Professores, médicos, diretores, chefes de departamentos e outros profissionais da saúde da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP) e do respectivo Hospital das Clínicas (HC-FMRP) divulgaram nota à imprensa nesta quarta-feira (12/8) na qual repudiam insinuações publicadas “por certos órgãos de imprensa e nas mídias sociais no sentido de que estaria ocorrendo irresponsabilidade dos serviços públicos de saúde pela não adoção dos chamados ‘kits Covid’”.

Os kits, na concepção de tais veículos, “seriam eficazes na prevenção das formas graves da Covid-19”. Para defender essa postura, são apresentadas opiniões de prefeitos e moradores de cidades do Brasil em que supostos resultados favoráveis na contenção da doença estariam sendo obtidos com a distribuição dos kits à população.

“Cumpre esclarecer que estas opiniões não têm embasamento científico robusto, tendo sido refutadas por estudos bem recentes, metodologicamente muito bem conduzidos, que, unanimemente, apontam completa ausência de efeito protetor ou curativo de drogas como hidroxicloroquina e azitromicina em qualquer fase evolutiva dos casos de Covid-19”, diz a nota.

Os profissionais ligados à faculdade e ao HC-FMRP ressaltam que produtos como ivermectina, nitazoxanida, zinco, vitamina D e ozônio nunca foram submetidas a estudos controlados para o tratamento da doença e que sua utilização agride “o bom senso e as modernas práticas científicas”.

“Além da falta de qualquer suporte científico à utilização desses medicamentos, que justificassem sua distribuição para a população, os benefícios apregoados em algumas cidades não resistem minimamente a uma comparação objetiva de indicadores epidemiológicos da Covid-19, com outras cidades de população similar que não os utilizam”, prosseguem os signatários.

“Levam a opinião pública a acreditar em soluções pretensamente milagrosas”

“A insistência em transmitir ao público estas falsas informações constitui grave irresponsabilidade por parte dos criadores desses conteúdos e de alguns órgãos da imprensa”, continua a nota, porque “levam a opinião pública a acreditar em soluções pretensamente milagrosas e a ingerir drogas que, além de ineficazes para a Covid-19, possuem efeitos colaterais potencialmente graves”. Além disso, induz-se a população “a experimentar uma falsa sensação de segurança que possivelmente leve a um relaxamento das medidas comprovadas cientificamente como de alto impacto na interrupção da cadeia de transmissão, como o distanciamento social, o uso contínuo de máscara e a correta e constante higienização das mãos”.

De acordo com a nota, os resultados assistenciais obtidos pelos hospitais do Complexo HC-FMRP no tratamento dos doentes internados são “comparáveis aos dos melhores hospitais do Brasil e de países desenvolvidos”.

“Ainda que se deva respeitar o direito de cada profissional médico em prescrever a medicação que julgar adequada para seus pacientes, assumindo individualmente a responsabilidade pelos seus atos, não se pode compactuar com políticas públicas que destinem recursos substanciais para tratamentos sem comprovação de sua eficácia, ao invés de aplicá-los em equipamentos e terapêuticas já consolidados para o enfrentamento dessa grave doença”, ressalta a nota, em provável referência à decisão do governo Bolsonaro de ordenar a produção de 1,8 milhão de comprimidos de hidroxicloroquina no laboratório farmacêutico do Exército.

Os signatários encerram o comunicado afirmando que difundir esse tipo de informação é uma prática altamente danosa à comunidade e que “produz um enorme desserviço aos esforços das instituições de saúde comprometidas com o bem-estar da comunidade e com o combate à grave pandemia pela qual passamos”.

A nota é assinada por 25 profissionais, entre eles Rui Alberto Ferriani, diretor da FMRP e presidente do Conselho Deliberativo do HC-FMRP; Jorge Elias Júnior, vice-diretor da FMRP; Benedito Carlos Maciel, superintendente do HC-FMRP; Afonso Dinis Costa Passos, coordenador do Núcleo de Epidemiologia do HC-FMRP; e Gilberto Gambero Gaspar, presidente da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do HC e docente da Divisão de Moléstias Infecciosas da FMRP.

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