Ausência do superintendente Carlos Ferreira dos Santos, da ex-pró-reitora e ex-superintendente Maria Aparecida (Cidinha) e do reitor Carlotti Jr. foi alvo de fortes críticas. Eventual participação das fundações privadas FFM e Faepa na gestão do futuro Hospital das Clínicas de Bauru pode denotar conflito de interesses da parte de dirigentes da USP a elas ligados e que apoiaram a desvinculação do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (“Centrinho”) em 2014

A audiência pública realizada nesta quarta-feira (16/3) pela Câmara Municipal de Bauru sobre o desmonte do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC-USP), também conhecido como “Centrinho”, confirmou a existência de repúdio generalizado à conduta da Reitoria da USP e do governo estadual desde 2014 — quando o Conselho Universitário (Co) aprovou sua “desvinculação”, por proposta do então reitor M.A. Zago — aos dias de hoje, quando se pretende dissolver o hospital dentro do futuro Hospital das Clínicas de Bauru (HCB) e subordinar cerca de 500 servidoras(es) do seu corpo funcional aos ditames da entidade privada  (“organização social de saúde”)  que vier a gerir o hospital.

Fotos: Câmara Municipal de Bauru

Maryana Sobral e Andréa Sobral: depoimentos marcantes
Sala virtual lotou e algumas pessoas não conseguiram participar

Partiu de Claudionor Brandão, diretor do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), uma proposta de encaminhamento da luta em defesa do HRAC que foi acolhida com entusiasmo: a redação de uma carta aberta às autoridades responsáveis que não somente repudie o desmonte do “Centrinho”, mas exija que seja revertida a desvinculação, mediante a revogação pelo Co, já na reunião extraordinária de 29/3, da decisão tomada em 2014. (O documento pedirá que a matéria seja incluída na pauta e deverá ser entregue a conselheiras e conselheiros ao chegarem à Reitoria.)

Presidida pela vereadora Estela Almagro (PT), a audiência contou com mais de uma centena de participantes: o deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL), assessores parlamentares, diversos outros vereadores, funcionárias(os) do HRAC, pacientes e seus familiares (de diferentes estados brasileiros) e representantes de várias entidades e movimentos, como Adusp, Sintusp, Diretório Central dos Estudantes, Sindicato dos Servidores Municipais de Bauru, Coletivo Butantã na Luta, Conselho Estadual de Saúde e associações de usuários do “Centrinho”.

A audiência durou cerca de três horas e foi realizada em formato híbrido. Cerca de 30 pessoas estiveram presentes no plenário da Câmara, que sediou o evento, ao passo que outros 100 participaram remotamente por meio de uma sala na plataforma Zoom. Porém, as autoridades diretamente envolvidas na questão, embora expressamente convidadas pela Câmara Municipal, não compareceram à audiência.

Foi o caso do secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, do reitor Carlos Gilberto Carlotti Jr. e do superintendente do HRAC e vice-diretor da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), Carlos Ferreira dos Santos. Nenhum deles se dispôs a participar, o que foi objeto de muitas críticas. O superintendente encaminhou ofício, na véspera da audiência, pretextando que tinha outro compromisso na agenda. Outra convidada, a prefeita Suéllen Rosin (Patriota), estava em viagem a São Paulo e ficou de participar remotamente, mas teria tido problemas de conexão.

Também foi convidada Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado, a “Cidinha”, ex-diretora da FOB e ex-pró-reitora de Cultura e Extensão, que, na condição de superintendente do HRAC à época, deu total apoio à proposta de desvinculação na fatídica reunião de agosto de 2014 do Co, bem como, em 2017, à criação do curso de Medicina de Bauru, em processo que tramitou com inédita celeridade. Às 11h24 desta quarta, Cidinha encaminhou e-mail à Câmara Municipal de Bauru, alegando que uma atividade de pesquisa não permitia seu comparecimento.

“O Centrinho não pode morrer!”

