Luiz Hirata, ou Lua como era conhecido na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), completaria 77 anos hoje, 23 de novembro de 2021, se não tivesse sido brutalmente assassinado há cinquenta anos pelos aparelhos de repressão da ditadura empresarial-militar. Prestar homenagens e cultivar a memória de Luiz Hirata é fundamental para permitir que ele continue a inspirar e formar novos lutadores e lutadoras que não naturalizam a opressão e a exploração, que se dedicam a construir uma sociedade de liberdade e abundância para todos, não somente para uma pequena minoria.

Na atualidade, sua lembrança torna-se ainda mais importante, pois presenciamos um novo período de crescimento da extrema-direita e do fascismo em todo o mundo, vencendo eleições em diversos países, como Bolsonaro no Brasil. Essa onda reacionária carrega consigo o revisionismo histórico, a relativização da tortura e do assassinato de milhares de militantes e ativistas que lutaram por liberdade política, pela livre organização de estudantes/trabalhadores e por melhores condições de vida para as massas populares de nosso país. Tal revisionismo histórico não é uma questão de disputa apenas do passado, mas sobretudo um meio de reduzir a resistência para impor a ampliação dos aparelhos de repressão do Estado, seja através de um golpe, seja através de ações normativas e legais no curso normal de uma democracia de baixa intensidade.

Homenagear Luiz Hirata é uma vitória contra aqueles que lhe tiraram a vida, mas jamais puderam apagar as ideias e os atos deste enérgico e ousado esalqueano.

Hirata era filho de imigrantes japoneses e agricultores, nascido em Guaiçara (SP), tendo ingressado na Esalq em 1964, onde formou-se como engenheiro agrônomo. Ele inicia sua militância, segundo a documentação histórica consultada, já na universidade, quando participa do movimento estudantil e da Juventude Universitária Católica (JUC). É no Congresso da União Estadual dos Estudantes (UEE), realizado em São Bernardo do Campo em 1966, que Luiz Hirata é preso e fichado pela primeira vez pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), acusado de distribuir panfletos subversivos.

Em Piracicaba, Lua atuou com a alfabetização de jovens e adultos nas periferias, utilizando o método Paulo Freire. É fundamental contextualizar a tarefa histórica da qual participava Luiz Hirata, pois o Brasil, na década de 1960, possuía mais de 40% de analfabetos na população maior de 15 anos. O método Paulo Freire é concebido nesse contexto e expressa a relação entre as campanhas de alfabetização e a formação política das massas populares. Seu espírito se funda na ideia de vincular o saber ler e escrever com o transformar a realidade. Com efeito, trata-se de uma realidade que negava o acesso universal à educação e o direito de voto aos analfabetos — o sufrágio universal no Brasil seria reconhecido somente em 1988.

Lua não se dedicava somente à militância, mas também era engajado na universidade. Formou-se em 1968, mas apesar de compor a comissão de formatura de sua turma (F-68) não pôde participar de nenhuma cerimônia. Naquele momento, já sabia ser vigiado, correndo o risco de ser preso e torturado. Por esta razão, optou por não participar da formatura que ajudou a organizar. Cabe lembrar que, em 13 de dezembro de 1968, foi consumado o que se tornou conhecido como o golpe dentro do golpe, quando foi decretado o Ato Institucional nº 5, restringindo ainda mais as liberdades políticas, com a intensificação dos aparelhos de repressão com objetivo de perseguição a opositores e militantes de organizações estudantis, sindicais e partidos políticos.

É nessas condições que Hirata passou a atuar politicamente de forma clandestina, já como membro da Ação Popular (AP). Mudou-se para São Paulo, foi rebatizado como Maurício e começou a trabalhar como operário. Nesta nova ocupação e construindo ativamente a AP, Hirata, ou Lua ou Maurício, trabalhou para organizar os operários pela base, para enfrentar o “arrocho salarial”, tal como conhecida a política de desvalorização real do salário-mínimo imposta pela ditadura empresarial-militar. Hirata permaneceu do lado certo da história, engajado ativamente para sua construção de forma favorável aos despossuídos.

