A reunião virtual de 29/6 do Conselho Universitário (Co) foi marcada por agressões verbais a conselheiros que manifestaram críticas a propostas e políticas da Reitoria. As questões que suscitaram o destempero foram a resistência de parte do colegiado à decisão de homenagear o ministro e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Tóffoli e considerações contrárias ao desfinanciamento e sucateamento do Hospital Universitário (HU).

O reitor Vahan Agopyan abriu a reunião manifestando seu pesar pelas mortes provocadas pela pandemia, destacando que entre a reunião anterior do Co e esta o número de óbitos no Brasil passou de 300 mil para 500 mil. Lastimou a “perda desse grande contingente de brasileiras e brasileiros”, lembrou que além das mortes provocadas pela própria Covid-19 há outras que decorrem não diretamente do vírus, mas estão relacionadas à situação criada pela pandemia e encaminhou um minuto de silêncio no Co. 

No decorrer dos trabalhos, a Medalha da USP foi concedida aos ministros do STF Celso de Mello (aposentado) e Dias Tóffoli. Os conselheiros Ana Maria Loffredo, diretora do Instituto de Psicologia (IP),  e Adrián Fanjul, representante da Congregação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), manifestaram-se contra a concessão da Medalha a Tófolli, que recebeu apenas 50 votos “sim”, sendo 24 votos contrários e 22 abstenções. Ao chamar a atenção do colegiado para a escassa margem de aprovação, Ana Maria foi interrompida aos gritos por dois conselheiros, que a acusaram de pretender “dar golpe”.

Na parte final da reunião, o professor Adrián comentou o debate “Administração de Conflitos em Universidades”, realizado em 28/4/2021 e promovido pela FFLCH. Depois, referindo-se às manifestações das professoras Raquel Rolnik (vide mais adiante) e Anna Maria Loffredo na reunião, o representante da Congregação da FFLCH lembrou que o Co “precisa pautar o problema da permanência estudantil em todas as suas dimensões”. A composição do corpo discente mudou “e precisamos analisar essa realidade”, disse. A seu ver, a dimensão do cuidado com as pessoas “precisa ganhar mais prioridade”.

Adrián destacou algumas das questões abordadas pela Congregação da FFLCH na reunião que realizou em 17/6. “Precisamos jubilar durante a pandemia? Hoje homenageamos ministros do STF. O STF suspendeu despejos. Não seria possível suspender jubilamentos e estabelecer um plano gradual de metas para o estudante, já que trabalhamos com pessoas de um país que está sofrendo a maior catástrofe humanitária da história?”, questionou, reportando o debate realizado naquela ocasião.

“A dimensão do cuidado também se relaciona entre outros aspectos ao Hospital Universitário, como já falou o professor Vahan, e sobre o qual a minha congregação produziu em abril uma nota, para que eu trouxesse a esse colegiado”, prosseguiu o representante da Congregação da FFLCH, lendo apenas a conclusão do documento: “É necessário promover incondicionalmente, com a máxima urgência, o restabelecimento da máxima qualidade do Hospital Universitário”. Ele criticou ainda “a pouquíssima reposição de docentes” realizada pela universidade nos últimos sete anos, destacando a urgência necessidade de valorização do corpo docente. E pediu “a institucionalização do cuidado, para cada professor, cada funcionário, cada estudante”.

“O Sr. retorne à sua congregação e passe a mensagem que eu vou dar”

Encerrada a intervenção de Adrián, Vahan interrompeu a condução da mesa e manifestou-se, dando sentido muito diverso à fala do docente da FFLCH. “Professor Adrián, por favor, o Sr. retorne à sua congregação e passe a mensagem que eu vou dar. Acho uma falta de responsabilidade criticar a qualidade do Hospital Universitário no meio de uma pandemia. Vivemos uma crise sanitária e essa é uma ofensa aos nossos colegas, que estão dando o melhor de si para manter o hospital, para manter as nossas instalações [sic] de saúde na melhor situação. Então, por favor, criticar pessoal da Saúde que está se matando de trabalhar é uma coisa um pouco agressiva”.