Depois de exibir um vídeo institucional do HRAC, a vereadora Estela abriu os trabalhos com um pronunciamento sobre as motivações da audiência pública. “O Centrinho não pode morrer! Com esta exortação inicio os trabalhos desta manhã, reproduzindo o anseio dos servidores da USP e da comunidade bauruense que no curso da história de sua cidade viram nascer o então conhecido ‘Centro’, que mais tarde se tornaria referência mundial para o tratamento das lesões labiopalatais”, declarou.

Após recuperar referências cronológicas importantes na história do HRAC — 1967, criação do Centro de Estudos Interdepartamental da FOB; 1976, criação do Hospital de Reabilitação de Lesões Lábio-Palatais, atual HRAC;  década de 1980, convênio com o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps); e após 1988, sua substituição pelo Sistema Único de Saúde (SUS) — a parlamentar lembrou que o Centrinho já atendeu mais de 100 mil pacientes nas áreas de fissura labiopalatinas, anomalias craniofaciais congênitas e deficiência auditiva e que o grupo multiprofissional que atua no hospital, altamente qualificado, presta atendimento integral e humanizado aos seus assistidos.

Estela criticou duramente as “organizações sociais de saúde”, observando que esses grupos privados se apoderam de grandes parcelas dos recursos destinados pelo Estado à saúde pública. Citou pesquisa do professor Áquila Mendes, da Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP), segundo a qual em 2014 as OSS foram aquinhoadas com repasse de R$ 12,6 bilhões em verbas orçamentárias do governo estadual. No entender da vereadora, os empresários das OSS “descobriram o capitalismo sem risco”, visto que os recursos para sua gestão advêm de verbas públicas.

Ela questionou na sua fala “os reais interesses por trás da proposta de desvinculação do HRAC”, uma vez que o então reitor M.A. Zago e parte dos seus assessores, “entre os quais se encontrava o atual reitor, eram e ainda são professores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, ligados a uma fundação de direito privado [Faepa] constituída por professores daquela faculdade”. (O reitor Carlotti Jr., que foi pró-reitor na gestão Zago, fora anteriormente presidente da Faepa.)

“Além dos citados, que no ano de 2014 elaboraram e apresentaram a proposta de desvinculação do HU e do Centrinho, ainda temos os professores ligados à fundação da Faculdade de Medicina da USP da capital [FFM], bem como os professores da FOB e a própria sra. Cidinha, que votaram junto com seus pares em favor da desvinculação do Centrinho”, destacou.

A seu ver, “não seria nenhuma surpresa ver as fundações das faculdades de Medicina da USP de Ribeirão Preto e da capital se apresentarem entre as organizações sociais de saúde para disputarem a gestão do quadro de 501 profissionais de altíssimo nível técnico, posto que continuarão sendo remunerados pela USP para trabalharem para as organizações sociais de saúde, bem como a gestão do orçamento público destinado ao HRAC”.

Efetivamente, tanto a FFM como a Faepa se inscreveram no chamamento público da pasta da Saúde para a gestão do futuro Hospital das Clínicas de Bauru, e o reitor Carlotti Jr. chegou a declarar aos dirigentes do Sintusp que “seria preferível” que uma delas viesse a ganhar a licitação.

“Em resumo, estamos em vias de assistir à consumação de uma fraude perpetrada por um grupo de professores que entregaram o HRAC para um festim de algozes que agora se apresentam para o flagelo”, prosseguiu a vereadora. “Cabe à sociedade bauruense, aos servidores públicos estaduais da USP e aos órgãos de fiscalização discutirem o desmonte que bate à porta do Centrinho, uma das maiores riquezas de nossa cidade”.

“O Centrinho é do SUS e o SUS é nosso”, concluiu Estela, “lutemos pela preservação deste patrimônio da humanidade, sendo agentes opositores da precarização do Centrinho que de forma orquestrada encontra-se em vias de ser entregue à gestão das organizações sociais”.

