A Faculdade de Direito (FD) da USP publicou em seu site nesta quinta-feira (28/7) comunicado informando que já haviam sido realizados mais de 2.400 ataques hackers para tentar derrubar o seu sistema e impedir a adesão à “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito!”. Até o final da manhã desta sexta-feira (29/7), o documento recebeu mais de 410 mil assinaturas.
 
De acordo com o comunicado, todos os ataques “estão sendo monitorados pela equipe técnica da USP, bem como pela equipe técnica responsável pela coleta de assinaturas”.
 
“Foram estabelecidas diversas camadas de proteção nesses portais e monitoramento constante, identificando quem está promovendo essas tentativas, que serão levadas às autoridades competentes”, prossegue o comunicado. Todos os ataques registrados até a manhã desta quinta-feira foram frustrados, diz a nota.
 
“Dessa forma, combatendo essas tentativas de invasão, a Faculdade de Direito da USP seguirá no recolhimento de novas adesões e no caminho da Defesa do Estado Democrático de Direito Sempre”, finaliza o comunicado.
 
A carta foi publicada no site da FD no final da tarde da última segunda-feira (25/7), com pouco mais de 3 mil adesões. “Na terça-feira, às 8h da manhã, 30 mil novas. No final da manhã, 60 mil assinaturas. É acima de qualquer expectativa mais otimista que eu pudesse ter”, disse em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo o diretor da faculdade, Celso Campilongo.
 
O documento evoca a “Carta aos Brasileiros”, lida pelo professor Goffredo da Silva Telles Júnior em manifestação no Largo São Francisco em 8/8/1977, que repudiava a Ditadura Militar em plena vigência do regime.
 
“Aquela carta de 77 mudou o ritmo da luta pela conquista da democracia e tenho a sensação de que a manifestação que está sendo gestada tem um efeito muito parecido, é um aviso: a sociedade organizada está muito alerta”, considera Campilongo. “Não é que a sociedade civil estivesse adormecida, ela estava atenta, mas parece que faltava algo que pudesse aglutinar essas forças, fazer com que essas forças aflorassem de maneira vigorosa.”

“Desvarios autoritários” não tiveram êxito nas eleições dos EUA e “aqui também não terão”, diz a carta

A carta de 2022 defende a Justiça Eleitoral ao dizer que “ataques infundados e desacompanhados de provas questionam a lisura do processo eleitoral e o estado democrático de direito tão duramente conquistado pela sociedade brasileira”. “São intoleráveis as ameaças aos demais poderes e setores da sociedade civil e a incitação à violência e à ruptura da ordem constitucional”, prossegue.
 
“Assistimos recentemente a desvarios autoritários que puseram em risco a secular democracia norte-americana. Lá as tentativas de desestabilizar a democracia e a confiança do povo na lisura das eleições não tiveram êxito, aqui também não terão”, diz a carta.
 
“No Brasil atual não há mais espaço para retrocessos autoritários. Ditadura e tortura pertencem ao passado. A solução dos imensos desafios da sociedade brasileira passa necessariamente pelo respeito ao resultado das eleições. Em vigília cívica contra as tentativas de rupturas, bradamos de forma uníssona: Estado Democrático de Direito Sempre!”, conclui o documento.
 
O diretor da FD afirmou ao Estadão que a iniciativa é suprapartidária e que o fato de o documento não citar nenhum nome, especialmente o de Jair Bolsonaro, é intencional.
 
“É uma questão de estilo, de ponderação, de prudência. São elementos que caracterizam a postura de um juiz, de jurista, de advogado. Evitar os arroubos, os excessos e agressões gratuitas e desnecessárias caracteriza também o próprio perfil histórico da Faculdade de Direito. A Faculdade de Direito tem sempre um perfil forte e intransigente de defesa da legalidade, mas não parecido com esta violência política, com o bate boca de baixo nível que temos visto nos últimos anos, com fake news, com agressões, desqualificações, com palavrões, não é o estilo jurídico”, afirmou.
 
Campilongo avalia que “a democracia brasileira está em risco, sim”. “Temos manifestações no executivo que deixam claro porque as pessoas estão preocupadas. São falas como ‘não vou cumprir decisão judicial’, ‘esta é a última vez’, ‘não estique mais a corda’. São todas aberrações, são inadmissíveis. Mas partem também de grupos organizados na sociedade civil que funcionam como milícias digitais que fazem, nas redes sociais, uma guerrilha de difamação das instituições, de mentiras contra personalidades, de ataques gratuitos. Tudo isso solapa a democracia”, ressaltou.
 
Desdenhando a iniciativa, Bolsonaro declarou nesta quarta-feira (27/7) que “não precisamos de nenhuma cartinha para dizer que defendemos a democracia”.
 
A carta será lançada numa manifestação na FD no próximo dia 11/8, com a participação de entidades estudantis, sindicais e movimentos sociais.
 
Associações patronais e empresariais também participarão do ato, com a leitura de outro documento que essas entidades estão preparando.
 
Entre as associações signatárias já estão confirmadas a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), sinalizando que a elite financeira do país, depois de ser beneficiada com as políticas ultraliberais capitaneadas pelo ministro Paulo Guedes ao longo de todo o mandato de Bolsonaro, passa a abandonar o barco do candidato à reeleição.

Diretoria da Adusp defende postura expressa no #BolsonaroNuncaMais!

 
A Diretoria exortou a categoria a aderir às propostas contidas na nota “Contra a carestia e em defesa da democracia”, elaborada por um conjunto de entidades sindicais, e também “a reforçar a postura política já tomada nas eleições de 2018, por meio do #EleNão! – que atualmente se traduz em #BolsonaroNuncaMais!”
 
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