Manifesto assinado em outubro de 2022 pelo ex-reitor declarava apoio a Haddad e Lula e rejeitava negacionismo, obscurantismo, armamentismo e “milicianismo” 

O ex-reitor Vahan Agopyan assumiu o cargo de secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação no governo Tarcísio Freitas (Republicanos). No governo Alckmin-França (PSDB, 2015-2018), a pasta chamava-se “Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação”. No governo Doria-Garcia (PSDB, 2019-2022), ela foi redesignada como Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), simplesmente, embora mantivesse sob sua alçada, formalmente, as universidades públicas estaduais, o Centro Paula Souza e algumas instituições de pesquisa, como o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). 

A SDE, por sua vez, foi mantida pelo governo Tarcísio como uma pasta independente, apartada do setor de Ciência e Tecnologia. Ela foi confiada a Jorge Lima, ex-assessor do ministro Paulo Guedes, da Economia, e possuidor de fortes laços com a iniciativa privada. 

É duvidoso que Vahan venha a exercer protagonismo expressivo à frente de sua pasta, dada a ampla autonomia de que desfrutam USP, Unesp e Unicamp. No entanto, o governo estadual sempre buscou limitar essa autonomia e reduzir ou dificultar o repasse anual de 9,57% da Quota-Parte Estadual do ICMS, que, por não ser constitucionalizado, precisa ser renovado, ao final de cada ano, na Lei Orçamentária Anual (LOA).

Em 2007, o governador José Serra chegou até mesmo a alterar a composição do Conselho Estadual de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) e a subordiná-lo à nova “Secretaria de Ensino Superior” (decretos 51.460 e 51.461), tendo de recuar posteriormente nesta e em outras medidas. Mais recentemente, o governador Doria incluiu no PL 529/2020 dispositivos de confisco dos fundos de reserva das universidades públicas estaduais e também da Fapesp, mas viu-se forçado a abrir mão deles.

Tudo isso leva a uma indagação sobre as razões pelas quais Tarcísio decidiu-se pelo nome de Vahan para esse cargo. Coincidência ou não, o governador é correligionário de Wellington Moura (Republicanos), que presidiu a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Universidades, em 2019. Além disso, a grande referência política de Tarcísio é o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), cujo governo hostilizou abertamente as universidades. 

No governo anterior, a SDE serviu de plataforma para a secretária Patricia Ellen, ex-diretora da McKinsey&Company e ex-coordenadora do malfadado projeto “USP do Futuro”, iniciado em 2015. Em nome dos planos de criar um “Vale do Silício” à paulista, Patricia e Doria intervieram abertamente no IPT, acelerando o processo de privatização dessa importante instituição de pesquisa. Dado o perfil neoliberal de Vahan, no que depender dele dificilmente essa rota será alterada.

Ex-reitor assinou manifesto em defesa da ciência e da universidade pública

Em outubro último, durante o segundo turno das eleições, o ex-reitor assinou manifesto intitulado “Esperança e Coragem para São Paulo – Em defesa da Ciência, da Cultura e da Universidade Pública”, de apoio à candidatura de Fernando Haddad (PT) ao cargo de governador. As universidades e instituições de pesquisa, destacava o documento, “têm, historicamente, no Estado de São Paulo, cumprido um papel de protagonismo cultural, científico e tecnológico, que afirma os princípios da autonomia, da criatividade e da busca do conhecimento como fator de geração de riqueza, do combate à desigualdade social”.

Ao lado de outros ex-reitores de diversas universidades públicas estaduais e federais, Vahan perfilou-se “ao lado das lutas contra o negacionismo, o obscurantismo, o totalitarismo, o armamentismo e o milicianismo”, bem como manifestou-se contrariamente ao “desmatamento da Amazônia”, à “invasão das terras indígenas”, ao “desdém pelos acordos internacionais em favor do ambiente”, à “cobiça que espalha destruição e fome” e, por fim, contra “o profetismo pernicioso dos manipuladores do medo e dos desvarios do ódio”.

Vahan foi o signatário de número 113 do manifesto que assinalava, ao final: “Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, e Fernando Haddad, governador do Estado de São Paulo, são, neste momento decisivo da história do país, a única garantia de um novo Brasil, menos polarizado, mais cidadão e democrático”. 

O que levou o ex-reitor a “virar a casaca” e colocar-se a serviço do bolsonarismo instalado no Palácio dos Bandeirantes? Mero adesismo de quem desejava um novo cargo público de primeiro escalão? “Assinei a carta, mas me mantive neutro na eleição. Fiquei impressionado com o convite porque ele não quis apenas apoiadores”, declarou ele à Folha de S. Paulo.

Reitoria cumprimenta Kassab e Guilherme Afif, “padrinhos” da indicação

No dia 23/12, após o anúncio da indicação de Vahan, o reitor Carlos Gilberto Carlotti Junior e a vice-reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda emitiram a respeito uma curiosa nota conjunta, publicada pelo Jornal da USP, na qual cumprimentam pela iniciativa não apenas o então governador eleito, mas também os supostos padrinhos políticos do ex-reitor, o ex-prefeito Gilberto Kassab e o ex-vice-governador Guilherme Afif Domingos (ambos do PSD).

“A Reitoria da USP cumprimenta o futuro governador Tarcísio de Freitas, assim como os secretários Gilberto Kassab, da Secretaria Estadual de Governo, e Guilherme Afif Domingos, da Secretaria de Projetos Estratégicos, pela indicação do professor Vahan Agopyan para assumir o cargo de secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo”, diz a nota. 

De acordo com Carlotti Jr. e Maria Arminda, Vahan “possui excelentes qualificações acadêmicas e profissionais para estar à frente desta pasta em São Paulo, pois assumiu posições importantes na administração pública estadual e na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e foi diretor-presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT)”.

Reitor e vice-reitora declaram ainda que, como principal dirigente da Universidade, Vahan “teve como um de seus grandes desafios a condução da instituição durante a pandemia da Covid-19, o que fez de forma brilhante, sem que as atividades acadêmicas e científicas deixassem de ser realizadas com excelência”. Tais afirmações não são condizentes com a realidade.

A Reitoria cometeu graves erros no combate à Covid-19, entre os quais desponta a realização do “São Paulo Boat Show” na Raia Olímpica da USP em novembro de 2020, quando se iniciava a segunda onda da pandemia. E Vahan deixou o cargo de reitor sem homenagear docentes e funcionário(a)s técnico-administrativo(a)s vitimados pela pandemia, nem sequer publicar uma relação oficial com os nomes dessas pessoas. Aliás, o mote “A USP não pode parar” deu-se ao arrepio de direitos do corpo funcional da universidade. 

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