Dos 25 docentes que se exoneraram da USP entre 2020 e abril de 2021, o Informativo Adusp identificou sete (28% do total) que deixaram o Brasil para trabalhar em instituições do exterior. Destes, cinco responderam às perguntas enviadas pela reportagem para falar sobre os motivos da decisão.
 
“Qualidade de vida”, resume um docente que, após um afastamento temporário, desligou-se em definitivo da USP em abril para trabalhar numa universidade da América do Norte. “Não somente o país oferece mais pelo que contribuo, mas o salário aqui é melhor. Antigamente a carreira docente na USP era atrativa e oferecia, se não um ótimo salário, algo condizente com o tempo de formação necessário de um docente.”
 
O professor considera que, nos últimos cinco a sete anos, a carreira docente foi muito desvalorizada em termos salariais, “principalmente para professores assistentes e associados”. “Com o que é oferecido atualmente, não faz sentido algum para um docente que tem outras oportunidades permanecer na USP. É uma ilusão dizer que a carreira na USP é uma boa opção. Deixou de ser há alguns anos”, afirma.
 
O professor relata que foi “muito feliz” em seu período na USP e considera que sempre foi respeitado. “Na verdade, meu sonho sempre foi trabalhar na USP. Contudo, o salário atual não condiz com o que produzimos, então não faz sentido prático permanecer em uma entidade que não te valoriza monetariamente. O resto, placa, homenagens, é tudo bobagem”, afirma.
 
O docente considera que a USP deve melhorar os salários que paga para voltar a ser competitiva. “Se continuar do jeito que está, o resultado é inevitavelmente perder os melhores, principalmente os no começo e meio de carreira, que não gozam dos mesmos benefícios dos mais antigos (progressão salarial, aposentadoria etc.)”, diz. “Se meu salário fosse condizente com o que eu produzia para a universidade, não teria saído da USP. Qualquer aluno que eu formava na pós saía de lá para ganhar mais do que eu em dois anos, sem contar benefícios. Sei que é difícil de aceitar, principalmente para os mais velhos, mas a verdade é que a carreira na USP não faz mais sentido. E o futuro não é muito promissor.”
 
O depoimento é ecoado por outro docente que também esteve em afastamento não remunerado por dois anos e, dada a recusa do departamento em renovar o afastamento por mais um ano, decidiu permanecer na universidade norte-americana em que se encontrava, saindo em definitivo da USP no mês de março. “Não vejo um bom futuro para a USP, infelizmente”, diz.
 
Em sua avaliação, a experiência profissional foi muito boa até 2017. “Depois vieram o achatamento salarial, vários problemas burocráticos e pouca chance de fazer pesquisa. Decidi que era hora de ir para o exterior”, relata.
 
O docente considera que “a USP vem decaindo como universidade há alguns anos”. Ele aponta problemas como “salário muito baixo, pouco incentivo para a pesquisa, poucas pessoas para auxiliar na burocracia, burocracias enormes com entraves difíceis de ultrapassar etc.”. O professor afirma ainda que, nos Estados Unidos, há recursos de sobra para lidar com as questões administrativas.
 
“Deveria haver um mecanismo para uma diminuição drástica nas atividades burocráticas. Sob o ponto de vista dos docentes, isso prejudica bastante as atividades de ensino, pesquisa e extensão”, afirma outro docente que desde 2019 leciona numa universidade europeia. Até então em afastamento temporário, no início deste ano o professor exonerou-se da USP para seguir a carreira no exterior.

“Cabeças conservadoras têm um peso muito grande na universidade”

A decisão de deixar em definitivo o Brasil foi tomada por uma docente após vários anos de idas e vindas ao exterior por questões familiares. “Claro que pesei as vantagens e desvantagens de ficar ou sair e, para falar a verdade, as desvantagens da USP pesaram muito. Eu me arrependo de não ter saído antes”, afirma.
 
