Pedido para incluir na pauta do Co a questão do retorno às atividades presenciais foi assinado por 30 conselheiras e conselheiros: diretore(a)s e representantes das congregações da FE, FSP, FFLCH, IP, IAU e FAU, representante dos Professores Associados, representações discentes da Graduação e da Pós-Graduação, representação dos ex-alunos e representação do funcionalismo técnico-administrativo

A reunião desta terça-feira (24/8) do Conselho Universitário (Co) havia sido convenientemente planejada para fugir de discussões incômodas à Reitoria. Tinha apenas três pontos de pauta, o que é inusual, sendo o mais sensível politicamente a proposta da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) de concessão do título de Professor Emérito ao ex-reitor Jacques Marcovitch. Apesar de haver baixado à inteira revelia do Co duas portarias sobre o retorno às atividades presenciais, o reitor Vahan Agopyan não se preocupou em alterar a pauta para incluir essa questão crucial entre os assuntos a serem apreciados.

Contudo, os planos da gestão Vahan Agopyan-Antonio Carlos Hernandes chocaram-se com a realidade. Na véspera da reunião, o reitor recebeu um curto documento assinado por trinta membros do Co — entre os quais diretores, diretoras e representantes das congregações de seis unidades de ensino, a representação do funcionalismo técnico-administrativo e quase toda a representação discente da graduação e da pós-graduação — no qual se pedia a inclusão na pauta da reunião de “um ponto de discussão acerca do Retorno Presencial e das Portarias 7.670 e 7.671 editadas pela Reitoria”. A razão apontada para tal providência: “Consideramos que um tema de tamanha relevância para toda a comunidade universitária necessita de um debate amplo, a começar pelo principal colegiado da Universidade”.

O pedido enviado ao reitor explicava ainda que, como as portarias citadas foram publicadas a partir de 13/8, não foi possível encaminhar a solicitação de inclusão na pauta dentro do prazo mínimo previsto no regimento do Co. “Nesse sentido, apelamos para o bom senso e para a sensibilidade do Magnífico Reitor para atender essa solicitação”, dizia o documento, já que como presidente do Co cabe-lhe aprovar ou não inclusões na pauta.

Os docentes signatários eram Marcos Neira, diretor da Faculdade de Educação (FE), Carmen Simone Diniz, vice-diretora em exercício da Faculdade de Saúde Pública (FSP), Paulo Martins, diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Ana Loffredo, diretora do Instituto de Psicologia (IP) e Joubert Lancha Jr., diretor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos (IAU-SC), quatro representantes de congregações — Marly Augusto Cardoso (FSP), Adrián Pablo Fanjul (FFLCH), Ianni Regia Scarcelli (IP), Raquel Rolnik, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) — e o representante dos Professores Associados, Marcílio Alves.

Assim, restou a Vahan considerar a solicitação e abrir discussão sobre o tema, ainda que sem incluir formalmente o assunto na pauta. E, por cerca de uma hora e meia, o reitor não apenas ouviu críticas substanciais às suas draconianas e ilegais portarias, como teve de aceitar, confusamente, a ideia de que as direções de unidades precisam de autonomia para decidir como se dará o respectivo retorno. Alguns poucos conselheiros perfilaram-se com a Reitoria, em especial o presidente da “Comissão Assessora”, diretor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e presumível mentor das portarias, Rui Alberto Ferriani.

A proposta de concessão do título de Professor Emérito a Marcovitch foi retirada de pauta pelo próprio reitor, que informou ao Co, no início da reunião, ter sido advertido pela Procuradoria Geral (PG-USP) de que, por tratar-se do último semestre de uma gestão reitoral, portanto em período de sucessão, as regras da própria universidade proíbem a realização de homenagens a docentes.

Em seguida, Vahan referiu-se à solicitação para inclusão do retorno às atividades presenciais, mas sem ler o documento nem a relação de subscritora(e)s, procurando trivializar a questão: “Depois da ordem do dia temos várias comunicações importantes, inclusive teve um pedido encabeçado pelos estudantes para a gente falar um pouquinho sobre o retorno. Eu já tinha solicitado ao professor Rui [Ferriani] que preparasse uma apresentação, então ele vai fazer essa apresentação no final”.

