O cirurgião José Pinhata Otoch é o novo superintendente do Hospital Universitário (HU) da USP. A designação consta em portaria emitida pelo reitor Carlos Gilberto Carlotti Junior nesta terça-feira (8/2) e publicada no Diário Oficial do Estado no dia seguinte.

Maria Leonor de Calasans/IEA

José Pinhata Otoch, novo superintendente do HU

Pinhata substitui o médico Paulo Ramos Margarido, cujo período à frente do HU foi marcado por negligência no trato com os efeitos da pandemia da Covid-19, desconsideração para com as reivindicações de servidora(e)s e da comunidade e alinhamento à postura de sucateamento do hospital implantada nas gestões reitorais de M.A. Zago e V. Agopyan.

“Essa nomeação é um passo bastante importante porque o dr. Pinhata tem uma visão muito mais aberta a respeito do hospital e das mudanças necessárias”, considera Lester Amaral Junior, integrante da coordenação do Coletivo Butantã na Luta (CBL), movimento popular que nos últimos anos vem travando batalhas ininterruptas pela recuperação do HU, e membro do Conselho Deliberativo.

“Ele foi um crítico forte da desestruturação do hospital, da tentativa de desvinculação da USP e do esvaziamento provocado com as centenas de saídas nos planos de incentivo à demissão voluntária [PIDV]”, prossegue.

Pinhata dirigiu a Divisão de Cirurgia Geral do HU e é docente do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina (FMUSP). Atua também como cirurgião no Hospital Regional do Baixo Amazonas, em Santarém (PA).

O médico foi o primeiro indicado na lista tríplice elaborada pelo Conselho Deliberativo (CD-HU) do hospital no dia 3/2, obtendo sete votos entre a(o)s nove conselheira(o)s presentes. Na votação para segundo nome da lista, a professora Primavera Borelli, docente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF), teve cinco votos contra três dados à professora Margareth Angelo, indicada por consenso em terceiro lugar.

Ex-diretora da FCF, Primavera chefiou o Departamento de Farmácia e Laboratório Clínico do HU e foi abusivamente desligada em fevereiro do ano passado por Paulo Margarido. É coordenadora do Grupo de Trabalho (GT-HU), criado no âmbito do CD-HU para discutir projetos e mudanças no hospital, do qual a Adusp faz parte. Margareth Angelo é docente da Escola de Enfermagem (EE) e chefia o Departamento de Enfermagem do HU.

Reestruturação do hospital e seu papel como referência na rede são desafios da gestão

Entre os desafios da nova gestão apontados por Amaral Junior estão a realização de concurso público para a contratação de profissionais efetiva(o)s e a discussão sobre o papel do HU no sistema de referenciamento e contrarreferenciamento da rede de saúde do Estado e do município.

No dia 20/1, o CD-HU aprovou a proposta, encaminhada à nova gestão da USP, para a contratação, por concurso público, de 509 profissionais para dar início ao processo de reestruturação e recuperação plena do hospital. Esse é o número considerado necessário para que o HU volte a ter 206 leitos ativos — na atualidade, são 153.

Uma segunda etapa seria realizada no ano que vem, com mais contratações para que o hospital consiga atender a 236 leitos.

O integrante do CBL ressalta a importância de abrir o concurso para as 509 vagas o mais rapidamente possível, ainda nem todas as pessoas aprovadas sejam chamadas neste ano. Na sua avaliação, essa postura reconheceria a posição do CD-HU quanto à necessidade de pessoal para dar início efetivo à recuperação.

A rapidez se justifica também pelas restrições impostas para contratações no serviço público a partir de 3/7, por conta da legislação eleitoral.

Em visita ao HU dias antes de tomar posse como reitor, Carlotti prometeu que haverá contratações “para fazer uma recuperação razoável do HU”, além de investimentos na melhora do Pronto-Socorro Adulto (PSA), da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), do centro cirúrgico e dos equipamentos do hospital. Ressalvou que isso não significa “colocar em funcionamento 100% dos leitos rapidamente”. “Não estou me comprometendo com números. Preciso primeiro conhecer os dados reais”, afirmou em reunião em formato remoto com mais de 30 representantes da comunidade do Butantã.

Amaral Junior defende que a reestruturação do HU resulte em fortalecimento da atenção primária para a região do Butantã. “O hospital é hoje um grande pronto-socorro das insuficiências de atendimento das redes municipal e estadual. Há, por exemplo, pacientes do ABC que vêm para cá e pacientes do Butantã que entram na atenção primária no HU e precisam de atendimento de mais complexidade, que o hospital pode oferecer, mas são enviados para outros lugares. Há uma irracionalidade no sistema”, aponta.

Outra discussão a ser travada, na qual o CD e o GT terão papel importante, se refere à própria organização administrativa do hospital, hoje muito centralizada na Superintendência. O GT-HU defende mudanças no Regimento Interno e a criação de estruturas mais descentralizadas.

Amaral Junior considera que este é o melhor momento vivido pelo HU nos últimos oito anos. “Nós do CBL estamos muito animados, mas sabemos que as coisas não dependem só do dr. Pinhata. Há muitas outras questões e interesses na universidade, muitos legítimos, alguns nem tanto”, diz, referindo-se à destinação de verbas do orçamento da USP.

“O momento é muito promissor. Temos que continuar acompanhando, porque há todo um afinamento e detalhamento a fazer para a recuperação do hospital. Agora, isso só será possível porque temos a perspectiva de um salto de qualidade com a possibilidade do concurso público e uma gestão aberta ao diálogo e à construção de projetos”, finaliza.

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