Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), porém, realizará em 18/1 uma prova online para mais de 5 mil candidatos a médico(a) residente, de modo a “assegurar a saúde dos envolvidos na realização da prova e para evitar o adiamento do certame”. A decisão foi anunciada em carta aberta que lembra que o Estado de São Paulo é o epicentro da pandemia no Brasil e já registra quase 48 mil óbitos por Covid-19

A realização do “São Paulo Boat Show” na Raia Olímpica da USP, num momento de evidente recrudescimento da Covid-19 no Estado, foi o ápice da atitude da Reitoria frente à pandemia, que uma docente designou, muito apropriadamente, como “negacionismo ilustrado”. O negacionismo ilustrado consiste no reconhecimento formal dos riscos oferecidos pela doença, sem que esse reconhecimento impeça todo tipo de iniciativas e práticas que vão em sentido contrário, mas são justificadas por uma narrativa de racionalização.
 
No domingo passado (3/1), mais uma vez os dirigentes da universidade demonstraram a prevalência do negacionismo ilustrado como eixo condutor das suas decisões. Nessa data, conforme denunciou previamente reportagem da Folha de S. Paulo, a Faculdade de Medicina (FM-USP) submeteu a uma prova presencial de residência médica milhares de candidato(a)s de todo o país. De acordo com o jornal, mais de 8 mil médicos e médicas recém-formado(a)s inscreveram-se para as provas.
 
Como assinalado na reportagem, tratava-se do último dia da fase vermelha do Plano SP, “a mais restritiva do plano de contenção do coronavírus”. Portanto, a prova foi levada a cabo, de modo presencial, em plena fase de alerta máximo contra os riscos de contágio. Tudo devidamente racionalizado pela Comissão de Residência Médica da FM-USP (Coreme): “A aplicação da Prova Objetiva de Múltipla Escolha seguirá todas as recomendações e medidas vigentes no Estado de São Paulo, com vistas à prevenção do contágio e ao combate do novo coronavírus (Covid-19). Sua realização foi autorizada pelo Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo. Os candidatos que optarem por não realizar a prova por motivos pessoais ou de saúde terão a devolução da taxa de inscrição e estarão excluídos do atual processo seletivo”.
 
Nesta quinta-feira (7/1), a Coreme da FM-USP divulgou os resultados dessa primeira fase do processo seletivo. “A USP não pode parar”, ainda que o resultado desse frenesi resulte em pessoas mortas ou estropiadas pela Covid-19. No entanto, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), também decidido a não adiar a seleção de residentes médicos agendada para 18/1/2021, para a qual se inscreveram 5.295 candidato(a)s, optou por uma alternativa segura para os e as participantes: a aplicação de provas online.
 
Para divulgar sua decisão, a Coreme do HCFMRP emitiu uma “Carta Aberta à Comunidade”, na qual expõe as razões que levaram à medida adotada, a começar pela situação da pandemia em São Paulo, Estado que a Organização Mundial da Saúde define como “epicentro” da Covid-19 no país, “com maior número de notificações, de casos confirmados e de mortes”, sendo que “desde novembro de 2020 observa-se uma recrudescência no número de casos notificados”. Prossegue: “No dia 6 de janeiro de 2021, de acordo com os dados da Secretaria da Saúde, o Estado de São Paulo registrou 47.511 óbitos e 1.501.085 casos confirmados do novo coronavírus”.
 
Dados de Ribeirão Preto, continua, “também mostram tendência de aumento do número de casos confirmados, e a ocupação de leitos de UTI ultrapassou os 80%”, e especificamente no caso do HCFMRP “atingiu 100%”. Além disso, “aglomerações amplas e irrestritas por todo o território nacional durante as festas de final de ano” apontam para um cenário epidemiológico pior do que o inicialmente previsto para a data previamente determinada para o processo seletivo”.
 
Desse modo, explica o documento, a Coreme, a Comissão Especial para a Seleção dos Médicos Residentes e a Superintendência do HCFMRP concluiram pela necessidade de revisão do processo seletivo, “diante da insegurança da prova escrita presencial, não só aos candidatos, mas a toda a comunidade, considerando-se o elevado número de inscritos e um espaço físico limitado (destacado no original)”.
 
Neste contexto, “temendo-se [...] o risco da transmissão da Covid-19 para os candidatos, seus familiares, bem como todos os envolvidos no processo seletivo, tornou-se impositiva a busca de alternativas para a execução segura do processo seletivo”. A solução encontrada foi a realização de uma prova online com monitoramento individualizado de cada candidato, “realizado por aplicadores humanos e robôs ao mesmo tempo, por meio de áudio e vídeo”.
 
Ainda de acordo com a Carta Aberta, o modelo adotado “vem sendo amplamente utilizado por sociedades científicas, concursos públicos e outros processos seletivos, permitindo atender à necessidade de processo com equidade e transparência, além de garantir as condições de segurança necessárias”, e é “essencial para assegurar a saúde dos envolvidos” e evitar o adiamento do certame, “cujas consequências seriam incalculáveis para todos os assistidos pelo HCFMRP-USP”.
 
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