A comunidade científica e educacional tem pela frente uma tarefa dupla, considera o professor Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação, docente do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e recém-eleito para a presidência da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC): a primeira é “uma incumbência de resistência, de luta constante para defender aquilo que está sendo ameaçado”, e a segunda é de “preparação para o momento em que o Brasil vai voltar ao seu trilho normal, no qual o conhecimento rigoroso e científico tenha um papel protagonista”.

A avaliação foi feita no evento onlineCaminhos e descaminhos da ciência no Brasil”, promovido pela FFLCH para homenagear Janine, que toma posse no próximo dia 23/7, durante a 73ª Reunião Anual da SBPC. Também integra a diretoria eleita o professor Paulo Artaxo, docente do Instituto de Física da USP, como um dos vice-presidentes, ao lado da socióloga Fernanda Cabral. A diretoria terá sete mulheres, número inédito na história da entidade.

De acordo com Janine, a primeira tarefa vai ocupar a maior parte do mandato de dois anos da nova diretoria, coincidindo com o último ano e meio do governo Bolsonaro. “Será certamente de resistência e de empenho máximo de salvarmos o que gerações de brasileiros construíram com muito denodo, com gasto de dinheiro público, com muito afeto, muita paixão e com resultados significativos”, definiu.

Janine citou dois exemplos “altamente simbólicos” do cenário. Um é a situação do supercomputador Tupã, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), decisivo para a previsão meteorológica no país e que está ameaçado de desligamento, o que causaria impactos econômicos e científicos e prejudicaria áreas como segurança alimentar, energética e hídrica.Outro é a movimentação de lideranças políticas e educacionais na defesa do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro — criada em 1837, a instituição sofre com o bloqueio de verbas do Ministério da Educação (MEC) e corre o risco de não ter recursos para funcionar já a partir de setembro.

“Esses exemplos mostram a importância de unir todos os nossos esforços para a defesa de causas fundamentais: a ciência, a cultura, a educação, a saúde, o meio ambiente e a inclusão social. Todos esses pontos formam um círculo virtuoso que foi bastante trabalhado nos primeiros anos deste século até a virada que o Brasil sofre desde 2016 com uma série de problemas que foram se acumulando e que se agravaram até chegar à presente situação”, afirmou.

O momento, define o professor, “demanda de nossa parte uma resistência na defesa das universidades públicas, especialmente as federais, e dos institutos de pesquisa, também especialmente os federais — embora isso não nos dispense de defender também as universidades estaduais e as fundações de amparo à pesquisa, como a Fapesp, que também sofreu ameaças em plena pandemia de ter perda de recursos”.

“Como pode alguém pretender dirigir uma sociedade se não tiver valores éticos?”

Em relação à saúde, Janine comparou os efeitos da chamada gripe espanhola — pandemia que afetou o mundo em 1918, matando entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas, algo como de 3% a 5% da população global de então — e a pandemia da Covid-19. Se a ciência não tivesse oferecido novos instrumentos para combater a doença na atualidade, a mesma proporção causaria a morte de 230 milhões a 400 milhões de pessoas no mundo. A pandemia da Covid-19 provocou até o momento a morte de cerca de 4 milhões de pessoas. “Isso se deve a medidas que foram, todas elas, frutos da ciência da saúde — da ciência, em última análise”, considera.

Mais vidas poderiam ter sido poupadas, o que não ocorreu porque alguns governos agiram mal. “Isso se constata facilmente quando se compara a proporção de mortos em alguns países com a proporção mundial. No Brasil, a proporção de mortos ficou bem acima da média mundial. Ou seja, das mais de 500 mil vítimas do país, 400 mil vidas poderiam ter sido poupadas se medidas adequadas tivessem sido tomadas”, afirmou. “A ciência salva vidas. Todas as vidas salvas nesta pandemia o foram graças à ciência.”

Uma “filha da ciência, a tecnologia”, também ajudou muito, apontou. “Não fosse a Internet, a devastação teria sido muito maior. É a Internet que nos permite, por exemplo, fazer essa reunião agora, assim como permitiu o teletrabalho e que muitas profissões continuassem funcionando em que pese a presença desse vírus fatal.”

Janine lembrou a grande responsabilidade de ser o primeiro presidente da área das ciências humanas na SBPC desde Aziz Ab’Saber (1993-1995), também docente da FFLCH. “As ciências humanas têm um papel muito importante, e sempre me impressiona quando vejo ataques de algumas pessoas no poder às ciências humanas. Como pode alguém pretender dirigir uma sociedade se não conhecer a ciência do social, a sociologia? Se não tiver valores éticos? Como poderíamos enfrentar essas questões todas se não tivéssemos esse conhecimento rigoroso? É esse conhecimento rigoroso que temos que defender e recolocar em posição protagonista”, defendeu.

