A Reitoria da USP decidiu promover, em 29/7, uma “cerimônia virtual de encerramento do primeiro semestre letivo de 2021”, transmitida pelo canal da Pró-Reitoria de Graduação (PRG) no YouTube, com a participação do reitor Vahan Agopyan, do vice-reitor Antonio Carlos Hernandes (que não chegou a se pronunciar) e do pró-reitor Edmund Chada Baracat, da PRG. O canal da PRG no YouTube tem apenas 1.360 inscrições. Em 4/8, o respectivo vídeo tinha 5 visualizações.
 
Uma apresentação do coral Comunicantus, composto por bolsistas da PRG, abriu o evento. A peça é baseada na composição “Lua, Lua, Lua, Lua” de Caetano Veloso e envolve uma animação. Nas palavras da mestra de cerimônias da Reitoria, ela foi criada no período da pandemia e “representa a verdadeira reinvenção pela qual passou a nossa graduação nesse período”.
 
Ao fazer uso da palavra no auditório do Conselho Universitário, ao qual compareceram alguns docentes e membros da administração, o próprio Vahan admitiu o ineditismo da iniciativa. “É um pouco incomum fazermos o encerramento de um semestre, mas acho que precisamos sim comemorar isso. É uma vitória no meio de uma pandemia conseguirmos viabilizar o ensino de graduação na nossa universidade”, festejou desajeitadamente. “Isso é uma vitória que foi baseada no esforço conjunto de todos os nossos alunos e de todos os nossos docentes e servidores desta universidade”.
 
O reitor reiterou o discurso que vem adotando para justificar certas medidas impositivas, como o retorno compulsório dos funcionários técnico-administrativos às atividades presenciais, apesar dos riscos sanitários: “Eu digo vitória porque como universidade nós temos a obrigação com a sociedade. Uma universidade pública tem obrigação com a sociedade. E nós não podíamos deixar de atender a sociedade que nesse momento de crise necessita de profissionais competentes, eficientes e capazes de ajudar a superar as dificuldades”.
 
Vahan afirmou ainda que em 2020, segundo os dados da PRG, “nós conseguimos praticamente formar, graduar todos os nossos alunos previstos [sic], alguns com alguns meses de atraso, mas foi possível”. E, dirigindo-se expressamente aos estudantes (“meus jovens”), disse que eles certamente se sentiriam “muito frustrados” se não fosse possível concluir os cursos. “Não podemos jamais deixar vocês desassistidos, desatendidos naquilo que vocês mais almejam”, declarou em tom que pareceu demagógico, frente às inúmeras denúncias de falhas graves na permanência estudantil e especialmente no Conjunto Residencial (Crusp).
 
Primeiro a falar, o pró-reitor Baracat emprestou um certo nonsense temporal ao evento, porque, após anunciar que gostaria “de falar um pouco sobre a realidade”, declarou: “Em março de 2020, 17 de março, fomos surpreendidos pela terrível pandemia da Covid-19”. Ocorre que em 30 de janeiro a OMS já reportava milhares de casos da doença na China e 82 casos em 18 outros países, e declarou o surto como Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Em fevereiro a Organização Panamericana de Saúde (OPAS) já realizava treinamentos no Brasil para diagnóstico de Covid-19.
 
A data a que Baracat se refere é a do primeiro óbito oficialmente reconhecido como provocado pelo Sars-Cov-2 no país, quando já não se podia falar em “surpresa”, e foi também a data da suspensão das aulas. A OMS assumiu a existência da pandemia no dia 11 de março e o governo estadual fez o mesmo no dia 13 de março, o que obrigou a Reitoria a se manifestar. Mas os funcionário(a)s não foram liberado(a)s.
 
Porém, continuou o pró-reitor, naquele momento “a Reitoria anunciou ações de segurança para garantir a continuidade de trabalhos essenciais e de pesquisa”, além de determinar a continuidade remota das atividades acadêmicas dos cerca de 60 mil alunos matriculados nos cursos de graduação da USP. “Em reunião com diretores das unidades de ensino e pesquisa, naquela ocasião, o Magnífico Reitor comunicou à época [sic] que ‘a USP não vai parar’. As aulas foram então mantidas em formato online, utilizando tecnologias de informação e comunicação, ou seja: criando ambientes virtuais de aprendizagem”.
 
O evento, que durou menos de meia hora, parece encaixar-se nos planos de sucessão da gestão Vahan-Hernandes. Embora não tenha sido chamado a falar, o vice-reitor foi citado elogiosamente por Baracat. Por outro lado, o reitor mal conseguiu disfarçar o viés “marqueteiro” da empreitada. E, ao encerrar sua fala, classificou a pandemia como “obstáculo sanitário”.
 
A professora Michele Schultz Ramos, presidenta da Adusp, questiona o triunfalismo vocalizado pelo reitor e por seu auxiliar. “A Reitoria insiste em dizer que o ensino remoto emergencial foi um sucesso, negando-se a reconhecer o conjunto de dificuldades que muitas pessoas enfrentaram. Claramente houve prejuízos na formação de estudantes: aulas práticas e visitas de campo não puderam ser realizadas, projetos de pesquisa tiveram de ser adaptados, pessoas morreram e adoeceram, das quais muitas permanecem com sequelas. Não sabemos quantos estudantes trancaram suas matrículas ou abandonaram seus cursos”, pondera. “A Reitoria adota discurso negacionista quando ignora os efeitos graves de uma pandemia. E, de novo, aparece com ‘USP não para’, mote muito mal recebido pelo conjunto de pessoas da nossa universidade”.
 
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