Sindicatos e movimentos sociais saíram às ruas de São Paulo nesta quinta-feira (7/4) em defesa do Sistema Único de Saúde (SUS). O Ato Unificado do Dia Mundial da Saúde convocado por 58 entidades e grupos teve início na Avenida Dr. Arnaldo, em frente à Secretaria de Estado da Saúde, principal gestora regional do SUS. Depois os manifestantes dirigiram-se à Prefeitura Municipal, no Viaduto do Chá, de lá saíram em marcha até a Praça da República, e finalizaram as atividades diante da Secretaria Municipal da Saúde, na rua General Jardim.

Fotos: Daniel Garcia

“Força SUS: pela vida acima dos lucros, contra toda forma de privatização!” foi a principal palavra de ordem do ato unificado. A frase “Em defesa da saúde pública e gratuita, contra o desmonte dos serviços essenciais para a população” era outro contraponto às reformas neoliberais em vigor. As faixas levadas pelos manifestantes denunciavam a situação de descalabro da saúde pública — agravada pela pandemia de Covid-19, que até este momento produziu 661 mil óbitos no Brasil, dos quais nada menos que 168 mil (25,41%) no estado de São Paulo, o mais populoso, mas também o mais rico do país.

“Profissionais de saúde não precisam de aplauso, mas de valorização já”, “Por melhores condições de trabalho para as equipes de saúde”, “Profissionais de saúde em luta pela vida” eram alguns dos dizeres que faziam referência aos baixos salários, aos riscos sanitários e às outras precárias condições de trabalho enfrentadas pelas trabalhadoras e trabalhadores da saúde pública.

“Reabertura imediata do Hospital Sorocabana, 100% SUS”, e com “gestão pública direta e com maior controle social”, bem como “Em defesa do HRAC, OS não”, esta em referência à situação do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais de Bauru, pertencente à USP mas cedido à pasta estadual da Saúde (que pretende confiar sua gestão a uma “organização social”), apontavam casos concretos de abandono ou de desmonte por parte do governo estadual.

Cleonice Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde no Estado de São Paulo (SindSaúde), cumprimentou a todos(as) que continuam “na luta contra os desmandos dos governos estadual e federal”, e assinalou a responsabilidade pessoal do então governador João Doria (PSDB). “Temos que nos lembrar que todos os governos, como o Doria, querem acabar com todas as políticas implementadas com muitas lutas, muito suor. O desmonte do SUS não é à toa. Os empresários estão ganhando muito dinheiro em cima de nossos lombos”, protestou Cleonice.

“O grande aumento que o governo deu não dá para pagar um botijão de gás”, ironizou com amargura, fazendo referência ao reajuste recentemente concedido à categoria, de 20% para o pessoal da área técnica e de 10% para profissionais da área administrativa. Ela comentou que muitos trabalhadores e trabalhadoras da saúde estão passando por dificuldades devido aos salários defasados, sem falar na sobrecarga de trabalho e na exaustão física. “A grande maioria das pessoas que trabalhavam frente à Covid estão adoecidas, sem nenhum amparo do governo do Estado”.

“Projeto de privatização atinge vários setores do serviço público, mas especialmente a saúde”

“Muitas dessas milhares de mortes poderiam ter sido evitadas, não fossem as políticas genocidas dos vários governos, capitaneados pelo governo Bolsonaro”, destacou no seu pronunciamento a professora Michele Schultz , presidenta da Associação dos Docentes da USP (Adusp), depois de um minuto de silêncio dos manifestantes em homenagem às vitimas fatais da pandemia . “Eu queria deixar aqui registrado o nosso voto de solidariedade — eu falo em nome da Adusp e também do Andes-Sindicato Nacional, que é a associação nacional dos docentes do ensino superior — a todas e todos profissionais que estiveram na linha de frente, enfrentando as mais adversas condições para combater os efeitos da Covid-19”.

No tocante às demissões que a “organização social” SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina) vem fazendo no Hospital São Paulo, pertencente à Unifesp, a professora destacou a importância da luta contra o processo de privatização da saúde pública em andamento no país. “Esse projeto de privatização atinge vários setores do serviço público, mas especialmente a saúde. Se a gente considerar a gestão pelas OS, pelas fundações privadas ditas ‘de apoio’, e outras tantas empresas disfarçadas de organizações sociais, a gente tem como reflexo a retirada de direitos de trabalhadoras e trabalhadores”, denunciou.

“Então eu falo aqui em defesa dos servidores e das servidoras públicas, do serviço público. A gente está lutando pelo arquivamento da PEC 32, que é a contrarreforma administrativa; a gente luta pela revogação da Emenda Constitucional 95, que retirou o financiamento não só da saúde mas também da educação. Nesta semana foi anunciada a redução do IPI, Imposto sobre Produtos Industrializados, que vai retirar da Saúde quase 7 bilhões de reais. Então o projeto de desfinanciamento segue a passos largos, e é nosso papel fazer a denúncia e lutar contra esse avanço”.

Michele voltou então a mencionar o Hospital São Paulo, porém dentro do contexto nacional, que envolve a atuação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), estatal de direito privado vinculada ao MEC e criada pela lei 12.550/2011, na primeira gestão de Dilma Rousseff. Em plebiscito convocado pelo Andes-SN em 2013, mais de 60 mil docentes (quase 96% dos participantes) votaram contra a EBSERH.

“Por fim, falo em nome dos docentes do ensino superior, eu queria registrar o que está acontecendo com os hospitais universitários de todo o Brasil. O Hospital São Paulo é referência de formação de profissionais de saúde. O que está acontecendo com o avanço da EBSERH, da SPDM e de várias outras instituições privadas está afetando também a formação dos profissionais de saúde. Então, defender financiamento adequado para a educação é defender a formação adequada para todos os setores”.

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