Na sua opinião, faltam à USP modelos de contratos menos rígidos. “O motivo decisivo foi o fato de não ter um regime mais flexível, que me permitisse fazer essa ponte e levar muito mais para a USP, assim como era interessante para a instituição do exterior ter contato com o Brasil. A USP não me dava essa flexibilidade de poder trabalhar um semestre ali e um fora, o que se pode fazer em universidades do exterior. No Reino Unido e nos Estados Unidos pode-se fazer contratos temporários que são realmente temporários. Não é uma saga como na USP, com processos que demoram muito. Sem essa flexibilidade não tive alternativa a não ser sair”, afirma.
 
A professora também critica a sobrecarga de tarefas burocráticas, que qualifica como “gigantesca” na USP. “Você tem mentes e profissionais que foram treinados para pesquisa e ensino e que acabam se dedicando muito aos problemas políticos e administrativos da universidade. Isso toma muito tempo”, diz. “Via muitos colegas na USP dedicando pouco tempo ao ensino e à pesquisa. É uma frustração. Dando aula e fazendo pesquisa aqui, tenho mais tempo para mim, trabalho menos horas e ganho mais.”
 
Na sua avaliação, “o ambiente acadêmico na USP é muito pouco estimulante”, apesar de os desafios do Brasil serem “muito motivadores”. “Não me refiro apenas à falta de recursos financeiros para apoiar a pesquisa, mas vejo cabeças muito conservadoras dizendo o que é e o que não é para fazer, e essas cabeças conservadoras têm um peso muito grande na universidade. Vêm daí essa tamanha burocracia, esse apego a formas antigas de ensino e pesquisa. No fundo, falta questionamento ao status quo”, considera.
 
“Vejo quem é responsável por determinados setores, quem tem determinados títulos, e não estou convencida de que o mérito acadêmico seja algo que prevalece em todos os casos. Creio que as questões políticas prevalecem sobre as de mérito na maioria dos casos”, afirma a professora. “Sinto que, por ser a principal universidade do país, a USP tem um orgulho muito grande de si mesma e parece achar que as coisas estão bem do jeito que estão.”

Falta de oportunidades de ascensão na carreira pesou na decisão de sair do país

Outro docente que se transferiu para a Europa depois de ter a extensão do afastamento negada pelo departamento afirma que as razões da decisão são pessoais e também voltadas ao contexto brasileiro. Do ponto de vista institucional, se relacionam “à falta de oportunidades de ascensão na carreira (congelamento da progressão horizontal e ausência de concursos para professor titular), escassez de recursos para projetos de pesquisa tanto por parte da USP como principalmente por agências de fomento e falta de suporte a uma dedicação a projetos de pesquisa com colaboração internacional”.
 
O professor diz ter orgulho de ter se tornado livre-docente “na melhor universidade brasileira”. No entanto, “infelizmente há muitos obstáculos a serem vencidos para que a USP se torne uma instituição de ponta internacionalmente”. O docente ressalta que gostaria de poder retornar “se as circunstâncias melhorarem na universidade e no país”.
 
Assim como sua colega, o professor defende que a USP deveria apoiar diferentes perfis docentes, voltados por exemplo a “oferecer suporte técnico ao gerenciamento de projetos”, e também “permitir que pesquisadores que tenham ênfase em projetos assumam menos atividades didáticas e administrativas”.
 
“O modelo inglês permite que a dedicação a projetos de pesquisa financiados externamente conte ativamente para dedução de carga didática”, aponta. “Também deveria ser possível ascender na carreira com ênfase em ensino e inovação curricular. Alguns desenvolvimentos recentes vão na direção certa, mas deveria haver muito mais flexibilidade para gerenciar recursos em departamentos e flexibilizar perfis docentes.” No caso de professora(e)s no exterior, diz, poderia haver vinculação parcial como double appointments, “o que muito contribuiria para a universidade”.
 
Outro docente que se transferiu para uma instituição europeia diz que sempre teve vontade de seguir a carreira no exterior e que decidiu aproveitar a oportunidade que teve. “Tive uma experiência excelente e a USP me permitiu realizar vários sonhos. Claro que nem tudo é perfeito e há sempre espaço para melhoria, mas acredito que as pessoas (corpo docente e funcionários) tentam sempre fazer o seu melhor”, considera.
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