Carlos Gilberto Carlotti Junior garantiu que hospital não será desvinculado da USP e afirmou que é preciso negociar aporte de recursos e gestão do referenciamento com prefeitura e governo do Estado

Carlos Gilberto Carlotti Junior, que assumirá a Reitoria da USP no próximo dia 26, garantiu que vai aumentar o investimento no Hospital Universitário (HU) e que também fará contratação de funcionária(o)s, embora não tenha citado números ou detalhes sobre as medidas.
 
Carlotti prometeu que haverá contratações “para fazer uma recuperação razoável do HU”, além de investimentos na melhora do Pronto-Socorro Adulto (PSA), da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), do centro cirúrgico e dos equipamentos do hospital. Ressalvou que isso não significa “colocar em funcionamento 100% dos leitos rapidamente”. “Não estou me comprometendo com números. Preciso primeiro conhecer os dados reais”, afirmou em reunião com mais de 30 representantes da comunidade do Butantã realizada em formato remoto na tarde desta quarta-feira (12/1).
 
O reitor eleito assegurou ainda que “não há interesse da USP em transferir a gestão do HU para o Estado”. “Vamos mantê-lo dentro da universidade e fazer um aporte de recursos, que precisa ser coordenado com a prefeitura e o Estado, para que ele possa ser o hospital de ensino, extensão e atendimento de qualidade que nós queremos”, ressaltou.
 
Médico formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, Carlotti foi diretor da unidade e também diretor clínico do Hospital das Clínicas da faculdade (HC-FMRP). “Sou da área da saúde e sei que nela não se pode esperar muito tempo. Temos que tomar decisões rápidas e qualificadas”, enfatizou.
 
A reunião foi realizada por sugestão do presidente do Conselho Deliberativo (CD-HU), professor Tarcísio Eloy Pessoa de Barros Filho, que também estava presente e na sequência acompanhou o reitor eleito numa visita às instalações do hospital.
 
“O objetivo da minha vinda é poder ter contato mais direto com a administração, a superintendência, o CD-HU e as pessoas que trabalham aqui. Entendendo a situação, acho que posso atuar com maior qualificação nas decisões que a Reitoria vai tomar”, disse Carlotti.

Butantã na Luta defende rapidez nos concursos para evitar restrições da Lei Eleitoral

Na reunião, Lester Amaral Junior, integrante da coordenação do Coletivo Butantã na Luta (CBL), traçou um histórico da atuação da comunidade e dos movimentos que, desde 2014, quando o então reitor M. A. Zago propôs a desvinculação do HU da USP, vêm trabalhando pela recuperação plena do hospital.
 
Amaral ressaltou que as duas edições do Programa de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV) da USP, em 2015 e 2016, fizeram com que o hospital perdesse centenas de funcionária(o)s e, consequentemente, ficasse com sua capacidade comprometida. O número de leitos foi bastante reduzido e o total de atendimentos, que chegava a cerca de 17 mil por mês, considerando todos os procedimentos – ambulatório, cirurgias, internações etc. –, caiu para 5 mil.
 
“O impacto na região, que hoje tem em torno de 600 mil habitantes, foi enorme”, afirmou. “A resistência da comunidade impediu a desvinculação, mas não impediu que houvesse essa grande perda.”
 
Amaral mencionou também a luta dos movimentos para obter verbas extraordinárias para o HU por meio de emendas parlamentares na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) em 2018 e 2019. Os recursos de R$ 40 milhões obtidos por emenda em 2019 foram aplicados em custeio e contratações temporárias, o que permitiu algumas ações. “A recuperação do hospital não pode depender de emendas. Precisa ser estruturante”, considera.
 
Na avaliação do CBL, o HU deve contratar entre 400 e 500 servidora(e)s para permitir a sua recuperação plena e o retorno aos níveis de atendimento anteriores. O movimento defende que as contratações sejam feitas por concurso público e por tempo indeterminado.
 
