A matéria “Cátedra do IEA com a Folha suscita indagações sobre autonomia da USP e subordinação ao mercado”, publicada pelo Informativo Adusp em 25/2, repercutiu em alguns veículos jornalísticos, a começar da própria Folha de S. Paulo. No dia seguinte, o jornal publicou a respeito matéria online — intitulada “Associação de professores da USP critica cátedra criada com apoio da Folha” — depois reproduzida pela edição em papel de 27/2.

Curiosamente, a matéria da Folha trata a reportagem do Informativo Adusp como “nota da Adusp”, e — embora aponte corretamente que o texto descreve a Cátedra como “resultado de uma aproximação excessiva da universidade com o setor privado, e uma ameaça à autonomia da USP” — dá ênfase às informações nele elencadas a respeito dos coordenadores acadêmicos da Cátedra e às evidências de que a Escola de Comunicações e Artes (ECA) foi alijada da iniciativa do Instituto de Estudos Avançados (IEA). Outra curiosidade: a matéria da Folha não é assinada, o que é inusual.

A Folha traz ainda declarações (“notas”) dos coordenadores acadêmicos da Cátedra Otávio Frias Filho, os docentes André Chaves de Melo Silva e Cláudio Júlio Tognolli, ambos da ECA, em resposta ao teor da reportagem do Informativo Adusp. Nenhum deles, contudo, respondeu até agora às questões que lhes foram diretamante encaminhadas pelo Informativo Adusp.

Tognolli, por exemplo, afirmou à Folha: “A Comissão Anti-Machismo da ECA me investigou e nada encontrou contra minha pessoa”. Ainda segundo o jornal, “Tognolli disse que havia ‘hiper-relevância’ na divulgação da tomografia de dona Marisa Letícia e que fez um acordo com Favreto na Justiça, ‘em que ambas as partes lucraram’”.

Melo Silva, por sua vez, reiterou o compromisso da Cátedra com a manutenção e o fortalecimento da democracia, “o que inclui os direitos das minorias e contra os diferentes tipos de discriminação”.  Aproveitou para se incluir entre o rol de autores do projeto: “Como um dos idealizadores desta iniciativa, esperamos congregar pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, do Brasil e do exterior, na compreensão deste complexo fenômeno contemporâneo.”

Dois sites jornalísticos também repercutiram o caso. O site Poder360 mancheteou “Associação de professores da USP critica cátedra feita em parceria com a Folha”, ao passo que o Diário do Centro do Mundo preferiu “Folha cria cátedra de jornalismo na USP e põe extremista que divulgou tomografia de Marisa Letícia para coordenar”. O DCM, como é conhecido o site, reproduziu artigo assinado pelo professor e cientista político Luis Felipe Miguel, da Universidade de Brasília (UnB), que comentou o caso em sua página no Facebook.

No Twitter, o próprio Tognolli tratou de responder à reportagem do Informativo Adusp, de maneira peculiar. “Veja como sou amado pelas esquerdas”, disse em postagem de 25/2 no qual inseriu o link correspondente à matéria. No dia seguinte, divulgou a matéria da Folha, e em 27/2 novamente, desta vez com o segunte comentário: “Folha mostra como as esquerdas me tratam na USP”.

Em seguida, nessa mesma data, ele recebeu na rede social o apoio do ex-ministro da Cultura de Michel Temer, e secretário dessa mesma pasta no governo Doria (PSDB), o jornalista Sérgio Sá Leitão: “A esquerda corporativista é contra tudo que identifica como não sendo ‘de esquerda’ (ou anacrônico, hipócrita, irresponsável); e faz o que pode contra (mentira, leviandade, patrulha). Solidariedade total ao professor Tognolli; e parabéns à USP e à Folha pela criação da cátedra.”

As perguntas que Tognolli deixou de responder ao Informativo Adusp são as seguintes: “1) No seu currículo Lattes o Sr. informa que é o idealizador da Cátedra Otávio Frias Filho, além de ser um dos coordenadores. Como se deu sua participação na criação da cátedra?” e “2) Nos últimos anos o Sr. se envolveu em episódios controversos, que tiveram repercussão dentro e fora da USP: acusações de assédio e machismo por parte de alunas e do Centro Acadêmico Lupe Cotrim, a discussão com Helen Braun na Jovem Pan, o post no Twitter revelando o celular do desembargador Rogério Favreto (TRF-4), fato que gerou manifestação de censura do então chefe do Departamento de Jornalismo da ECA. Dada essa notoriedade, o Sr. considera adequada sua nomeação como coordenador da cátedra?”

