionais. Quando você pega um desses médicos falando, o cara tem uma fé imensa nessas histórias. Agora, na verdade o que você sente é uma imensa ignorância da ciência [da parte] desses médicos”, sentencia o pesquisador.
 
“Dá um pouco de dó dessa ignorância. Só não dá mais dó porque todos os medicamentos têm efeitos colaterais. A cloroquina, hidroxicloroquina são cardiotóxicas. A ivermectina e a nitazoxanida são hepatotóxicas. A azitromicina é de uma família de antibióticos que, quando você dá uma subdose, você alimenta o processo de resistência bacteriana àquele grupo de antibióticos”. Hoje, observa, a resistência bacteriana é um dos problemas mais graves da medicina, pois ameaça a eficácia dos antibióticos.
 
“Agora estão falando de proxalutamida, que é um produto utilizado como antiandrogênico, ainda não aprovado para tratamento de câncer de próstata. Foi feito um estudo no Amazonas cujo resultado é apresentado por meio de um power point, não foi publicado. Tudo isso é, mais do que tudo, exclusivamente uma ignorância pesada. Não tem por que a gente se dirigir para essas coisas sem comprovação científica. E usar outras vias de administração que não são usuais, como a inalação, já se demonstrou que é mortal, como foi feito com a hidroxicloroquina também em Manaus”. Em síntese, conclui, “tratamento precoce” nada mais é do que a falta de conhecimento científico de como aprovar um medicamento. “Por quê? Porque as pessoas são ignorantes e não acreditam nos postulados já desenvolvidos pela ciência e que estão à disposição de todos”.
 
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