A Ouvidoria Geral da Universidade de São Paulo decidiu referendar questionamentos do diretor do Instituto de Biociências (IB), Marcos Buckeridge, à Associação dos Docentes (Adusp), em relação a três reportagens publicadas pelo Informativo Adusp sobre o convênio celebrado entre aquela unidade e a empresa canadense de ecoturismo Greenheart e suas repercussões. 
 
Nesta quarta-feira (22/6), a ouvidora geral, professora Marília Cerqueira Leite Seelaender, enviou e-mail à presidenta da Adusp, professora Michele Schultz, cobrando dela “esclarecimentos” sobre textos de cunho jornalístico, recentemente publicados no site do sindicato, cujo objeto é a relação entre o IB e a Greenheart. No entender da ouvidora geral, essas reportagens trazem “alegações” a respeito do instrumento firmado entre as partes.
 
“A Ouvidoria Geral da Universidade recebeu manifestação referente a publicações da Adusp, contendo alegações sobre um convênio entre o IB e uma empresa estrangeira”, diz a mensagem encaminhada pela ouvidora geral, que indica os links correspondentes às matérias em questão (confira aqui, aqui e aqui). “A Diretoria e a Congregação do IB encaminharam detalhados esclarecimentos sobre os fatos e dessa forma, solicitamos respeitosamente esclarecimentos sobre a razão da publicação, em não havendo irregularidades constatadas e ainda, posicionamento da Adusp frente aos documentos aqui colocados”.
 
A Ouvidoria Geral não esclarece de quem partiu a “manifestação” sobre o caso. Porém, em 25/5, o diretor Buckeridge já encaminhara mensagem à professora Michele, queixando-se da investigação realizada pelo Informativo Adusp. “Não é possível entender a relação da Adusp com este convênio, já que se trata de um projeto do IB, assim como os demais convênios que temos com empresas”, disse Buckeridge. Ainda segundo o diretor, a “propagação da ideia infundada de que há um processo de ‘privatização’ não tem qualquer fundamento, já que é um projeto como centenas que ocorrem na USP com empresas, e que seguem os padrões da USP (Auspin e PG). Infelizmente, tenho tido que me ocupar de respostas indiretas devido à indagações do Jornal da Adusp [sic] a pessoas, à empresa e até ao setor de Convênios, que não entendeu o motivo do contato”.
 
Assim, a mensagem da ouvidora geral parece seguir a mesma linha da manifestação de Buckeridge de questionar o direito do Informativo Adusp de reportar as questões suscitadas pelo convênio. É intrigante o questionamento feito, na medida em que, nas atribuições da Ouvidoria Geral listadas em sua página na Internet, consta a “proteção do direito à informação”.
 
A mensagem traz dois arquivos em anexo: uma “Carta de Esclarecimentos da Comissão da Reserva Florestal do IB” e uma “Carta Aberta à Congregação”, esta de autoria do Departamento de Ecologia do instituto. Portanto, embora a mensagem afirme que “a Diretoria e a Congregação do IB encaminharam detalhados esclarecimentos sobre os fatos”, ela não veio acompanhada de documentos emanados dessas instâncias. Se a Ouvidoria Geral recebeu tais documentos, ela não os repassou na mensagem. O convênio com a Greenheart, aliás, foi aprovado ad referendum da Congregação.
 
Ainda que não tenha sido a intenção da ouvidora geral, sua iniciativa reforça as pretensões da direção do IB de cercear o trabalho jornalístico desenvolvido pelo Informativo Adusp. A afirmação de Marília Seelaender de que não há “irregularidades constatadas” carece amplamente de comprovação, sendo duvidoso que o aval da Agência USP de Inovação (Auspin) e da Procuradoria Geral tenham o condão de garantir, de per si, a legalidade do convênio.
 
De qualquer modo, as reportagens do Informativo Adusp não andam à busca de “irregularidades”, mas levantam questões conceituais apontadas e denunciadas pela comunidade do instituto, como a falta de transparência e de legitimidade e as eventuais perdas para os pesquisadores e o patrimônio do IB.
 
Presente à reunião de 21/6 do Conselho Universitário que aprovou quase R$ 2 bilhões em investimentos (entre os quais um duvidoso “Distrito Tecnológico” e generosas verbas para hospitais hoje gerenciados por fundações privadas), sem destinar um centavo sequer à Reserva Florestal do IB, o diretor da unidade não se lembrou de reivindicar recursos para aquela que é, nas suas palavras, “um dos principais instrumentos para aproximar a USP da sociedade”.
 
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