Nesta quarta-feira (8/12), o governador João Doria (PSDB) nomeou como reitor e vice-reitora da USP, respectivamente, Carlos Gilberto Carlotti Jr., docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), e Maria Arminda do Nascimento Arruda, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Ambos compunham a chapa “USP Viva”, a mais votada no colégio eleitoral de reitor-a (“Assembleia Universitária”), com quase 60% dos votos válidos, na eleição realizada em 25/11. A nova gestão deverá tomar posse em janeiro de 2022, com um mandato de quatro anos (até janeiro de 2026).
 
A decisão de Doria confirma as expectativas de Carlotti, que atribuiu aos apoiadores da chapa adversária — “Somos Todos USP”, de Antonio Carlos Hernandes e Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado — os boatos, anteriores à eleição de 25/11, de que o governador escolheria Hernandes ainda que ele obtivesse apenas o segundo lugar no colégio eleitoral.
 
Apesar de a escolha de Doria respeitar a vitória da dupla Carlotti-Maria Arminda na “Assembleia Universitária”, não devem ser  desconsiderados os limites impostos por um formato eleitoral oligárquico e antidemocrático: as e os eleitores da “lista dúplice” não passaram de 2 mil, numa comunidade de quase 100 mil pessoas.
 
A chapa eleita e agora nomeada por Doria ostenta vínculos com a gestão em fim de mandato, e igualmente com a gestão M.A. Zago-Vahan Agopyan (2014-2017). Carlotti foi pró-reitor de Pós-Graduação na gestão anterior e na atual. Maria Arminda é coordenadora do Escritório USP Mulheres e foi pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária na primeira metade da gestão de Zago.

Agenda da chapa nomeada diverge do programa da Adusp

“As duas chapas eram de situação, ainda que a candidatura vencedora na consulta e na assembleia universitária, agora nomeada pelo governador, tenha tentado se descolar da atual gestão. Tal deslocamento vinha acontecendo desde antes, quando a Pró-Reitoria de Pós-Graduação adotou algumas políticas que não se coadunavam com a forma como a Reitoria lidou com a pandemia, como a prorrogação de prazos”, comentou a professora Michele Schultz, presidenta da Adusp.
 
“Entendemos que o programa apresentado por Carlotti e Maria Arminda discrepa do programa da Adusp, especialmente no que diz respeito à democratização e financiamento. Embora o programa apresente a criação de uma Pró-Reitoria para tratar das questões de diversidade e inclusão, não encontramos concretude na proposta, especialmente com relação à participação e democratização nos órgãos de gestão”, diz Michele. “Carlotti e Arminda não souberam nos dizer como pretendem garantir a participação de mulheres, indígenas, pessoas negras, LGBTQIA+ e com deficiência. Ficamos com a sensação de que ainda estão na fase diagnóstica, ignorando que a USP tem 3% de docentes, 17% de servidora(e)s e 20% de estudantes que se autodeclaram pessoas pretas, pardas ou indígenas”, prossegue. “Não precisamos mais de diagnóstico! Precisamos de uma política de inclusão e permanência ousada e não nos pareceu, analisando o programa e a reunião que tivemos, que reitor e vice-reitora agora nomeados estejam com essa disposição”.
 
Outra diferença profunda entre o programa da nova gestão e a Adusp diz respeito à questão do financiamento da universidade. “Ficou muito clara a busca por financiamento privado, na forma de doações (ou endowment, como preferem anunciar) ou permitindo que docentes e funcionária(o)s se tornem empreendedora(e)s ou empresária(o)s. Basta ver a política de inovação aprovada no Co da semana passada. Isso é absurdo! A universidade pública deve ter financiamento público!”, enfatiza a presidenta da Adusp. “E esperamos que Carlotti e Maria Arminda cumpram seu compromisso de uma política salarial que garanta a reposição das perdas da última década e a valorização dos níveis iniciais da carreira”.