Portarias são “base inicial para discutir o retorno presencial”, diz reitor

Ao abrir a discussão sobre o retorno, sem sequer discorrer previamente sobre as portarias que editou, o reitor preconizou a importância de evitar “ruídos desnecessários”, exemplificando: “Quando um diretor fala “Não, está indo bem a educação a distância, a gente continua’, meus amigos, isso é o motivo para enfraquecer a universidade. A Pró-Reitoria de Graduação está se dedicando a isso, nós vamos utilizar as ferramentas existentes, mas nós queremos, como universidade de pesquisa, que os nossos alunos discutam com os professores, que debatam com os professores”, bradou. “Uma disciplina básica do campus da capital, que é oferecida a todas as unidades, pode ter vinte, trinta docentes. Se nós assumirmos que EaD é bom, é suficiente, bastam um docente e mais dez monitores. E não é isso que nós queremos, meus amigos. Nós queremos sim que os nossos alunos conversem, debatam, discutam com os docentes, e não simplesmente recebam informação”.

Somente após essa prédica inaugural é que Vahan falou das medidas concretas que vem tomando. “Então é muito importante a gente conversar e afinar a nossa compreensão. Foi instalada uma Comissão Assessora, porque agora é atividade administrativa, não é somente um GT, agora vamos ter que ter [sic] decisões para retorno”. Após agradecer aos componentes do extinto GT PRAA e do grupo científico para Covid-19 (que continua em atividade), finalmente mencionou as portarias GR 7.670 e 7.671.

Ele justificou a segunda portaria alegando haver “necessidades complementares” que foram identificadas após a publicação da primeira. E definiu a ambas de modo muito peculiar: “Deixando bem claro que foram demandas que vieram de dirigentes, de alunos, é lógico, nossa universidade é muito eclética, muito diversificada, nós temos hoje alunos que ainda não completaram a vacinação mas que estão se formando e precisam fazer clínicas, nós temos hoje certas unidades que necessitam de certos profissionais específicos, então... essas portarias foram a base inicial para a gente discutir o retorno presencial à nossa universidade” (destaques nossos).

Voltou a acenar com a questão da legitimação pública da universidade, para não dar “munição” aos que pretendem atacar a USP: “Hoje, dia 24 de agosto, meu maior problema foi a conclusão de um parecer com apoio do jurídico das três universidades para que a Assembleia Legislativa entenda que não precisa tirar a nossa autonomia para nos fiscalizar. Já temos o Tribunal de Contas que nos acompanha”, disse. “Quinta-feira eu estarei conversando isso com o presidente da assembleia, pessoalmente”.

Ao intervir, o presidente da Comissão Assessora, Rui Ferriani, defendeu o teor das portarias. “Temos certeza [de] que a pandemia não acabou e não sabemos ainda o que vem pela frente, mas seguimos os princípios da portaria reitoral consolidada 7.670, que estabelece portanto o retorno de atividades, tendo como princípios a necessidade de retorno mas com um foco muito grande na segurança, conforme tem sido a política adotada pela Reitoria desde o início da pandemia. O desafio foi conciliar o princípio geral da portaria, obviamente prioritária, com a autonomia dos dirigentes que estão diretamente envolvidos em suas particularidades, com abertura para atender as condições locais mínimas de segurança”.

Ele disse também que a Comissão Assessora ouviu Adusp, Sintusp, DCE e associações de pós-graduandos, “e deixamos abertos os canais de diálogos a eles, por meio das pró-reitorias, Copert e o próprio Gabinete da Reitoria, a fim de ouvir as demandas”.