Neli Wada apontou responsabilidades de Cidinha e Ferreira dos Santos

Funcionária do HRAC e dirigente do Sintusp, Neli Wada deu início à sua intervenção denunciando de imediato as responsabilidades de Cidinha e de Ferreira dos Santos no processo de extinção do hospital na decisiva reunião de agosto de 2014 do Co, pois “ambos deram aval para que a USP desvirtuasse o Centrinho, transferindo-o para  a Secretaria da Saúde do Estado, após longa defesa do professor Sebastião [dos Santos], professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto”.

Naquela reunião do Co, Sebastião apresentou um relatório de sua autoria sobre o desempenho do Hospital Universitário (HU) e do HRAC, encomendado pelo então reitor M.A. Zago e que depois receberia críticas por sua inconsistência, mas serviu como subsídio, à época, para a campanha de ataques aos dois hospitais desfechada  pela Reitoria com a finalidade de desvinculá-los da USP. Sebastião viria a ser nomeado presidente da comissão encarregada de implantar o curso de Medicina de Bauru e superintendente do HRAC. Porém, na gestão seguinte, foi exonerado pelo reitor Vahan Agopyan ao rejeitar alterações do currículo e ingerências da “organização social de saúde” Famesp.

Neli relatou que os trabalhadores(as) da USP “fizeram uma greve e denunciaram para a sociedade bauruense o que estava acontecendo, mas suas vozes não se fizeram ouvir pelo Ministério Público”. De acordo com ela, a desvinculação sinalizava a troca do Centrinho pelo curso de Medicina, mas não foi debatida no Conselho Deliberativo do HRAC, tão somente comunicada.

Em 1º de agosto de 2017, continuou a dirigente do Sintusp, novo passo foi dado: o lançamento do curso de Medicina da FOB, com a presença do então governador Geraldo Alckmin (PSDB), do deputado estadual Pedro Tobias (PSDB), “que fez pessoalmente o lançamento da candidatura de Alckmin para presidente, junto com o prefeito Clodoaldo Gazzetta e o secretário estadual de Saúde David Uip”, bem como o reitor Zago, “hoje presidente da Fapesp”, e Cidinha.

“Daí em diante o Centrinho veio morrendo”, prosseguiu Neli. “Foi referenciado pela DRS-6 [Delegacia Regional de Saúde de Bauru], atendendo apenas casos novos de Bauru e região, sendo que os atendimentos e cirurgias dos pacientes de outros Estados escassearam, muitos sendo encaminhados para continuidade do tratamento nos chamados núcleos, comandados por uma organização norte-americana conveniada com o HRAC, denominada Smile Train”, denunciou.

A seu ver, a OSS que vencer o chamamento público feito pela pasta da Saúde em janeiro deste ano “terá o objetivo de transformar um patrimônio da Humanidade em uma clínica de um hospital escola”. “Será que a organização social que ganhar esse chamamento fará investimentos em pesquisas e estudos das malformações craniofaciais? Continuarão com as portas abertas para receber os pacientes que nascem com malformações craniofaciais neste país? Será que o Centrinho continuará sendo internacional, repassando toda a sua expertise para os países do Primeiro Mundo e da América Latina?”

“Será que você que nos ouve agora”, acrescentou, “amanhã se tiver um filho, um neto, um parente com malformações craniofaciais encontrará um hospital humanizado, onde o paciente é prioridade? Não. Em nome dos custos as portas se fecharão”, vaticinou. “Diante da pressão da Jovem Pan News, o governo estadual lavou as mãos e devolveu para a população bauruense: ‘O governo não tem nada com isto. Foi a USP que repassou o HRAC para nós. Só depende da USP para o Centrinho permanecer como está, na unidade 1 do HRAC, prédio original, como sempre foi’”.

“Agora a palavra está com o professor Carlotti, reitor da USP. Reivindicamos que o Centrinho permaneça na USP, onde e como está, de portas abertas aos brasileiros, pois ele continua sendo um patrimônio da Humanidade”, finalizou, sendo muito aplaudida.