Amaral ressaltou que é importante encaminhar a realização dos concursos ainda no primeiro semestre para que o hospital não tenha problemas com as restrições impostas pela Lei Eleitoral.
 
Em junho do ano passado, o CBL entregou a Barros Filho um documento com as diretrizes para um projeto popular de recuperação plena do HU, que sintetiza o acúmulo de lutas e propostas do movimento nos últimos anos. O manifesto também foi entregue a Carlotti durante a campanha eleitoral para a Reitoria.

Hospital deve debater seu papel na atenção primária e no referenciamento

Um tema importante, mencionado por vários participantes, foi o papel do HU no referenciamento para a Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde do Estado (Cross) e a rede de urgência e emergência do município. “É de enorme importância aumentar a vinculação com a atenção primária na revisão da contratualização do Sistema Único de Saúde (SUS)”, defendeu Lester Amaral Junior.
 
“Não adianta ampliar os recursos e o HU continuar recebendo demandas de toda a Grande São Paulo que não são bem equalizadas pela Cross e pelo município. Para nós é fundamental um vínculo mais permanente com a atenção primária, mais direto com a Supervisão Técnica de Saúde do Butantã e com a Coordenação da Região Oeste”, prosseguiu.
 
De acordo com Amaral, a única Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência pré-hospitalar na grade da região atualmente é a UBS São Remo. “Não estou dizendo que esteja funcionando dessa forma, mas é o que está escrito. Como não temos UPA [Unidade de Pronto Atendimento], esse quadro se agravou muito e o impacto para a população foi terrível”, descreveu. As demandas de urgência e emergência têm sido direcionadas ao Pronto-Socorro Municipal Dr. Caetano Virgílio Neto, no Jardim Bonfiglioli, que está sobrecarregado.
 
Há previsão de entrega de duas UPAs para a região, mas a primeira deve entrar em funcionamento no final deste ano e a segunda, com a expansão do PSM Caetano Virgílio, somente em outubro de 2023.
 
Amaral defendeu que “é preciso haver negociação para uma certa transição” no tocante à atenção primária. “Não se trata de tirar um médico do atendimento de alta complexidade para o básico, mas é preciso fazer essa discussão, até porque a questão faz parte do dimensionamento dos próprios concursos públicos”, afirmou.
 
Gilberto Frachetta, representante da comunidade no CD-HU, ressaltou que a população continua procurando o HU para atenção primária porque as UBS sofrem com alta demanda e, em consequência, o atendimento demora.
 
Na sua avaliação, a população em que ser orientada a procurar as UBS para atendimento primário, mas o Pronto-Socorro do HU deve funcionar 24 horas para acolher a comunidade. O referenciamento precisa ser mais discutido, inclusive no CD-HU, afirmou.
 
Por sua vez, Oscar Pierrotti Martins, integrante do Conselho Distrital de Saúde do Butantã, defendeu que o HU seja unidade de referência para casos graves, porque a atenção primária acabou prejudicando o seu atendimento no passado.
 
De acordo com Martins, quando o hospital abriu as portas para a atenção primária, a prefeitura direcionou essas demandas para o HU “e acabou sucateando as unidades básicas de saúde”. O conselheiro considera que os problemas nas UBS são anteriores à pandemia, embora tenham sido agravados pela sobrecarga decorrente dela.
 
Mario Balanco, da coordenação do CBL, sugeriu que o HU seja também, além de centro de ensino e assistência, um centro de pesquisa, atraindo pesquisadores. Balanco reivindicou ainda atenção para o Centro de Saúde-Escola Samuel Barnsley Pessoa (CSEB), “que está isolado e poderia fazer um trabalho de extrema importância em conjunto com o HU”.

Medidas têm que ser coordenadas para que a população não fique sem atendimento, diz Carlotti

Após ouvir as manifestações, Carlotti afirmou que, “em linhas gerais, precisamos primeiro de maior contato tanto com a prefeitura quanto com o Estado para definirmos o papel e as necessidades do HU e da atenção primária na região”. “Todos nós defendemos o SUS, e o seu princípio é o da integração, hierarquização, referência e contrarreferência”, prosseguiu.
 