“Continua arriscada a decisão da volta das atividades presenciais”, declara Congregação do IP

A professora Patricia Izar, representante da Congregação do IP, abriu uma série de falas contrárias às portarias de Vahan, lendo manifestação daquele colegiado contra o retorno. “Estamos num contexto muito delicado e preocupante, no âmbito da pandemia. Publicações do Observatório Covid 19 BR, da Plataforma Info Tracker, dentre outras instituições de pesquisa em diversas áreas do conhecimento, e o recente manifesto público da Sociedade Brasileira de Infectologia alertam para projeções de aumento de casos de Covid-19, em função do relaxamento das medidas de isolamento e distanciamento social”, diz  o documento. “Ademais, é necessário atenção com os riscos advindos da circulação da variante Delta, que possui maior grau de transmissibilidade e atinge crianças e idosos, além de pessoas já imunizadas com as vacinas que estão disponíveis até o momento. A Delta não só é mais transmissível do que as variantes anteriores do Sars-CoV-2, como também pode causar formas mais graves da doença”.

A Congregação do IP assinala que, segundo o Observatório Covid-19 Fiocruz, “até que haja pelo menos 80% da população totalmente vacinada, é necessário manter as medidas não farmacológicas, como o uso de máscaras, a higienização das mãos e as medidas de distanciamento físico e social”, que atualmente menos de 25% da população encontram-se vacinados com todas as doses, e que “as realidades enfrentadas por países com maior cobertura vacinal que o Brasil apontam para um aumento de casos com essa variante [Delta], obrigando-os a rever as medidas de relaxamento, realizadas prematuramente”.

Ainda conforme o documento, “pouco foi discutido sobre medidas que precisam ser tomadas, no sentido da diminuição do risco de contaminação do vírus”, tais como a distribuição de proteção individual e coletiva para os que circulam na USP, a testagem dos funcionários e estudantes, ou “a orientação sobre o que fazer quando muitos trabalhadores/as dividem salas pequenas e mal ventiladas”, concluindo que “as portarias que definem o retorno presencial às atividades ocorreram de maneira precipitada”, e podem “expor trabalhadoras, trabalhadores e estudantes da Universidade de São Paulo” ao risco de infectar-se com a Covid-19. “Ainda que as Diretrizes aos Dirigentes das Unidades, encaminhada em 20 de agosto de 2021 pela Comissão Assessora, tenham trazido alguma luz, entendemos que continua arriscada a decisão da volta das atividades presenciais em nossa Universidade”.

Falando em seguida, a diretora do IP, professora Ana Maria Loffredo, reforçou o teor da pronunciamento da Congregação, informou haver emitido uma portaria na véspera, criando uma comissão assessora encarregada de planejar o retorno em dez dias úteis, e questionou se o regime de ponto eletrônico do(a)s funcionário(a)s permaneceria como antes da Portaria 7.670/2021.

Marcos Neira, diretor da FE, dirigiu-se ao presidente da Comissão Assessora: “Na sua apresentação o Sr. utilizou os termos diversidade e sobretudo respeito ao princípio da autonomia das unidades que já era mencionado nas duas portarias que foram encaminhadas pela Reitoria. Gostaríamos de dizer que nos pareceu que as diretrizes encaminhadas no dia 20 contradizem a questão da autonomia. São bastante imperativas, determinando uma série de procedimentos, muitos deles, no meu entender, de difícil execução em unidades com dimensões das salas bastante reduzidas, sem espaço para alimentação dos funcionários e dos professores e professoras, quanto mais os estudantes, e pelas próprias dimensões que a unidade tem: tamanho de salas de aula, quantidade de alunos matriculados e as demais características. Então, indo direto ao ponto, a questão é o grau de autonomia que cada unidade pode dispor para reorganizar esse trabalho com mais tempo, mais tranquilidade e maior planejamento”.

A diretora da Escola Politécnica, Liedi Légi Bariani Bernucci, informou que a unidade instituiu um GT para tratar do retorno, composto por docentes, estudantes e funcionário(a)s. “No dia 19 tivemos um intenso debate na Congregação, que fez uma manifestação de solicitar 15 dias para que a escola pudesse se organizar. Por quê? Porque a escola tem suas especificidades, tem diferentes prédios, entre prédios e anexos são 24, ora muito grandes, ora pequenos, alguns em funcionamento já com laboratórios de pesquisa. Ressalto que os laboratórios estão abertos e funcionando com protocolo sanitário bastante rigoroso há cerca de um ano”, relatou ela.