Desvinculação “foi um duro golpe”, destacou deputado Giannazi

“Estive aí em 2014, conheci o Centrinho pela Neli, o desmonte já estava em curso naquela época”, relatou o deputado Giannazi. “O reitor Zago dizia que não era função da universidade investir nessas áreas que ele julgava serem atividades-meio: HU, creches, Escola de Aplicação, o Centrinho estava nesse bojo. Foi um duro golpe no Centrinho a desvinculação. Agora mais esse golpe, entregando o Hospital das Clínicas de Bauru para uma OS, de caráter privado”.

Na avaliação do parlamentar do PSOL, as organizações sociais de saúde são entidades “perigosas”. Ele deu como exemplo a maior dessas OSS, a Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), que está inscrita no chamamento destinado ao HCB. “Uma que está concorrendo é a SPDM, que faz a gestão do Hospital São Paulo [vinculado à Universidade Federal de São Paulo], que está demitindo mais de 200 profissionais de saúde, sumariamente, nem estão pagando os direitos trabalhistas, alegando questões financeiras”, denunciou.

“Não há nenhuma preocupação com os profissionais de saúde, que têm experiência, trabalham lá há muitos anos. Elas não têm compromisso nenhum com a qualidade da oferta de serviços de saúde. Entregar o Centrinho para uma OS[S] não vai ser muito diferente, vai ser a destruição, o desmantelamento”, advertiu. “Em 2014 realizamos aqui na Assembleia Legislativa uma grande audiência pública como essa que vocês estão fazendo agora, fizemos vários encaminhamentos, acionamos à época o Ministério Público [MP-SP], a Comissão de Saúde, a Comissão de Educação, tomamos várias providências em relação ao que estava acontecendo”, recordou.

Giannazi destacou o fato de que transferir a gestão do HRAC para um grupo privado desse tipo se insere na estratégia de privatização adotada pelo governo João Doria-Rodrigo Garcia na saúde e em praticamente todas as áreas. “Nós estamos preocupados agora com essa entrega para uma OS[S]. Se a USP já queria se livrar do Centrinho, esse governo quer se livrar de todos os hospitais entregando para as OS[S]. Até os parques estaduais estão sendo entregues, até o Petar, que é considerado patrimônio pela Unesco, está privatizando e terceirizando”.

De acordo com o deputado, o que o governo estadual pretende fazer com o HRAC foi tentado também com outros órgãos públicos, como o Instituto Butantan e a Fundação Oncocentro (FOSP), esta por meio do PL 529/2020, o qual, explicou ele, determinou a fusão dos institutos Geológico e de Botânica e extinção do Instituto Florestal, bem como a extinção da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen) e de outras estruturas públicas. “É um governo que não tem dó do povo, tudo que funciona bem, com qualidade, com excelência ele vai extinguindo, vai privatizando”.  

Ele informou que acionará novamente o MP-SP, o TCE e as comissões da Alesp. “Todos estão convidados para uma grande audiência pública que será feita na Assembleia Legislativa no próximo dia 28/3 às 18 horas, ela vai ser online também, então todos poderão participar, os funcionários do Centrinho, os professores, os pacientes, a vereadora, todos os vereadores, todos que estão engajados na defesa do Centrinho”, anunciou. Citou ainda, entre outras pessoas, o comunicador Alexandre Pitolli, que vem cobrando explicações sobre o hospital em seu programa de TV.

“O Centrinho mudou minha vida”, contou Maryana, de 12 anos

Depoimento marcante foi o da menina Maryana Sobral, de 12 anos de idade, que compareceu ao plenário da Câmara Municipal acompanhada da mãe, Andréa Sobral de Azevedo Silva. “Sou paciente do Centrinho desde os meus sete meses e o Centrinho me trouxe muitas oportunidades, mudou a minha vida, como pode mudar muito a vida de crianças. Eu passo dificuldades de deficiente. O meu implante [auditivo] está debaixo do meu cabelo, mas quando eu vou no mercado, na fila, as moças ficam perguntando ‘Você é deficiente?’, e tal. O Centrinho mudou minha vida”, disse, de um fôlego só.

