A chapa “USP Viva”, composta por Carlos Gilberto Carlotti Junior, docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), e Maria Arminda do Nascimento Arruda, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), foi a mais votada pela “Assembleia Universitária”, o restrito colégio eleitoral que forma a lista a ser encaminhada ao governador para a escolha do novo reitor da USP.

Na eleição, realizada em formato online nesta quinta-feira (25/11), Carlotti e Maria Arminda receberam 1.156 votos (59,25% dos votos válidos), contra 795 (40,75%) dados à chapa “Somos Todos USP”, formada por Antonio Carlos Hernandes, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC), e Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado, a Cidinha, da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB).

O resultado foi anunciado na noite de quinta-feira pelo presidente da Comissão Eleitoral, Floriano Peixoto de Azevedo Marques Neto, diretor da Faculdade de Direito, e pelo secretário-geral da USP, Pedro Vitoriano de Oliveira. Votaram 2.002 membros do colégio eleitoral, 94% dos 2.121 habilitados: integrantes do Conselho Universitário, dos conselhos centrais, das congregações das unidades e dos conselhos deliberativos de museus e institutos especializados. Cada eleitor(a) poderia votar em até duas chapas, o que explica o cômputo de 1.915 votos em branco. Houve ainda 69 votos nulos.

O resultado confirma a tendência manifestada na consulta à comunidade, realizada na última segunda-feira (22/11), quando a chapa “USP Viva” venceu nos segmentos docente e discente, perdendo entre a(o)s funcionária(o)s — a orientação do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) era de que a categoria não participasse da consulta.

Na “Assembleia Universitária”, a chapa “USP Viva” teve 60,64% dos votos válidos na categoria docente, 45,55% entre a(o)s funcionária(o)s e 58,24% entre a(o)s discentes. A chapa “Somos Todos USP” registrou, respectivamente, 39,36%, 54,44% e 41,76%, vencendo novamente entre a(o)s funcionária(o)s – categoria que soma apenas 86 votos no colégio eleitoral, enquanto 1.799 são docentes, 210 são discentes e as entidades externas têm 26 votos.

“A chapa USP Viva vem agradecer a todas e todos que depositaram seu voto de confiança nas nossas propostas. Vocês serão sempre parte do processo de mudança e de construção de uma USP melhor! Nosso muito obrigada(o)”, publicou a chapa em suas mídias sociais nesta sexta-feira (26/11).

Na reta final, alegação “misógina e vil” contra candidata a vice-reitora

A nomeação do reitor e vice-reitora cabe ao governador João Doria (PSDB), que, nas recentes eleições das outras duas universidades estaduais, decidiu-se pelas chapas mais votadas nos processos internos — Pasqual Barretti e Maysa Furlan, na Unesp, e Tom Zé e Luiza Moretti na Unicamp.

No debate de lançamento do manifesto A USP que precisamos e podemos ter, no dia 16/11, Carlotti foi questionado sobre comentários que corriam nos bastidores da universidade de que Doria escolheria a chapa de Hernandes-Cidinha para a próxima gestão, independentemente do resultado da votação — ambas as chapas foram convidadas para a atividade, mas apenas a “USP Viva” aceitou participar do debate.

Na avaliação do professor, afirmar que já existiria uma decisão antecipada no governo era “um desserviço” com a finalidade de “inibir as pessoas de votar em quem quiserem”. “Não vejo nenhum benefício para a universidade em tirar o poder da eleição e colocar tudo na mão do governador. Isso está sendo feito para atacar a nossa chapa. Além de prejudicar o sistema eleitoral, prejudica a universidade. Acho muito grave e simboliza qual o processo eleitoral que teremos pela frente”, respondeu.

Um episódio na reta final da eleição que confirmou a previsão de Carlotti foi a divulgação de um documento no qual apoiadores da chapa “Somos Todos USP” aventavam que a professora Maria Arminda não poderia cumprir integralmente o mandato de vice-reitora, caso empossada, porque atingirá a idade da aposentadoria compulsória (75 anos) em 2023.

Em mensagem divulgada nas mídias sociais na véspera da eleição, Carlotti escreveu que “essa investida, além de deseducada e preconceituosa, além de misógina e vil, não tem nenhuma sustentação jurídica”. O professor ressaltou que a Comissão Eleitoral validou o registro da chapa e que não havia “nada de ilícito na idade da Maria Arminda, como tentam sugerir, de forma irresponsável e torpe, alguns apoiadores da outra chapa”.