“Temos 800 docentes e funcionários e dificuldade de fazer um retorno imediato. Portanto, estamos estendendo esse GT e incluindo os 15 chefes de departamento, para poder estudar os ambientes, limpar as salas, escalonar os trabalhos, os horários, compatibilizar horários remotos com presenciais, e a gente precisa desse tempo adicional”, prosseguiu. “Essa é a nossa manifestação e o grupo terá uma segunda etapa para poder programar as atividades práticas, porque nós temos muitos laboratórios práticos na Escola Politécnica. Isso vai dar bastante trabalho e a gente conta com a participação dos alunos para poder entender os nossos limites e o que podemos fazer dentro da grande segurança sanitária que hoje é necessária”.

O professor Manfredo Tabacniks, representante da Congregação e ex-diretor do Instituto de Física (IF), submeteu duas “dúvidas” a Ferriani, a primeira de natureza estrutural. “Temos um prédio inteirinho que não tem ventilação. É um prédio com ar condicionado obsoleto, antigo, da década de setenta, não tenho como adaptá-lo às atuais condições sanitárias, e é um prédio de escritórios, laboratórios, completamente vedado ao ar externo. A discussão que estamos tendo no instituto é eventualmente até mudar as pessoas de prédio, porque aquele não pode ser usado dentro das limitações sanitárias sugeridas no seu comunicado”.

Tabacniks também questionou o item 3.2 das Diretrizes, segundo a qual caberá a cada repartição de unidade “exigir e manter o controle” do cronograma de vacinação de seus e suas docentes (bem como “servidores técnico-administrativos e alunos”). “Eu temo que nós estejamos criando um precedente muito perigoso na universidade, de preparar listas de docentes ou de funcionários que não contemplem alguma exigência sanitária da Reitoria”, disse o docente do IF.

Outras unidades relataram a existência de reformas nos prédios e outros problemas de estrutura física. O diretor do Instituto de Matemática e Estatística (IME), Júnior Barrera, que falou na sequência de Tabacniks, informou que a conduta “criminosa” da empresa que tocava uma obra na unidade resultou em danos num prédio que exigirão pelo menos três meses para serem corrigidos. E advertiu que o uso estrito do ponto eletrônico tal como preconizado pelas Diretrizes pode gerar aglomeração e consequentemente riscos sanitários para os trabalhadores do IME.

A diretora da Escola de Comunicações e Artes (ECA), Brasilina Passsarelli, explicou que a unidade passa por ampla reforma, justamente para readequar as instalações às exigências sanitárias. “Em vários espaços estamos derrubando paredes, reformando pisos, então o andar inteiro fica comprometido com o trânsito dos funcionários da empresa [contratada]. Nossa reforma maior termina dentro de 120 dias, vai dar exatamente fevereiro, e as menores de novembro a dezembro”, disse. “Então me alinho aqui a todos os colegas que me precederam, para que a gente possa ser contemplado com esse plano de flexibilização. Nós criamos um GT que vai dar continuidade ao retorno programado e escalonado, com uma proposta que deve ser aprovada num CTA extraordinário dentro de quinze dias”.

“Todas e todos temos dado exemplos suficientes de responsabilidade”, destacou representante da FFLCH

Na sua intervenção, o professor Adrián Fanjul principiou lembrando que o pedido de inclusão da questão do retorno na pauta do Co foi subscrito por vários docentes, ele próprio inclusive, além de estudantes: “Saúdo que possamos estar conversando sobre isso”. A Congregação da FFLCH, informou ele, tratou do assunto e decidiu que na unidade as aulas permanecerão preferencialmente remotas até o final do semestre, assim como o retorno de setores administrativos e da Biblioteca tem de ocorrer de modo gradual, conforme planejamento.

