Na noite de 30/11, ocorreu na FFLCH um “ato público contra a criminalização da política na USP”, organizado pelo Coletivo de Estudantes da USP, com apoio da Adusp, Sintusp, DCE-USP, DCE-Unesp, UNE e UEE. O encontro atraiu a mídia e cumpriu o objetivo de protestar contra os processos disciplinares abertos pela USP contra quatro estudantes que participaram da ocupação do prédio da Reitoria em 2007 e outros 17 que, na luta por moradia estudantil, ocuparam salas da Coordenadoria de Assistência Social (Coseas) em março do corrente ano.

“A ocupação foi um dos atos políticos mais bem sucedidos dessa universidade nos últimos dez anos”, destacou o professor Vladimir Safatle, que ironizou o esforço da Reitoria em revirar o passado. “Ninguém consegue administrar uma universidade com um galão de gasolina nas mãos e ao que parece é isso que está acontecendo. Ao invés de uma política que procure pacificar a universidade, reconhecer que ela tem diversos interesses, se tenta voltar a lutas passadas, criminalizá-las, abrir uma série de medidas e problemas que estão longe de se resolver”, apontou Safatle.

O professor ressaltou a força dos estudantes na ação política de 2007: “Durante um bom tempo, as instâncias universitárias tentaram negociar com o governo sem sucesso. Graças à ação dos estudantes, essa negociação chegou em algum lugar”. Na mesma linha se manifestou o professor João Hansen, que classificou como “ridícula” a tentativa de punição de alguns dos participantes da ocupação. “A universidade é pública e ninguém pode querer determinar qual deva ser o sentido político que ela tem”, afirmou. “Em 2007 eu tive o privilégio de participar da comissão de negociação com a reitora e com os pró-reitores e, nas negociações finais, quando os estudantes e os funcionários se comprometeram a sair da Reitoria, houve um acordo tácito de que essas medidas que estão sendo tomadas agora pelo reitor Rodas não seriam feitas”, completou Hansen.

“Serviçal”

“É absurdo usar um instrumento da época mais sombria da Ditadura Militar para se perseguir quem está tentando fazer o debate na universidade”, manifestou o representante da UNE, referindo-se ao regimento disciplinar da USP. A Associação Nacional dos Estudantes Livres (ANEL), por sua vez, acredita que o reitor Grandino Rodas quer se apropriar de uma vitória muito importante, a ocupação de 2007, para transformá-la em uma derrota.

“Nossa universidade é hoje muito mais serviçal do que foram os reitores [à época] da Ditadura Militar”, declarou o professor João Zanetic, após salientar que o dispositivo do Decreto 52.906, de 1972, em que a Reitoria quer enquadrar os alunos processados fala em “eliminação”, expressão que revela um alto grau de autoritarismo. “Esta universidade, hoje, não consegue responder aos ataques que sofre”, comparou o presidente da Adusp, recordando a mobilização da comunidade acadêmica, em 1977, para que se realizasse na USP a reunião nacional da SBPC, que a Ditadura acabara de proibir na Universidade Federal do Ceará. Embora frustrada, a iniciativa mostrou-se politicamente relevante.

“O AI-5 é a expressão direta da organização interna da USP e é por isso que a USP aparece como último entulho autoritário da Ditadura. Nosso desafio é completar a tarefa da democratização, porque o ovo da serpente que engendrou a Ditadura no país está aqui dentro”, afirmou o professor Luis Martins.

 

Informativo n° 319