“Eu nem sei o que dizer para eles [HRAC], eu sou muito grata por tudo que eles fizeram, e todas as crianças são muito gratas. Porque eles são uma família, eles acolhem. Muita gente vem de outros países, de outras cidades, e fica muito confusa. Eles acolhem todo mundo. Eu fico muito feliz pelo Centrinho. Eu ficaria muito triste se ele fechasse. Então é isso”, concluiu Maryana.

O vereador e pastor Edson Miguel de Jesus (Republicanos) pediu para falar sobre o exemplo de Maryana, a quem ele já conhecia. “Eu tenho que falar sobre a Mariana, porque todos ouviram ela falar que é uma criança ‘implantada’, que tem deficiência auditiva. Quando eu conheci a Mariana ela falava pouco, tinha muita dificuldade na sua fala. Então quando falamos de um local de referência nacional e internacional é só olhar o que ele tem feito na vida dessa criança, que pode hoje ter uma vida normal diante de toda a sociedade”, enfatizou.

“Quando eu a conheci, a mãe dela falou para mim: ‘Pastor, ela é implantada’. Olhei para ela: “Como? Ela fala’. Então ela me mostrou [o implante]. É isso que o Centrinho tem feito. Além de cirurgias craniofaciais, de lábio leporino, e outros tratamentos, outras especialidades que tem esse centro, o HRAC. Nós não podemos aceitar que essa unidade se feche”.

Convidada por Estela a também se manifestar, Andréa expressou sua perplexidade com a situação do HRAC. “A Maryana consegue demonstrar exatamente o que é o Centrinho na vida dos pacientes. Eu me pergunto, como mãe e como usuária do hospital, por que mexer com uma estrutura que funciona tão bem, com tanta excelência, com tanta diferença de atendimento de outros centros. A gente frequenta o hospital há 11 anos, a gente é daqui de Bauru mesmo. É muito fácil falar de tudo isso, porque eu falo com meu coração”. Maryana, explicou, foi diagnosticada com perda auditiva severa bilateral e passou por duas cirurgias.

Andréa relatou que o atendimento no Centrinho sempre foi extremamente acolhedor, até a gestão de Cidinha. “Com o passar do tempo muita coisa mudou dentro do hospital. Como usuário a gente escuta muita coisa, mas acaba não acreditando. A gente começa a acreditar quando começa a vivenciar, sentir na pele situações que foram dificultando. Só que eu sou um pouco briguenta. Tem o doutor Lucas Pimentel, um promotor que ajuda muito a gente ali dentro”. Ela elogiou a qualidade e a dedicação da equipe de profissionais do HRAC e questionou a quem pode interessar o seu desmonte: “Por que eles querem isso? Uma vida transformada como a da Maryana não tem preço”.

Maria Irene Bachega, funcionária do HRAC, reivindicou maior transparência das autoridades com relação aos pacientes e funcionárias(os). “Como ouvidora de uma instituição como o Centrinho, que tem cinquenta e quatro anos de existência, eu estou lá há quarenta e quatro anos, fico emocionada de ver todos esses pacientes lutando [lado a lado] com a gente. Não estamos lutando pelo nosso emprego, nós vamos continuar com o nosso emprego”, ponderou Maria Irene (que é enfermeira, mestra em Enfermagem Pediátrica e doutora em Pediatria), lembrando que há muito mais em jogo.

“Nós estamos lutando por um sistema de saúde e uma instituição que oferece atendimento para o Brasil todo, que ajuda na orientação dessas famílias, que trabalha com a orientação de profissionais que vêm aqui, do Brasil, do mundo, passar pela gente para ter um pouquinho de know-how, do nosso atendimento, de como fazemos as coisas. De forma simples, mas como disse a Andréa, com o coração. A humanização é muito importante, se colocar na lugar do outro para que ele entenda que o problema dele vai ser sanado”.