Em sua visão, na discussão sobre o funcionamento com porta aberta ou referenciado, “o grande problema é a falta da UPA”. “Quando falta uma unidade de porta aberta, isso acaba sobrecarregando a unidade que deveria ser referenciada, como o HU. Você não pode fechar uma se a outra não estiver atuando. Isso tem que ser feito de forma coordenada para que a população não fique sem atendimento”, disse.
 
Na próxima semana, o reitor eleito e Barros Filho terão reunião com o secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchteyn, e também estão agendando com o secretário municipal, Edson Aparecido, para debater esses e outros temas.
 
“Vamos atuar politicamente para que o HU tenha participação maior em decisões da Alesp e de outras instâncias que possam colaborar com o financiamento”, disse. “Os objetivos que vocês têm são os que nós temos: trabalhar em conjunto. Vocês têm uma força política muito grande e a universidade também. Se todos estiverem remando para o mesmo lado, acho que conseguirmos fazer um HU melhor.”
 
Carlotti se disse aberto a receber sugestões e se comprometeu a fazer uma reunião no mesmo formato para debater a situação do CSEB, além de marcar novos encontros com a comunidade do Butantã para discutir as ações da Reitoria no HU.

Profissionais denunciam “situação insustentável” na unidade de urgência

Dois casos extremos ocorridos recentemente no HU motivaram profissionais que atuam na Divisão de Clínica Médica (DCM) do HU a enviar à superintendência da instituição no último dia 5/1 uma carta na qual denunciam “a situação insustentável de nossa Unidade de Urgência e Emergência Referenciada de Adultos (UUERA)”.
 
Um paciente morreu após sofrer uma parada cardíaca enquanto esperava atendimento e, no dia 22/12 do ano passado, o Pronto-Socorro Adulto (PSA) foi “vandalizado por uma paciente não-grave que aguardava avaliação no gripário dada a demora em ser atendida por um profissional único que dedicava horas ao manejo de um paciente em estado crítico na sala vermelha do PSA”, diz a carta.
 
De acordo com o relato, a paciente “invadiu a sala vermelha e depredou o patrimônio público destinado ao cuidado de pessoas em estado grave, quebrando ampolas de medicações, tubos de coleta de exames, impressora e ameaçando a integridade física de todos que ali estavam”.
 
 A carta afirma que “os problemas atuais começam a se intensificar a partir do momento em que, apesar de instituído o referenciamento, o mesmo não foi comunicado de forma ampla à população da zona oeste ou mesmo à comunidade USP”. Assim, “pacientes continuam a procurar nosso serviço para demandas de baixa complexidade (resfriados, dores de cabeça ou no corpo, tosse, febre, entre outras queixas não urgentes)”, sobrecarregando as equipes já reduzidas.
 
A carta registra que “em inúmeros momentos” a superintendência recebeu a reivindicação da adoção de “medidas que tornassem viável o funcionamento da nossa unidade, porém muito pouco tem sido feito”.
 
“Consideramos que os últimos acontecimentos – morte de paciente aguardando atendimento e vandalização do PSA por demora na triagem – tornam mais urgente do que nunca a resolução do descaso crônico com a situação de trabalho dos médicos e enfermeiros deste hospital”, diz a carta.
 
O documento sugere as seguintes medidas: “abertura de concurso público para a contratação permanente de médicos via USP para restabelecimento do quadro mínimo de funcionários do hospital”; “alocação 24 horas de um profissional de enfermagem destinado exclusivamente à classificação de risco”; “ampla divulgação sobre o fechamento do PSA para toda a população da zona oeste”; “fim imediato do esquema de dupla-porta para a comunidade USP que, além de inconstitucional, sobrecarrega ainda mais nosso serviço além de criar dificuldade na comunicação com a comunidade sobre o referenciamento”; e “elaboração, por escrito, de fluxo institucional de atendimento à livre demanda do PSA”.
 
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