Na continuação, o próprio Vahan ensaiou, inicialmente, amenizar seu destempero. “Eu acho que não foi essa a intenção da Congregação...”, emendou. Adrián então rebateu, com firmeza e sem perder a tranquilidade: “A Congregação não criticou o hospital. Se o Sr. quiser posso ler toda a declaração. Não criticou o Hospital Universitário, pelo contrário. O que critica é a falta de investimento nele. Posso ler a declaração completa se quiser”. Nesse momento, agitado, Vahan se descontrolou e alterou a voz.

“Falta de investimento? Nunca gastamos tanto no Hospital Universitário como estamos gastando agora! Faça-me o favor! Leia antes o que está sendo feito. E não se fale coisas sem saber. Por favor!”. O reitor continuou, gesticulando com ambos os braços: “Pessoal, criticar a universidade parece que é um esporte. Autofagia! Desculpe, Adrián, desculpe. Mas como reitor me sinto na obrigação de defender a universidade. Nós fazemos autofagia!”

O representante da Congregação da FFLCH manteve a calma frente à exaltação de Vahan. “Eu vou disponibilizar para o Conselho a nota completa da faculdade, que foi elaborada por colegas que têm acompanhado a situação do HU, a pedido da Comissão de Direitos Humanos e com embasamento de dados muito respeitável. De maneira nenhuma a Congregação da unidade votaria moção contra o HU”.

O reitor ainda insistiu, antes de passar ao próximo ponto da pauta do Co: “Os dados são públicos. Analise com cuidado antes de criticar a sua própria instituição”.

Conselheiros apontaram defasagem salarial e problemas na permanência discente

A Comissão de Orçamento e Patrimônio (COP) apresentou uma proposta de revisão orçamentária. Mais uma vez, diversos membros do Co manifestaram-se a respeito da defasagem salarial que afeta funcionários técnico-administrativos e docentes e pediram mais verbas para a permanência estudantil, questionando as prioridades definidas pela Reitoria. “Essa gestão não vai ser perdulária”, reagiu irritado o reitor.

A professora Raquel Rolnik, representante da Congregação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), propôs “um processo de debate em relação às prioridades dadas à pequena folga orçamentária que nós tivemos”. Ela elogiou a gestão orçamentária e a exposição feita pelo professor Fábio Frezatti, presidente da COP, por sua clareza. “Me parece que o mesmo caminho muito importante que nós estamos trilhando no sentido de nos apropriarmos dos números reais e entendermos a sua lógica, nós temos que trilhar no sentido de este Conselho Universitário ganhar um papel um pouco mais protagônico de discutir essas prioridades”, disse a professora.

“Termino minha intervenção reforçando que evidentemente a questão salarial dos nossos docentes é uma tragédia, acabou comprometendo em muitas unidades a própria discussão da progressão horizontal em função das dificuldades salariais, misturando esses dois temas. Lembro também a situação trágica do ponto de vista de funcionários em que nos encontramos, a necessidade de novos funcionários, inclusive para poder ter todo apoio administrativo para a pesquisa”, pontuou.

Por fim, Raquel destacou a nevrálgica questão da permanência estudantil: “Coisa que é absolutamente trágica também entre nós nesse momento, os recursos para permanência discente, dos nossos alunos cotistas e para sustentar a democratização que temos feito dessa universidade — me parece que isso deveria ser absolutamente prioritário. Mas eu não vi ainda qual foi o momento em que foram apresentadas essas prioridades no gasto, diante dessa pequena folga orçamentária”.

O diretor da FFLCH, professor Paulo Martins, comunicou ao Co que o professor Renato Janine Ribeiro foi eleito presidente da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC). Ribeiro foi diretor de Avaliação da Capes e ministro da Educação no governo de Dilma Rousseff (PT).

As reuniões do Co têm sido muito longas, e o reitor voltou a pressionar os integrantes do colegiado para que encurtem suas manifestações. Mas a verdade é que as pautas se tornaram mais carregadas desde que a própria Reitoria submeteu ao Co e conseguiu aprovar mudança na periodicidade das reuniões, que passaram a ser trimestrais em vez de mensais, o que provoca acúmulo de assuntos a serem resolvidos. Paralelamente, a Reitoria busca consolidar sua política de transferir o locus do debate real para as chamadas “reuniões de dirigentes”, instância inexistente no Estatuto da USP.