A seu ver, a luta por transparência, que mobiliza funcionárias(os) e pacientes, é uma questão de cidadania. “Nós merecemos ser ouvidos sim, e a sociedade tem que entender que nós somos uma referência no tratamento. Os residentes que aqui vêm saem daqui e tentam ajudar os pacientes das suas cidades de origem”, exemplificou. “Então é um trabalho muito intenso dos profissionais, e eu me emociono de ver a reabilitação dos pacientes, o crescer dos pacientes como ser humano, como presença na sociedade, fazendo a diferença. Nós fazemos a diferença na vida deles, mas eles fazem a diferença no seu local de trabalho, mostrando que são capazes de trabalhar”.

Primeira tentativa de desvincular HRAC foi em 1994 e surpreendeu sindicalistas

Claudionor Brandão revelou na sua intervenção que a primeira tentativa de desvincular o HRAC da USP remonta a 1994. Brandão e Alexandre Pariol, então representantes dos(as) funcionários(as) técnico-administrativos(as) no Conselho Universitário, pediram e conseguiram vistas do processo, e a mobilização da categoria conseguiu barrar a proposta.

Ele afirmou ainda que, na reunião desse colegiado de agosto de 2014, o reitor M.A. Zago, pressionado pelos protestos de funcionária(o)s, docentes e estudantes do Hospital Universitário (HU), iria retirar da pauta a proposta que apresentara, de desvinculação dos dois equipamentos (HU e HRAC). Porém, a desvinculação do HRAC foi mantida na pauta por uma questão de ordem apresentada pela professora Cidinha, então superintendente do hospital.

No entender de Brandão, o reitor e seus assessores eram ligados à Faepa, fundação privada ligada aos docentes da FMRP, e outros que votaram favoravelmente à desvinculação do HRAC no Conselho Universitário tinham vínculos com a Fundação Faculdade de Medicina (FFM). Ele lembrou que a USP continuará pagando as(os) servidores do hospital, porém eles passarão a trabalhar para uma organização privada. No caso do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina, na capital, que é gerido pela FFM, 30% dos leitos são destinados ao atendimento de convênios, portanto, “a atender os negócios do setor privado, em detrimento dos pacientes do SUS”, acusou. 

Ele propôs que, tendo em vista a reunião do Conselho Universitário agendada para 29/3, seja elaborada uma carta aberta ao reitor da USP e aos membros daquele colegiado, propondo a revogação da resolução que desvinculou o Centrinho. “E vamos para cima dos diretores de unidades, dos representantes de congregação com essa carta aberta, exigindo um posicionamento deles”.

Outra manifestação aplaudida foi a do ortodontista Rowney Furfuro. radicado em Portugal. “O Centrinho tem um significado muito grande, que ultrapassa as fronteiras brasileiras. Vivo em Portugal há 35 anos. A lente que a gente vê o Centrinho aqui de fora é o Brasil que deu certo, é um centro de referência mundial. Um legado que o ‘Tio Gastão’ deixou e que não pode ser desprezado, muito menos relegado a uma situação de ser colocado como uma parcela daquilo que é”, disse em referência ao professor José Alberto de Souza Freitas, o principal fundador do HRAC.

“A representatividade do Centrinho está espelhada numa campanha que nosso portal [Atlas Lipcast] começou a fazer. Vários pacientes deram seu testemunho da importância que o Centrinho tem nas suas vidas, importância sistêmica para as famílias, inclusão social. Redundante falar em desenvolvimento científico, por isso ele é referência. Mariana Aidar é a prova viva do desenvolvimento científico e técnico”.

A seu ver o Centrinho adquiriu certas responsabilidades que não podem ser ignoradas. “A USP, que é um dos centros do saber, uma das estruturas universais, deveria pugnar pela universalidade do atendimento e não pela redução do atendimento, que é o que a USP tacitamente faz ao silenciar [sobre a extinção do hospital]”. “Essa mudança não é bem vinda”, enfatizou. “Por que as pessoas que dirigem a administração tomam a si, avocam o direito de desvirtuar todo o sentido desse projeto?”, questionou.