Já Melo Silva deixou de responder às seguintes questões: “1) [O Sr. será o coordenador acadêmico da Cátedra.] A quem o Sr. atribui a escolha, à ECA, ao IEA ou à Folha de S. Paulo?”, “2) Na condição de professor da disciplina ‘Jornalismo em Agrobusiness e Meio Ambiente no Brasil’, o Sr. desenvolveu uma parceria com a ABAG-RP, entidade que promove os interesses do agronegócio. Essa aproximação não é contraditória com os princípios de isenção do jornalismo?” O Informativo Adusp sugeriu ao docente (e fez o mesmo em relação a Tognolli) que qualquer outro comentário que julgasse pertinente sobre o assunto seria levado em conta, não precisando ater-se exclusivamente às perguntas encaminhadas.

Esclarecimentos da ECA e do Instituto de Estudos Avançados

Nesta segunda-feira, 1º/3, o diretor da ECA, professor Eduardo Monteiro, respondeu aos questionamentos que lhe foram enviados pelo Informativo Adusp. “A ECA não foi consultada sobre a criação da cátedra, nem sobre a composição da sua coordenação ou Comitê de Governança”, declarou. “Ressalta-se o apoio da ECA ao Instituto de Estudos Avançados, que tem tido uma atuação destacada sob a direção do professor Ary Plonski. A criação de uma cátedra significa um estímulo singular e de grande relevância para a produção de conhecimento em uma determinada área. Nesse sentido, seria certamente enriquecedora uma aproximação com as unidades de ensino em ações dessa natureza”.

Na semana passada, o Informativo Adusp também entrou em contato com o IEA, a cuja direção submeteu as seguintes perguntas: “1) A Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP) foi procurada ou de alguma forma consultada sobre esse projeto? 2) Quais foram os critérios aplicados na composição da coordenação da Cátedra? 3) A indicação dos coordenadores acadêmicos da Cátedra foi submetida a alguma instância colegiada do IEA ou de algum outra unidade ou órgão da USP?”

Nesta segunda, o professor Guilherme Ari Plonski, diretor do IEA, prestou alguns esclarecimentos, com a finalidade de, nas suas palavras carregadas de ironia, “assegurar aos habitualmente bem informados associados da Adusp um quadro contextualizado”. De acordo com o diretor, o instituto não interfere na relação entre o(a)s docentes envolvido(a)s nos projetos e suas respectivas unidades. Ele considera ainda que o IEA está integrado com cerca de 80% das unidades da USP.

Quanto aos seis assentos do Comitê de Governança da Cátedra Otávio Frias Filho, ele informa que o IEA indicou, além do diretor e da vice-diretora do instituto, o coordenador acadêmico principal, no caso o professor Melo Silva. Donde se conclui que o coordenador-adjunto, professor Tognolli, foi indicado pela Folha de S. Paulo. A seguir a íntegra das declarações prestadas por Plonski:

“a) A Cátedra Otávio Frias Filho (OFF) de Estudos em Comunicação, Democracia e Diversidade, parceria entre a Folha e o Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA), cria uma plataforma ideal para fomentar novas ideias acerca da convergência entre essas três questões, que moldarão o futuro da sociedade. Ela se junta a outras cinco cátedras em operação no IEA, todas focalizando desafios complexos, que necessitam de abordagens interdisciplinares e equipes de pesquisa com formações distintas e experiências variadas.

b) Criado em 1986, o Instituto de Estudos Avançados da USP não possui quadro próprio de pesquisadores/as nem tem discentes, uma vez que não pode oferecer cursos de graduação ou de pós-graduação. Suas mais de quarenta equipes – organizadas em grupos de pesquisa e de estudo,cátedras, centros de síntese, núcleos de apoio à pesquisa, programa de sabáticos e projetos especiais, são integradas por docentes das demais unidades da USP, bem como de estudiosos e especialistas de instituições externas à Universidade. O Instituto tem estrutura própria (Conselho Deliberativo) para apreciar e deliberar as propostas de novos grupos,cátedras, projetos, sabáticos etc.

c) O IEA não interfere na relação entre o/a docente e a sua unidade de vinculação. Cabe observar que o envolvimento com o Instituto é complementar e sinérgico com a atuação docente. Ao longo do período 2016-2020, cerca de 250 pesquisadores/as encontraram no IEA em São Paulo, Ribeirão Preto e São Carlos ambientes intelectuais acolhedores para produção e disseminação de conhecimentos. Provêm eles/as de 40 das 50 unidades acadêmicas da nossa Universidade.

d) O IEA se sente energizado por essa participação da maioria absoluta das unidades que perfazem a nossa comunidade universitária, cumprindo, assim, a disposição inicial do seu Regimento, a saber, estar ‘voltado para a integração da Universidade e a interação desta com outras instituições e com a sociedade em geral’. Essa integração se expressa tanto ao nível das equipes como na sua interação.

e) Da mesma forma que em outras cátedras, a orientação e as decisões estratégicas cabem ao Comitê de Governança compartilhada. O IEA e a Folha têm, cada um, três assentos. Os três membros pelo IEA são o/a Diretor/a do Instituto, um/a docente indicado/a pela Direção (no caso, será a Vice-Diretora do IEA) e o/a Coordenador/a Acadêmico/a. O/A Diretor/a do Instituto preside o Comitê”.

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