“Quero comentar também alguns indicadores. A Fiocruz acaba de publicar uma atualização do seu documento com recomendações para retorno às atividades escolares presenciais, e há alguns indicadores que ainda não alcançamos em São Paulo — espero que alcancemos o mais breve possível. Por exemplo: a redução da transmissão comunitária, que indica-se que seja menos de 10 casos novos por dia por 100 mil habitantes, o que daria para o Estado de São Paulo uma média diária de 4.404 casos novos, quando na última semana conforme dados do Conass tivemos 7.263 casos novos por dia”.

Outro indicador não alcançado, prosseguiu o docente, é a taxa de contágio. “O valor recomendado é menor que 1, o ideal é 0,50 por um período de sete dias, segundo dados do Imperial College ela se encontrou em 0,90 durante oito semanas, mas subiu na última semana para 0,98 e hoje foi atualizada para 0,99, quer dizer: não está precisamente na faixa recomendada”.

O representante da Congregação da FFCLH apontou ainda as questões da necessidade de ventilação adequada dos ambientes e da duração da imunidade conferida pelas vacinas. “Um estudo recente de Oxford, publicado na semana passada, mostra uma queda na proteção de vacinados com a segunda dose depois de 60 dias, e maior ainda depois de 90 dias”, relatou. “Vários dos funcionários que seriam obrigados a voltar para não ter falta ou desconto já tem 90 dias da segunda dose. No departamento que eu chefio, por exemplo, tem dois casos de funcionários que são um pilar para o departamento, e um deles chegou a manifestar que pediria licença-prêmio para não ter que voltar”.

Tudo seria menos conflituoso, destacou, se o tratamento dado à relação de trabalho fosse outro. “Ao ver as Diretrizes me preocupou muito o problema do IF-Ponto, eu solicito que não se elimine a justificativa de teletrabalho, que nós chefes e os diretores saberemos aplicar conforme o que resulte do planejamento consciente e coletivo. Todas e todos nesta universidade temos dado exemplo suficiente de responsabilidade administrativa, para que haja plena confiança na nossa disposição ao trabalho, já que vimos trabalhando em dobro”.

Adrián encerrou observando que existe “muito saber produzido na universidade em torno das condições de retorno presencial” e registrou haver críticas à decisão do governador de dissolver o centro estadual de contingência, como a que partiu do professor Marcos Boulos, da Faculdade de Medicina (FM), segundo reportagem do portal UOL. Mencionou o protocolo TRIS elaborado por uma equipe conjunta da FMRP e da FFCLRP e que serve de referência a outras instituições públicas. “Penso que esse tipo de saber tem que ser mobilizado e que nós nas unidades possamos nos mover com base nas indicações que venham daqueles que têm estudado mais em detalhe a problemática. Me somo ao desejo dos colegas de que exista essa flexibilização e que as decisões que as unidades vão tomar possam ser tomadas com tranquilidade”.

“Posição contrária à volta é erro de avaliação”, diz diretor da FEARP

André Lucirton Costa, diretor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEARP) e ex-membro do GT PRAA, defendeu o retorno tal como determinado pela Reitoria, alegando que a volta presencial só será permitida para quem estiver vacinado. “Vamos estar convivendo com as pessoas que tiverem essa condição. Isso representa que dentro da universidade, na sala de aula, vamos ter 100% de vacinados. É uma condição bastante boa. Infectologistas que foram consultados pela USP e vários outros grupos mostram que a condição é suficiente para garantir a segurança da comunidade”. Apesar disso, ele disse que vai propor à sua Congregação a volta não obrigatória para os estudantes de graduação.

“Os estudantes da minha unidade têm uma posição contrária à volta, e eu disse a eles que isso é um erro de avaliação. Os estudantes por falta de orientação estão cometendo um erro de avaliação. Temos alunos do primeiro e segundo ano que não conhecem a unidade”, lamentou. Citou o educador Vigotsky para reivindicar que a FEARP não é uma unidade conteudista e que o ensino superior requer aulas presenciais. “Somos uma instituição de hegemonia social”, disse referindo-se à USP, “e precisamos traçar esses rumos e que os alunos tenham participação mais ativa, porque esse universo eletrônico a gente não dá conta”. “A gente precisa voltar, a universidade tem um papel importante na defesa da democracia, dos direitos”.

