Atraso no pagamento de bolsas, dificuldades com alimentação na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) e graves problemas estruturais do Crusp foram temas abordados pelo telejornal SP1. Plenária dos três setores na USP Leste manifesta indignação e cobra da Congregação e da Reitoria uma solução definitiva das demandas

A situação de insegurança alimentar a que vêm sendo submetidos alunos e alunas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) que dependem de benefícios para a permanência estudantil, por um lado, e a condição de precariedade e verdadeiro abandono enfrentada por moradoras e moradores do Conjunto Residencial da USP (Crusp), por outro lado, foram tema de extensa reportagem apresentada na tarde desta sexta-feira (28/5) no telejornal SP 1, da TV Globo em São Paulo.

A repórter Andreza Oliveira colheu depoimentos de estudantes da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) que enfrentam dificuldades para obter as marmitas de alimentação, entregues na própria unidade. Sandra Gomes, aluna do curso de Obstetrícia e moradora de uma república no bairro do Tatuapé, disse à reportagem que muitos alunos e alunas não residem no entorno da unidade e têm dificuldade para se deslocar e buscar as marmitas por não terem mais a gratuidade no transporte público, como ocorria antes da pandemia. Além disso, procuram evitar circular diariamente pela cidade e se expor aos riscos de contaminação pela Covid-19.

Carolina Paulino, aluna do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH, denunciou o atraso no pagamento das bolsas de auxílio-moradia. “No dia 19/5, um dia antes do pagamento das bolsas, eles ainda informaram [a]os estudantes que atrasariam o pagamento para ser pago apenas em junho, sem comunicar os motivos”, relatou a aluna. “E os estudantes têm apenas a bolsa para contar. Eles têm a refeição que era oferecida pela USP nos restaurantes universitários como sua única opção. Quando o nosso pagamento é atrasado, o que nós fazemos?”, perguntou Carolina. “Para mim faz toda a diferença receber essa bolsa”, reforçou Sandra.

Na última terça-feira (25/5), aplenária dos três setores da EACH, realizada em formato remoto, discutiu o tema e aprovou uma manifestação de “indignação pelo atraso no pagamento dos auxílios para estudantes do PAPFE (Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil), referente ao mês de maio de 2021”. “A(o)s estudantes dependem desses auxílios para o seu sustento e o de suas famílias. Portanto, é inadmissível que haja atrasos, especialmente em meio à pandemia, quando são muitas as pessoas que foram colocadas em situação de maior vulnerabilidade”, diz a manifestação.

“Deploramos, ainda”, prossegue o texto, “a situação de que há muita(o)s estudantes em insegurança alimentar e que a proposta de entrega de marmitas, além dos riscos envolvidos pela exigência de deslocamento até a EACH, não cumpriu com suas necessidades”.

Os três setores da unidade instam “a Congregação da EACH, as Pró-Reitorias de Graduação e de Pós-Graduação e a Superintendência de Assistência Social (SAS) a resolverem definitivamente a situação”. “O combate à fome deve ser prioridade máxima da Universidade, não só pela sua função social, mas também pela absoluta necessidade de sermos solidários num momento tão crítico como o que estamos vivendo”, conclui a manifestação.

No Crusp, cozinhas comunitárias sem condições de uso e sobrecarga da rede elétrica

A reportagem do SP1 também apresentou imagens feitas à noite no Crusp, mostrando andares inteiros sem iluminação nos corredores dos blocos, o que reforça a sensação de abandono e insegurança de moradores e moradoras. “Não me sinto segura para caminhar nessa região, que é a nossa residência”, afirmou Beatriz Nogueira, estudante de Biblioteconomia da Escola de Comunicações e Artes (ECA). “Temos questões com relação à violência sexual aqui no Crusp, e a gente entende que isso poderia ser muito melhor amparado.”

Outros depoimentos deixaram claros os graves problemas de infraestrutura da moradia, como infiltrações, vazamentos e até proliferação de fungos — sem falar na falta de acesso adequado à Internet, o que causa grandes prejuízos em tempos de aulas remotas. “Morar no Crusp e sofrer com falta de infraestrutura são quase que sinônimos”, apontou Antônio José, aluno do curso de Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).

A baixa qualidade das marmitas oferecidas foi outro aspecto apresentado por moradores e moradoras. Como quase todas as cozinhas comunitárias dos blocos estão sem condições de uso, os e as jovens se veem obrigados a instalar geladeiras, fornos elétricos ou de micro-ondas nos próprios apartamentos, sobrecarregando a rede elétrica.

“A gente sofre com esse receio de ter uma explosão no Crusp. A própria USP já colocou que não é para ter coisas dentro de casa, mas a gente não tem onde cozinhar”, comentou a aluna Ana Maria, do curso de Ciências Sociais.

Jéssica Marcolino, aluna da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), afirmou à reportagem: “Nós, moradores do Crusp e alunos da Universidade de São Paulo, queremos sentir o apoio da universidade. Não queremos nos sentir sozinhos durante todo esse processo do nosso curso e da nossa moradia na universidade.”

Estudantes merecem “condições dignas”, comenta jornalista

“Isso porque é a USP, hein?”, comentou no estúdio Cesar Tralli, apresentador do telejornal. Tralli passou então a enumerar as respostas enviadas pela universidade em relação aos problemas denunciados pela reportagem.

Os valores das bolsas, disse a USP ao SP1, vão ser reajustados em 25%, passando a R$ 500 com retroatividade a maio, e serão pagos na próxima terça-feira (1/6). A informação havia sido publicada pela Reitoria no início desta semana, sem citar, porém, que tais valores estavam congelados havia anos.

“Em relação à alimentação”, prosseguiu Tralli, “a USP diz que segue critérios rigorosos de produção e que tudo é acompanhado por nutricionistas”. Já no que se refere à falta de Internet, a universidade respondeu que “no fim do ano passado começou a instalar uma rede nova em todos os blocos residenciais”.

Quanto aos “prédios caindo aos pedaços”, como definiu o jornalista, referindo-se ao Crusp, a universidade reconheceu que “de fato é um problema antigo e que uma reforma deve começar no segundo semestre”.

“Ou seja, tem muita coisa para melhorar e tomara que consigam melhorar. É tudo o que a gente espera: condições dignas para os estudantes”, concluiu o apresentador.