Reitoria coloca à disposição de “médias e grandes empresas de base tecnológica”, por meio de contratos de concessão de vinte anos prorrogáveis por igual período, 160 lotes de até 4 mil m2 nos quais poderão instalar unidades de pesquisa e desenvolvimento, ou até mesmo “plantas de produção”, e comercializar produtos, insumos e processos”

A gestão Carlotti Jr.-Maria Arminda mostra-se cada vez mais semelhante a suas predecessoras recentes seja no modo de manejar as condições de trabalho de docentes e funcionário(a)s técnico-administrativo(a)s, especialmente salários, seja na fidelidade aos princípios neoliberais que animaram as duplas M.A. Zago-V. Agopyan e V. Agopyan-A.C. Hernandes e causaram enormes perdas à Universidade de São Paulo desde 2014, como o déficit de mais de 1.000 docentes efetivo(a)s e a iminente liquidação do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais de Bauru (HRAC), para ficar em dois exemplos apenas.

Assim, a entronização do binômio inovação-empreendedorismo como o quarto “pilar” da USP, aprovada sem qualquer discussão séria no apagar das luzes da fracassada gestão V. Agopyan-A.C. Hernandes (Resolução 8.152/2021), vem sendo materializada em iniciativas de Carlotti Jr.-Maria Arminda como a reforma da antiga Pró-Reitoria de Pesquisa, hoje Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação (PRPI), e diversas outras medidas que buscam apresentar como racionais e necessárias para sintonizar a USP com os “novos tempos”.

No campus de Ribeirão Preto começa a ser implantada, com apoio da atual gestão, uma espécie de “distrito industrial”, o “Condomínio da Inovação” do Supera Parque, projeto negociado pela gestão anterior da Reitoria com a Prefeitura do Município e a Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo. “O Condomínio da Inovação conta com um total de 126 lotes, com tamanhos que variam de 600 m² a 4.000 m², além do Container Park, um novo centro empresarial. Os lotes são destinados às empresas que poderão instalar suas plantas de P&D&I ou produção”, diz matéria publicada no Jornal da USP, órgão oficial da Reitoria.

Ainda segundo o Jornal da USP, as empresas que quiserem se instalar no Condomínio da Inovação devem passar por um processo de concorrência, “devendo comprovar seu caráter inovador e de base tecnológica”, e não precisarão desembolsar recursos para aquisição do terreno, tendo que pagar apenas uma taxa mensal de uso. “O contrato de concessão tem vigência por 20 anos, podendo ser prorrogado por igual período”.

hub (“polo”) de inovação já conta com cerca de 80 startups. Porém, na contramão da narrativa que vende a ideia das startups como fontes de emprego para jovens empreendedore(a)s recém-formado(a)s, o Jornal da USP traz uma informação contraditória: “Em Ribeirão Preto, médias e grandes empresas de base tecnológica têm a possibilidade de se instalar no Condomínio da Inovação do Supera Parque”, diz a matéria (destaques nossos). Assim, há indícios de que uma parte do campus da USP será loteada e colocada à disposição de capitais já estabelecidos no mercado.

A justificativa do projeto é intrigante: “A proximidade de empresas com o ambiente universitário possibilita a criação de um ecossistema de inovação e tecnologia sempre atual, conforme destaca Dalton Marques, gerente de Desenvolvimento Econômico do Supera Parque”. Na avaliação de Marques, “estar perto desses ambientes facilita a transferência de conhecimento e potencializa o processo de P&D [Pesquisa e Desenvolvimento]”, e “uma das vantagens encontradas pelas empresas que se instalarem no local é, justamente, a proximidade com a Universidade, o que contribui para uma maior interação entre a academia e o meio empresarial, unindo empresas inovadoras a serviços técnicos e tecnológicos de forma articulada e orgânica”.

Portanto, além de fornecer o terreno no qual se instalarão as empresas interessadas, a USP é vista nesta equação como capaz de fornecer “serviços técnicos e tecnológicos de forma articulada e orgânica”, ainda que não fique claro como se dará tal “organicidade”. Na declaração de outro executivo do Supera Parque, Eduardo Cicconi, o pacote da parceria recebe contornos que extrapolam em muito as questões de P&D: “As empresas instaladas podem desenvolver suas atividades de pesquisa e inovação, incluindo a produção e a comercialização de produtos, insumos e processos”.

Pretende-se estimular a apropriação privada do conhecimento gerado pela universidade que, na grande maioria das vezes, recebe financiamento público por meio de bolsas e financiamento vindos das agências de fomento? Se juntarmos tais declarações às políticas de pesquisa e inovação defendidas por sucessivas gestões reitorais e a elementos do Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação (lei 13.243/2016), é possível afirmar que a medida pretende não só transferir o fundo público para entes privados, mas também nossa força de trabalho e capacidade de produção de conhecimentos!

Ao ceder espaço do campus para “plantas de produção”, a Reitoria permite a criação de um distrito industrial, a pretexto de incentivar a inovação e o empreendedorismo. O governo estadual já vinha fazendo algo parecido no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), na capital, cujas dependências e parte da força de trabalho vêm sendo gradualmente colocadas à disposição de grandes empresas, no âmbito do programa “IPT Open Experience”.

A Agência USP de Inovação (Auspin), responsável pela formulação básica da Resolução 8.152/2021, alvo de críticas da Adusp, do Sintusp e do movimento estudantil por seu teor raso e intelectualmente indigente, é quem firma os contratos de concessão do uso de lotes.

Festival de Empreendedorismo, “evento de inspiração”?

Neste sábado (22/10), está prevista a realização do “Festival de Empreendedorismo da USP” (FEU), uma iniciativa da Auspin em “parceria” com o “Núcleo de Empreendedorismo da USP” (NEU), que a agência define como “entidade estudantil”.

De acordo com e-mail de autoria da Auspin encaminhado nesta quinta (20/10), o NEU é “um grupo de estudantes dentro da USP que trabalha sem parar para fomentar o empreendedorismo dentro da universidade por meio de eventos de inspiração, suporte a projetos de startups de alunos(as) e conexões com o ecossistema de inovação”.

A Auspin anuncia o festival como “um dos maiores eventos sobre empreendedorismo da Cidade Universitária”, organizado com a finalidade de “apresentar o mundo do empreendedorismo p’ra você, aluno(a), que sempre quis conhecer um pouco dessa realidade”, e que envolve “um dia inteiro de painéis e dinâmicas com grandes nomes do ramo de empreendedorismo de startups compartilhando vivências e aprendizados”.

A linguagem utilizada pela Auspin é puramente comercial e marqueteira: “Os convidados que acumulam a experiência de terem passado por empresas de ponta como iFood, Gympass, Loggi e Quinto Andar - além de polos de educação como o MIT e a Harvard Business School”.

O festival, declara, “está de portas abertas p’ra toda a comunidade USP e tem como característica fundamental ser um espaço de estudantes e para estudantes, trazendo de volta o melhor da experiência de um evento presencial com muito networking, coffees e o empreendedorismo mais perto de você!”.

Parece que a Auspin precisará de muitos eventos de inspiração para ir além de siglas como FEU e NEU e das narrativas marqueteiras de sucesso das startups, cujo índice de sobrevivência no mercado, na “vida real”, mal chega a 30%.

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