Em nova intervenção, Ferriani usou o exemplo das unidades de saúde para defender a volta ao trabalho e às atividades presenciais de toda a universidade. Afirmou que na FMRP “temos hoje 65% das pessoas trabalhando” e traçou um paralelo entre o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HCFMRP), “com 6 mil funcionários trabalhando”, enquanto funcionários da USP, ao lado dele, permanecem em teletrabalho. Tal situação, sustentou, gera um “sentimento de injustiça social muito grande”. A seu ver, “o pessoal administrativo teve mais contaminação fora do ambiente hospitalar”. Em mais uma declaração ambígua, tentou juntar todas as pontas: “O retorno seguro envolve riscos, não tem dúvidas, mas ele precisa acontecer, as medidas de segurança são eficazes, principalmente o uso de máscaras adequadas. A decisão reitoral foi clara: o retorno obrigatório”.  

Ele insistiu na primazia do ponto eletrônico: “Acabam-se sim as justificativas de teletrabalho”, reforçou, e ainda lançou uma advertência aos diretores: “A autonomia refere-se às condições de segurança, e não achar que metade pode trabalhar e metade não pode. Temos o grupo imunizado e o grupo imunizado volta. Aí vamos estudar as situações particulares”. Reconheceu que a questão do controle da situação vacinal não está bem resolvida: “O documento vacina é realmente complexo”, e informou que aguarda “pareceres legais” a respeito de como encaminhar.

Depois, Ferriani prestou aos membros do Co uma declaração que é uma verdadeira confissão das ilegalidades que vem sendo cometidas na universidade em nome do retorno a qualquer custo ao trabalho presencial. Segundo o presidente da Comissão Assessora e diretor da FMRP, a Portaria 7.671 “foi necessária porque já existem pessoas excepcionalmente trabalhando que não têm o ciclo de vacina completo, então isso se tornaria ilegal” (em vista da Portaria 7.670). Para suprimir-se uma ilegalidade não se suspende a ação ilegal, mas cria-se uma portaria que a legaliza “por decreto”.

Por fim, ele disse que retiraria as Diretrizes. O que de fato ocorreu posteriormente à reunião.

“Quantas vidas custará a volta? Mais de 570 mil pessoas morreram”

Letícia Chagas, estudante da Faculdade de Direito (FD), fez a primeira de diversas manifestações contundentes de representantes discentes (RD) na reunião do Co: “Ninguém é contra o retorno presencial. Todos nós sentimos muita falta do ensino presencial. Todavia, não é possível fazer retorno presencial nesse momento”, disse. Ela rebateu as insinuações do reitor sobre desinformação: “Não é culpa da comunidade que as informações sejam imprecisas”, enfatizou, lembrando as responsabilidades da Reitoria, “por conta das duas portarias expedidas que são sim extremamente confusas”. Não houve debate algum sobre as medidas, enfatizou: “Essa decisão deveria ter sido discutida aqui, de forma democrática”.

Outra diretora do DCE e RD, Larissa Proença (ECA), que igualmente informou haver conquistado sua vaga por ações afirmativas, chamou atenção para os riscos de contágio oferecidos pelo transporte público. “Não há como falarmos em democracia a custo da vida, né? Principalmente a vida dos mais vulneráveis, que são os estudantes pretos, os estudantes pobres. Não há como termos 50% de cotistas entrando na universidade e não darmos condições para que eles permaneçam com a mínima segurança possível”, frisou. Como é possível falar em democracia, indagou, se a questão do retorno às aulas foi conduzida de forma pouco democrática e sem diálogo com o corpo discente?

Segundanista, Larissa também criticou o argumento de que os alunos dos anos iniciais precisam conhecer o ambiente acadêmico e por essa razão devem comparecer a atividades presenciais: “Como entrei no início de 2020, também não tenho noção de como é esse ambiente territorial. Eu gostaria muito de voltar ao presencial. Mas eu tenho responsabilidade não apenas com a minha vida e da minha família, mas a de todos os envolvidos. Quantas vidas custará a volta? Mais de 570 mil pessoas morreram, essas vidas não importam?”