Convém salientar aqui que, por um lado, a repressão do regime havia realizado brutal intervenção nos sindicatos, prendendo, torturando e assassinando os diretores e militantes, o que impunha o exílio ou a clandestinidade como únicas alternativas para aqueles que se encontravam fora do cárcere. As direções sindicais foram reorganizadas pela ditadura empresarial-militar para neutralizar qualquer possibilidade de greve e mobilização dos trabalhadores. Nesse contexto, Hirata participa dos primeiros passos da Oposição Sindical Metalúrgica, atuando para reorganizar o sindicalismo pela base nos anos de chumbo da ditadura. Este trabalho de base teve continuidade com diversos outros militantes e foi essencial para a organização das Greves do ABC do final dos anos 1970, determinantes para o fim do regime ditatorial empresarial-militar.

Por outro lado, o arrocho salarial colocou o custo do “milagre econômico” dos anos 1970 sobre os ombros dos trabalhadores. Houve crescimento econômico, porém, com aumento expressivo da desigualdade social, ou seja, da exploração dos trabalhadores pelas classes dominantes, o que só foi possível com o aparelho repressor da ditadura. O salário-mínimo real era superior ao equivalente a mil reais (R$ 1.000,00) no início de 1964. Mas já no início dos anos 1980, passou a ser inferior a seiscentos reais (R$ 600,00). Outro dado importante sobre este período se refere à concentração de renda: o 1% mais rico da população brasileira, em 1964, detinha entre 15% e 20% do total da renda do país, mas no fim da ditadura, esta parcela passou a deter quase 30%.

Luiz Hirata atuava energicamente como ativista dedicado contra estas injustiças. Sua história deve ser lembrada e sua ação homenageada como meio para inspirar novos e novas militantes. Também, trata-se de uma forma para que ninguém esqueça o que foi a ditadura empresarial-militar, a quem beneficiou e em nome de que projeto prendeu, torturou e assassinou. O reavivar de sua memória serve para que nunca mais se repita tamanha repressão sobre pessoas tão valorosas, que dedicam a vida para construir uma sociedade igualitária. Como Hirata, lutam pela alfabetização e pelo acesso universal à educação. Como Hirata, lutam por melhores salários e contra a exploração do homem pelo homem. Como Hirata, lutam pela liberdade de expressão, pela liberdade política e de organização.

A fim de homenagear Luiz Hirata, em junho de 2020, entidades estudantis e sindicais da Esalq organizaram a Frente de Defesa da Democracia Luiz Hirata (FLH), composta pela Adusp, APG-Esalq, Calq, DCE Livre da USP e Sintusp. Em 2021, a FLH foi exitosa na reivindicação de que o Centro de Vivências do campus Luiz de Queiroz seja reconhecido oficialmente como “Luiz Hirata”, denominação utilizada pelos estudantes há mais de dez anos.

Ainda em 2021, a FLH publicará outro texto sobre a história de Luiz Hirata, por ocasião do cinquentenário de seu assassinato, que ocorreu em 20 de dezembro de 1971. Para 2022, a FLH está preparando atividades presenciais que busquem homenageá-lo, assim como lembrar dos cinquenta anos de seu assassinato e de sua história de engajamento por uma sociedade mais justa. De fato, em 2021, a preparação de atividades presenciais foi impossibilitada diante da catastrófica política genocida de Bolsonaro no enfrentamento contra a pandemia.

Luiz Hirata, presente! Hoje e sempre!

Viva os 77 anos de Luiz Hirata!

Frente de Defesa da Democracia Luiz Hirata

Utilizamos cookies

Utilizamos cookies neste site. Você pode decidir se aceita seu uso ou não, mas alertamos que a recusa pode limitar as funcionalidades que o site oferece.