O Instituto de Estudos Avançados (IEA) acaba de divulgar parceria com o Centro de Inovação da USP (Inova USP), com o intuito declarado de “estimular iniciativas conjuntas”. De acordo com matéria publicada na página do IEA, o acordo firmado “teve como antecedente e prova de conceito uma iniciativa do Centro de Inteligência Artificial da USP, pela qual seus pós-doutorandos foram acolhidos pelo IEA, apontou o diretor do instituto, Guilherme Ary Plonski”, e “os projetos resultantes da parceria serão desenvolvidos por equipes interdisciplinares formadas por integrantes da comunidade USP e por pesquisadores externos, vinculados ao IEA”, cabendo ao Inova USP ceder o “espaço físico especializado”, “quando necessário”.

Ainda segundo o próprio IEA, o objetivo da parceria, no “contexto de transformação da Pró-Reitoria de Pesquisa em Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação”, é “oferecer espaços para que pesquisadores possam desenvolver projetos com potencial de inovação e ampliar suas conexões acadêmicas, profissionais e institucionais”. Presente à cerimônia de assinatura da portaria que materializou a parceria, realizada no Salão de Atos da Reitoria no dia 5/5, o pró-reitor de Pesquisa e Inovação da USP, Paulo Nussenzveig, declarou acreditar que “no setor privado há o interesse de realizar processos de inovação que promovam o bem-estar da sociedade” e que “não podemos [a USP] simplesmente nos acomodar e esperar que o setor público resolva os problemas da sociedade”.

Ao divulgar a parceria, o Jornal da USP agregou alguns outros aspectos aos divulgados pelo IEA. Após mencionar as decisões tomadas pelo Conselho Universitário (Co) dois dias antes, o órgão oficial da Reitoria fez menção à palavra “empreendedorismo”, que não aparece no texto do IEA: “Com a reestruturação, a PRPI deve ampliar a interlocução da USP com os agentes de inovação dos setores governamental, empresarial e da sociedade civil, além de avaliar o desempenho do ecossistema de inovação da Universidade por meio do diagnóstico e treinamento específico em inovação e empreendedorismo”. 

A insistência nas alusões ao setor privado (como na reunião de 3/5 do Co), bem como a referência a um suposto, intrigante “treinamento específico em inovação” (como seria?), faz pensar que a recém-inaugurada parceria pode prestar-se a uma espécie de coworking abrigado no IEA. Condizente, aliás, com a trajetória do diretor Plonski, ligado a duas das maiores fundações privadas ditas “de apoio” — a Fundação Instituto de Administração (FIA) e a Fundação Vanzolini — e por doze anos diretor da Cecae, comissão incumbida de fazer a ponte entre a USP e a iniciativa privada.

“Tratamento superficial, clichês e frases vazias”, diz Ciro Correia, ex-presidente da Adusp

“Não será a primeira vez que em um texto onde o tema seja ‘inovação’ o tratamento seja superficial ou desprovido de consistência e objetividade. Essa matéria, no entanto, consegue reunir uma quantidade expressiva de clichês e frases vazias como poucas”, comenta a propósito do texto do Jornal da USP o professor Ciro Correia, do Instituto de Geociências (IGc-USP). No entender do docente aposentado, que foi presidente da Adusp e do Andes-Sindicato Nacional, a parceria entre IEA e Inova USP insere-se no contexto de ataques que as instituições públicas de ensino superior vêm sofrendo.

“Isso se dá em função da dificuldade em justificar que a universidade pública passe a se ocupar de iniciativas diferentes — inovadoras? — das que ela precisa cumprir em qualquer sociedade, a saber: prover e promover o ensino superior de qualidade, o avanço do conhecimento através da pesquisa básica e aplicada e cuidar de atividades de extensão nas quais a interface com outros setores públicos ou privados da sociedade ocorram de modo a ampliar o acesso e domínio desses setores aos avanços do conhecimento nela produzidos, e isso, de modo público e não comercial”, avalia Ciro, em atenção a pedido do Informativo Adusp.

“Como cada vez mais existem interesses e propostas para a universidade pública ao revés dessa perspectiva (pública e não comercial), e considerando-se que não é tarefa fácil explicitá-los de modo sustentável, abre-se espaço nas diferentes mídias para textos inconsistentes como esse, até mesmo, infelizmente, nos meios acadêmicos como nesse caso”.

Conceito de inovação precisa ser melhor definido, assinala Marcos Oliveira, da FFLCH

Na opinião do professor Marcos Barbosa de Oliveira, vice-coordenador do grupo de pesquisa Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia do próprio IEA, os recentes encaminhamentos relativos à inovação chancelados no Co são iniciativas tomadas “de cima para baixo”, sem a necessária discussão prévia, portanto de modo autoritário. Docente aposentado da Faculdade de Educação (FE) e professor colaborador no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Oliveira chama atenção para o fato de que a resolução aprovada em novembro de 2021 não faz menção à legislação pertinente, como o Marco Legal de C&T ou à Estratégia Nacional de Inovação. “Parece uma ilha. Não se procura discutir por que o governo federal e os governos estaduais vêm promovendo tanto esse tema da inovação, por mais de vinte anos, e até agora os resultados têm deixado muito a desejar. Falta então um diagnóstico das dificuldades para fazer avançar o programa inovacionista no Brasil”, pondera.

Outro aspecto problemático, a seu ver, é a (in)definição do conceito de inovação, que transparece eventualmente em interpretações um tanto cruas, como as manifestadas na reunião de 3/5 do Co pelo vice-coordenador da Agência USP de Inovação (Auspin), Emanuel Carrilho, para quem “a pesquisa transforma dinheiro em conhecimento e a inovação transforma conhecimento em dinheiro”, incentivando assim “um fluxo de caixa num moto contínuo”.

Tem-se assim, avalia o pesquisador, que é autor de vários escritos sobre o tema, “uma aceitação implícita da inovação como sendo inovação mercantil ou empresarial, ignorando-se totalmente às críticas que têm sido feitas a esse conceito, juntamente com a proposta de um conceito mais amplo, de inovação social”. Há um ano, Oliveira publicou no site Outras Palavras o artigo “Em busca de uma alternativa ao inovacionismo”, em que expõe seus achados mais recentes. O texto foi reproduzido pelo site da Fapesp.

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