“Todos queremos voltar, queremos estar presencialmente, porque sabemos que o ensino remoto emergencial é muito prejudicial aos estudantes, afeta nosso aprendizado, é excludente de diversas maneiras, isso tem sido colocado inclusive aqui nesse espaço desde o ano passado”, destacou Letícia Oliveira, RD e diretora do Centro Acadêmico XI de Agosto (FD). “As críticas que venho trazer é à maneira como está colocado nas portarias. O momento que a gente vive ainda é muito preocupante, não só para a comunidade universitária mas para a população do Brasil como um todo. Falar em retorno nesse momento traz um risco tanto para a USP como um todo quanto para a cidade de São Paulo”. Para ela, é muito preocupante a falta de critérios e de transparência quanto aos protocolos adotados no tocante aos funcionalismo, como a questão da vacina. “Venho pedir que a gente repense, para que a Reitoria possa tomar uma decisão democrática de fato, levando em consideração as vidas de toda a comunidade da USP”.

Ana Loffredo, diretora do IP, refutou alguns dos argumentos utilizados pelo reitor e por outros defensores do retorno imediato. “Não se trata de defender transmissão de conhecimento online, ainda mais a gente que é do Instituto de Psicologia. Faço parte de um programa que se chama Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, a gente é frontalmente contra transmissão online, mas está se adaptando às circunstâncias. Isso é perfeitamente defensável no plano externo à universidade, perante a mídia e perante a comunidade”.

A preparação para o retorno seguro envolverá “um trabalho enorme”, destacou a professora. “Não só no plano das vacinações, nos nossos espaços, a gente está com a biblioteca em reforma, um bloco de aulas em reforma, quer dizer: é um conjunto de variáveis que nos impedem de responder de uma maneira reflexa a portaria da Reitoria”, esclareceu. “Tudo isso que estou falando converge para um ponto que já foi colocado pelo professor Marcos Neira: que a gente retome um princípio para o qual a gente batalhou no ano passado, e fomos atendidos, que os dirigentes possam ter autonomia para suas decisões neste momento, porque cada unidade é muito peculiar”.

No IP “nós estamos funcionando muitíssimo bem online”, sustentou a diretora, apresentando alguns exemplos. “A gente já atendeu mais de 1.500 pessoas online no nosso Centro-Escola. Laboratórios, milhares de projetos que foram criados a partir da pandemia. A gente está trabalhando muito. A gente gostaria de continuar e ter liberdade para continuar trabalhando online, porque fica com muito mais segurança do ponto de vista da saúde”.

Ela apresentou um encaminhamento: “Que os dirigentes possam ter autonomia para essa questão do retorno gradual, porque a gente não está retomando atividades, nós nunca paramos de trabalhar. Então não é retomada. É apenas adaptar gradualmente cada unidade às suas peculiaridades, para que a gente possa ouvir tudo que está sendo dito aqui. Que esse Co seja um Co de diálogo, como a gente sempre batalhou. Que as portarias da Reitoria e também as Diretrizes sejam uma perspectiva, um horizonte que nos dê uma orientação, e que cada unidade possa operacionalizar de acordo com as suas peculiaridades. Para nós por exemplo, no Instituto de Psicologia, está fora de questão voltar para o presencial neste semestre. É uma loucura, em termos do tamanho das nossas salas, do número de alunos. E porque não é necessário: as atividades de estágio e prática vão ser examinadas uma por uma”.

Reinaldo Santos de Souza, representante dos funcionários e diretor do Sindicato dos Trabalhadores (Sintusp), abriu sua intervenção homenageando André Orlandin, conhecido como “Raposão”, diretor regional do Sintusp em Ribeirão Preto, falecido em 11/8 vítima da Covid-19. Orlandin foi membro do Co. “Não se trata de um problema de querer ou não retornar”, pontuou Souza. “As condições em que se deu o teletrabalho e o ensino remoto não foram as ideais. USP não parou pelo esforço de funcionários. Muitos funcionários trabalharam muito, às vezes até mais, de forma remota”.