O presidente eleito fez questão de celebrar a memória de três grandes pesquisadoras e cientistas cujo centenário de nascimento será comemorado em 2024: a engenheira agrônoma Johanna Döbereiner — nascida na antiga Tchecoslováquia e que migrou para o Brasil em 1948; a psicóloga Carolina Bori, docente da USP e presidenta da SBPC (1986-1989); e a antropóloga Berta Gleizer Ribeiro.

No segundo momento, a preocupação com o meio ambiente é central, afirmou Janine. “O meio ambiente é uma preciosidade brasileira. Temos uma biodiversidade ímpar, com espécies notáveis e extremamente importantes para a cura de doenças, mas ainda pouco estudada. Os biomas brasileiros precisam ser mais estudados e preservados”, defendeu. “Estamos perdendo riquezas da biodiversidade e riquezas culturais que têm que ser preservadas. Não vamos conseguir fazer o Brasil se desenvolver o quanto ele precisa, pode e merece sem o protagonismo cada vez maior da ciência.”

Em sua avaliação, o trabalho conjunto da comunidade científica e educacional é de preparar a construção de um país que faça valer sua prosperidade com a inclusão social. “Temos uma multidão de jovens brasileiros cujos talentos jamais são sequer identificados porque não tiveram a oportunidade para isso. Que a gente descubra mesmo nos meios mais pobres quem tem capacidade para ser médico, cientista, professor, empresário, enfim, para fazer este país crescer o quanto ele pode”, definiu.

Vahan usa crise para justificar reservas financeiras da USP

Antes de sua fala, o presidente eleito foi saudado por representantes da academia. O reitor da USP, Vahan Agopyan, se disse “aliviado em saber que vamos contar com a presença dessa nova diretoria comandada pelo Renato Janine porque são momentos que vão exigir muita sabedoria, competência e capacidade de superar desafios, alguns que nem imaginamos”.

Ao falar das crises política e sanitária que o Brasil enfrenta, Vahan citou também a cise econômica. Apesar da valorização dos preços internacionais das commodities, o que tem favorecido setores do país na atualidade, não se sabe como as coisas irão evoluir, apontou. O reitor justificou dessa forma a necessidade de fazer reservas “e não gastar os recursos que a USP tem, deixando o sucessor ou sucessora numa situação complicada” como a que disse ter encontrado a gestão de M. A. Zago (2010-2014), da qual fez parte como vice-reitor.

Vahan citou ainda como uma questão problemática a possibilidade de que os professores universitários percam a estabilidade na reforma administrativa em tramitação no Congresso Nacional. “Temos esses ataques contínuos, mas a pandemia também demonstrou que a universidade é parte da solução dos problemas, o que aumentou o respeito da sociedade em geral para com a universidade”, acredita.

O diretor da FFLCH, Paulo Martins, ressaltou a importância da SBPC, da qual seu pai, físico e aluno de Abrahão de Moraes, dizia que era preciso se orgulhar por ser o local em que se debatiam os grandes temas do país. “Parabéns, Renato, você nos representa em todos os sentidos e tenho muito orgulho de ser o diretor da faculdade no momento em que você se elege presidente da SBPC”, disse.

A professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, docente do Departamento de Sociologia da FFLCH e ex-pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária da USP, qualificou Janine como “um intelectual que alia a preocupação com a alta qualidade da sua produção à ação na esfera pública”.

Ex-reitor da Unicamp e eleito para o Conselho da SBPC, o professor Marcelo Knobel leu um texto que publicou na revista do Instituto Questão de Ciência no qual compara a realidade brasileira a uma obra de ficção ruim. “Como se não bastassem as perspectivas sombrias do aquecimento global e as iminentes catástrofes ambientais, somos assolados por uma pandemia. No Brasil, soma-se a esse contexto uma das piores crises políticas já vividas, política essa que não somente levou à morte centenas de milhares de pessoas, mas que também está aprofundando crises sociais, ambientais, econômicas, educacionais, entre outras”, aponta.

“Além disso, há um desmonte do sistema de educação superior, do sistema de ciência, tecnologia e inovação, dos direitos humanos e de práticas de sustentabilidade, levando a um retrocesso imenso tanto nessas áreas quanto na economia e nas relações internacionais”, prossegue.

“Precisamos compreender como chegamos até aqui, como uma história de desigualdades, racismo, corrupção, falsos messias e subserviência pode culminar na realidade de hoje. Se estamos sofrendo e queremos escapar desta pseudoficção o quanto antes, se quisermos ter esperança em voltar a ter uma realidade mais digna, precisamos nos engajar e ativamente exercer nossa cidadania para mudar o rumo dos acontecimentos. Urgentemente!”, conclui Knobel.