Furfuro foi um dos que criticaram Carlos Ferreira dos Santos por haver se ausentado da audiência. “O superintendente deveria perceber que o assunto é sério o suficiente para que ele alterasse a sua agenda. Não está presente, é bastante lamentável. O Centrinho não pode ser restringido na sua atuação quer científica, quer administrativa, muito menos no atendimento. Tive oportunidade de perceber que o Centrinho recebia e recebe pacientes de todo o mundo, não só América Latina, Europa, Ásia, são mais de 100 mil pacientes. É uma questão humanitária”.

“Morte do Centrinho é anunciada”, diz professor Arsenio Peres

O professor aposentado Arsenio Sales Peres (FOB), ex-diretor regional da Adusp, foi um dos que optaram pela participação presencial na audiência. Emocionado, protestou contra o desmonte do HRAC e propôs lutar em sentido contrário. “Estão matando o Centrinho. Mas essa morte é anunciada, começou em 2014, quando a professora Maria Aparecida [Cidinha] entregou o Centrinho para o Estado. Como docente da USP oriundo da FOB fico indignado com colegas que tomam atitudes como se fosse donos da universidade”.

No entender de Arsenio, o Centrinho “é uma pérola de Bauru” e conhecido “nos quatro cantos do Brasil”. Ele não vê lógica na substituição do HRAC pelo HCB. “O HRAC é um hospital de média e alta complexidade. Não é um hospital de entrada, e querem transformá-lo no HC[B]. Tem alguma coisa por trás. Nós de Bauru ficamos vendidos nessa história. O que será feito da unidade HRAC?”, indagou o docente, manifestando preocupação com relação ao futuro das comissões de pesquisa e de extensão e cultura do hospital.

“Essa audiência pública hoje é um sinal de que nós temos que tentar lutar de alguma forma, nem que seja judicialmente, para reverter a situação. Bauru precisa, a comunidade científica precisa. Por que apagar uma chama que acende todos os dias? A USP não pertence a ninguém, é do Estado. É um desmonte”. Ele aludiu à falta de democracia da estrutura de poder da USP como um dos fatores que permitiram o atual desfecho. “Temos professores, funcionários, todos juntos nessa reunião. São maioria, mas a maioria não vence o voto do diretor da unidade”. E lembrou que o atual reitor “vem do grupo de Zago”.

Outro depoimento digno de nota foi o de Thyago Cezar, doutorando do HRAC e que por nada menos que vinte e cinco anos foi paciente do Centrinho. “Tive oportunidade de conhecer o Centrinho pelas mais variadas formas. Hoje estamos vivenciando um momento muitíssimo triste, em que inegavelmente o que foi demonstrado aqui por diversos oradores é uma questão meramente política”, deplorou.

Vice-presidente da Rede Nacional de Associações de Pais e Pessoas com Fissura Labiopalatina (Rede Profis), Thyago acredita, com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que o Brasil tem de 350 mil a 400 mil pessoas com essa malformação, e que o HRAC “já atendeu praticamente 50% dessa população”.

Ele considera que, embora teoricamente existam 30 centros desse tipo no país, a maioria deles atende com restrições seja quanto à faixa etária (por exemplo, excluindo pacientes acima de 14 anos), seja quanto a determinados tratamentos necessários à reabilitação das pessoas. Assim, o Centrinho é o hospital mais completo e cujo modelo deve ser seguido.

“Este modelo é tão gigantesco que exporta tecnologia para o Brasil e o exterior”, emendou, citando os diversos programas de mestrado e doutorado existentes no HRAC. “Toda essa tecnologia, todo esse ouro acumulado, pode daqui a alguns dias ser jogado ao relento, à sorte de uma ou várias OS[S], nós estaremos perdendo a oportunidade de ser e manter o destaque”.

“Se o governador João Doria Jr. tiver o mínimo de apreço à tecnologia, a seis décadas de esforços de profissionais da mais altíssima qualidade que nós temos aqui, bem como apreço a mais de 150 mil pacientes que já transitaram pelos corredores desse hospital, e àqueles que ainda vão nascer, ele não ousará mexer na estrutura desse hospital, que merece ser louvado e mencionado em todos os espaços desse país”.