A seu ver, a Reitoria segue a política do governo João Doria (PSDB) “de acabar com a pandemia por decreto, no momento em que não temos as condições ideais para o retorno”. Vacina, ressaltou, não pode ser encarada como um passaporte individual. “É precipitada uma determinação de retorno nesse momento. O próprio professor Rui [Ferriani] colocou aqui que precisaria de tempo para avaliar. Nem mesmo máscaras PFF2 foram garantidas para todo mundo. Não é possível retornar nessas condições”, protestou Souza. “O método foi totalmente autoritário, decisão unilateral da Reitoria. Não fomos recebidos em nenhum momento. A Comissão Assessora nos recebeu, mas não podia discutir o mérito”, denunciou. “É fundamental rever essas medidas”.

“A gente quer voltar com segurança e principalmente de forma organizada, com prazo maior. O  anúncio de retorno criou um monte de problemas práticos para os estudantes, principalmente os mais vulneráveis”, disse Ana Paula Bastos, RD da graduação e diretora do DCE. “O chamado de retorno veio alguns dias depois da matrícula dos alunos. Os estudantes se planejam para o semestre online e logo em seguida são surpreendidos com uma data de retorno presencial dali a algumas semanas”, protestou a estudante da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA), acusando a Reitoria de descaso. Para ela, “a falta de diálogo e a confusão com que isso está sendo conduzido é que não estão à altura da nossa universidade”.

“Temos 10 mil alunos, 300 funcionários, 400 professores”, diz diretor da FFLCH

Paulo Martins, diretor da FFLCH, disse que a unidade quer voltar. “Essa é a nossa intenção, é a intenção da maioria. Porém, assim como a Liedi [diretora da Poli], nós temos um gigante nas mãos. A gente tem uma universidade dentro da outra. Temos 10 mil alunos circulando dentro da nossa unidade, em três prédios didáticos. Temos 300 funcionários, 400 professores. Se nós não pudermos ter minimamente autonomia para gerir essa especificidade que é a nossa faculdade, então realmente fica muito complicado”, ponderou.

“Entendemos que é necessário planejar o retorno. Mas planejar o retorno a partir das nossas realidades, no dia a dia, naquilo que é específico e não geral, sem desautorizar a portaria do reitor. Entretanto, a gente pede, encarecidamente, que sejamos ouvidos do ponto de vista dessa flexibilização, com respeito à autonomia das unidades, para que elas possam sim voltar com segurança, com responsabilidade, que foi o início de uma fala do professor Vahan lá na reunião de diretores”.

Martins acrescentou que não se quer  “atrapalhar a resolução” do problema, mas resolvê-lo de forma adequada. “Prudência, uma ação conservadora nesse sentido de conservar a vida, e que nós pudéssemos ter a liberdade, como dirigentes dessa universidade, de junto com a nossa comunidade acadêmica resolver esse problema”, afirmou. “Então eu peço encarecidamente que o poder discricionário dos diretores, que havia mais claramente na portaria, e que de certa forma ficou mais esvaziado na recomendação [Diretrizes], nós preferimos na faculdade atender à portaria e não à recomendação”.

Ao final das intervenções, Vahan fez comentários soltos, descontextualizados, deixando transparecer um certo nervosismo. “Deixei essa discussão andar bastante, avançar bastante, porque é bom verificar, sentir um pouquinho o clima. Foi importante sentir um pouquinho essa temperatura. Pessoalmente fiquei muito feliz porque houve uma unanimidade no aumento das atividades presenciais nos nossos campi”, disse, tergiversando. Deu a entender que o texto das portarias contempla as questões levantadas na reunião, distorcendo o conteúdo da maioria das manifestações. Para arrematar, relativizou a autonomia das unidades. “Os diretores sempre tiveram autonomia. Mas temos que tomar muito cuidado. Uma coisa é [postergar o retorno] 15, 20 dias, outra são seis meses. Há autonomia dos dirigentes, mas seguindo diretrizes estabelecidas”, concluiu, reiterando o teor autoritário das portarias.

 

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