A Rede Não Cala! USP enviou nota às chapas na qual diz que “a forma (redes sociais) e o momento como a dúvida foi levantada (vésperas do pleito)” são “absolutamente inadequados, o que reforça posturas que têm afetado especialmente as mulheres em sua tentativa de ocupar espaços públicos” (leia íntegra abaixo).

Cabe lembrar que M. A. Zago, reitor eleito em 2013, também atingiu a idade da compulsória (à época, 70 anos) em 2016, durante o mandato, mas essa “acusação” não foi levantada contra ele.

Nesta sexta, o reitor Vahan Agopyan divulgou mensagem à comunidade na qual agradece “pelo transcurso tranquilo” do processo eleitoral. “Considero a ocorrência de poucas contrariedades, que não se avolumaram, como resultado da empolgação dos apoiadores”, escreveu, numa referência implícita ao episódio. “A partir de hoje, quero lembrar a todos que não há mais USP Viva e tampouco Somos Todos USP: agora é Viva a USP de todos nós!”, prosseguiu, no habitual tom ufanista.

A derrota de Hernandes e Cidinha, respectivamente vice-reitor e pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária em sua gestão, representa um revés no projeto de ascensão de Hernandes ao cargo máximo da USP — o professor integra a administração central da universidade desde 2014, quando assumiu como pró-reitor de Graduação na gestão M.A.Zago-V.Agopyan, chegando em 2018 ao cargo de vice-reitor.

Carlotti e Maria Arminda são nomes igualmente ligados às estruturas de poder da USP nos últimos anos. Integraram a gestão V.Agopyan-A.C. Hernandes, respectivamente como pró-reitor de Pós-Graduação e coordenadora do Escritório USP Mulheres. Carlotti também foi pró-reitor de Pós-Graduação em parte da gestão M.A. Zago-V. Agopyan. Maria Arminda atuou nas gestões de J.G. Rodas e M.A.Zago-V.Agopyan como pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária (2010-2015).

Leia íntegra da nota enviada às chapas pela Rede Não Cala! USP

“A Rede Não Cala USP, como movimento social aberto e suprapartidário dentro da Universidade de São Paulo, procurou ter uma postura isenta em relação às chapas concorrentes à Reitoria mantendo, inclusive, profícuos debates com ambas a respeito de nosso foco primário de atenção: as violências e desigualdades de gênero no ambiente universitário.

Por isso, não nos manifestamos até o momento da finalização das eleições, já que esta manifestação poderia ser considerada como apoio a uma das chapas. No entanto, o fazemos agora, passado o pleito.

Nesse sentido, lamentamos profundamente que a Chapa 2, Somos Todos USP, tenha veiculado, às vésperas da eleição, dúvidas sobre a viabilidade da candidatura da profa. Maria Arminda do Nascimento Arruda, candidata a vice-reitora pela Chapa 1.

Como defensoras intransigentes do direito das mulheres à equidade, lembramos que esse tipo de ação é muito comum quando se trata de mulheres que pleiteiam cargos públicos: mensagens intempestivas nas redes e não nos canais competentes, com clara possibilidade de desestabilização de candidaturas e eventual interferência nos resultados do pleito

A dúvida levantada pela Chapa 2 deveria ter sido manifestada em momento anterior e pelos dispositivos adequados. Esperamos, inclusive, que a Comissão Eleitoral tenha se posicionado a respeito, solicitando a retirada das mensagens das redes.

A profa. Maria Arminda teve sua candidatura aceita e tem o direito legítimo de pleitear a vaga. Dúvidas sobre sua permanência ou não após a aposentadoria compulsória não estão ancoradas em fatos precisos, uma vez que há interpretações jurídicas distintas. E, mesmo que no futuro essa possibilidade seja colocada, caso eleita, a candidata terá o direito de recorrer à justiça para se manter no cargo.

Consideramos a forma (redes sociais) e o momento como a dúvida foi levantada (vésperas do pleito) absolutamente inadequados, o que reforça posturas que têm afetado especialmente as mulheres em sua tentativa de ocupar espaços públicos.

Nos solidarizamos com a profa. Maria Arminda e com todas as mulheres que concorrem a cargos públicos e vivenciam constrangimentos, esperando que tais procedimentos não sejam naturalizados na Universidade de São Paulo.”