No dia 20 de dezembro de 1971, o jovem Luiz Hirata, formado em Engenharia Agronômica na Esalq-USP, foi assassinado nos porões da ditadura. Em texto recente [1], a história de Hirata, apelidado de “Lua”, foi realçada por sua dedicação à alfabetização de jovens e adultos, ao seu apoio às lutas dos trabalhadores por melhores salários e ao seu engajamento por liberdades democráticas contra o regime ditatorial. Hoje, aos 50 anos de seu assassinato, o foco desta matéria se dirige ao martírio imposto a Luiz Hirata. Afinal, é preciso cultivar a memória, com suas tragédias e horrores, a fim de concretizar o mote: “para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”.

A anistia ampla geral e irrestrita praticada no Brasil serviu para desresponsabilizar torturadores e assassinos, além de erguer um grande tapume sobre as violências praticadas pela ditadura. Por esta razão, o trabalho de resgate da memória e de reivindicação por justiça é tão relevante, viabilizando, em alguma medida, que familiares e amigos descobrissem as verdades sobre os fatos que envolveram seus filhos, pais, mães e companheiros. Tratando especificamente do “Lua”, seus colegas da turma de Agronomia souberam a verdade sobre seu assassinato após mais de 40 anos, quando redigiam um livro, Memórias da A68 [2], sobre a turma que vivenciou os cinco primeiros anos da ditadura e formou-se no ano de instituição do AI-5:

Já concluindo a diagramação desta obra, lamentando não ter conseguido dispor de uma fotografia do Luiz Hirata para juntar-se a nós, [...] uma busca a familiares daquele colega, via Google, já tentada anteriormente, sem sucesso, acabou nos deixando estupefatos e arrasados. Não poderíamos, nesse “apagar das luzes”, deixar de compartilhar com os colegas a estarrecedora narrativa sobre as circunstâncias do assassinato do Hirata, que veio a lume com a matéria “Ação na Caminhada: Mortos na Tortura da Ditadura Militar”, postada na internet pelo esalqueano Tiago Valentim Georgette. O texto foi transcrito do livro Direito à Memória e à Verdade: comissão especial sobre mortos e desaparecidos políticos, da Secretaria da Presidência da República, publicado em 2007. […] Um encontro casual com o colega Garcia, já em 2010, nos esclareceu sobre a resolução deliberada do Hirata de não participar das festividades de colação de grau, mas, até então, muitos colegas supunham que a sua ausência decorrera de sua prisão e morte ainda em 1968. A realidade dos fatos veio com a documentação a nós facultada pela atual Diretoria da Escola, na qual se inclui o RECIBO do diploma assinado pelo colega no ano seguinte (19 de setembro de 1969), assim como seu Histórico Escolar completo. Contudo, o relato sobre as atrocidades contra ele praticadas, eivadas de requintes de crueldade e sadismo nas sevícias pelas quais passou [...] constitui um pesado fardo emocional que gostaríamos de dividir com os colegas nesse ‘Apagar das Luzes’. 

Nos dias atuais, colegas de Hirata exaltam sua dedicação às atividades do grupo de estudantes que realizou ações de alfabetização de jovens e adultos, com foco em trabalhadores rurais e cortadores de cana [3] no bairro Santa Terezinha, nos anos de 1967 e 1968: “firme na posição em defesa dos menos favorecidos”. Após o AI-5, foi impossível continuar tais atividades, tamanha a perseguição imposta pela ditadura a qualquer ação considerada suspeita de subversão da ordem. É nesse contexto que Luiz Hirata opta por não participar de sua formatura, mesmo tendo composto a comissão que preparou as festividades de colação de grau que aconteceram em janeiro de 1969.

A pesquisa de doutoramento de Rodrigo Molina, que em breve será publicada em formato de livro [4] contando com o apoio da Frente Luiz Hirata, foi fundamental para trazer luz a fatos marcantes dos últimos anos de vida do “Lua”. A decisão de não participar das festividades de sua formatura foi uma medida de preservação da vida, pois já era notório naquele período que estava sendo perseguido e que poderia ser preso a qualquer momento. Entre as situações bizarras, destaca-se uma tentativa de interná-lo a partir de um suposto diagnóstico de “loucura” e “doença mental”.

Em 2013, por meio de um depoimento colhido para essa pesquisa de uma ex-namorada de Hirata, que não quis se identificar, antes da formatura do seu companheiro movimentações suspeitas ocorriam para caçar Hirata. Segundo a ex-namorada, a movimentação mais estranha foi no dia em que uma ambulância estacionou em frente à sua casa. Ao atender os chamados da campainha, se deparou com dois homens que estavam trajando indumentárias médicas: jaleco branco, luvas e máscara cirúrgica. Assustada, foi informada pelos supostos agentes da saúde que precisavam internar Luiz Hirata, pois o estudante havia sido diagnosticado como “louco” e, portanto, deveria ser recolhido para tratamento clínico de sua “doença mental”.

Hoje, é possível reconhecer que a ditadura utilizou a internação psiquiátrica como método para restringir a liberdade de militantes políticos que fizeram oposição ao regime ditatorial. Há materiais, mesmo na grande mídia, que indicam o uso desse método [5], elaborados a partir dos relatórios da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo.

A fim de escapar da perseguição e seguindo as orientações de seu partido, a Ação Popular (AP), Hirata mudou-se para São Paulo, assumiu a identidade de “Maurício” para despistar os aparelhos de repressão e passou a trabalhar como operário. Foram quase três anos trabalhando como metalúrgico, passando por diferentes empresas, vivendo períodos de desemprego, formando-se tecnicamente para ter mais estabilidade e construindo ativamente seu partido, como relatou Antônio Prado de Almeida [3]:

Ainda com o pouco tempo que lhe sobrava, fazia as atividades do partido, como encontro com outros trabalhadores e simpatizantes da AP em vários locais da cidade de São Paulo. No ano de 1917, o então operário Albino Barzi, que trabalhava como conferente de peças na fábrica Volkswagen, no bairro Ipiranga, conta que Luiz reunia-se mensalmente com ele e com outros colegas para realizar reuniões políticas.

Em 26 de novembro de 1971, Hirata é capturado pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, do Departamento de Ordem Política e Social (DEOPS), um dos principais torturadores e assassinos que o regime ditatorial produziu. Sergio Fleury foi o assassino de Carlos Marighella e de diversos outros militantes que, como Luiz Hirata, sofreram tortura até a morte.

O cinismo dos médicos e dos cães de guarda da ditadura frente às atrocidades praticadas também foi evidente na morte de Hirata. O médico legista Harry Shibata, que tornou-se conhecido por assinar o laudo que descreveu a morte de Vladimir Herzog como suicídio dentro da cela em que estava preso, registrou que Luiz Hirata “haveria colidido com a traseira de um ônibus quando tentava fugir da polícia correndo a pé em alta velocidade”. Em sua ficha hospitalar ainda constava que se tratava de um “terrorista”. O companheiro de cela de Luiz Hirata esclareceu junto à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos [6] o que realmente ocorreu, provocando sua internação no Hospital das Clínicas em 16 de dezembro de 1971:

Heládio José de Campos Leme, preso político no DEOPS/SP, conviveu ali com Luiz Hirata cerca de duas semanas. Ficaram na mesma cela. Acompanhou, dia a dia, o agravamento do seu estado de saúde, testemunhando que ele voltava dos interrogatórios carregado pelos policiais. Era Heládio quem carregava Luiz até o sanitário da cela. “Seu rosto ficou tão inchado que ele não podia abrir os olhos. Chegou um momento em que ele não mais urinava nem comia: foi quando o levaram, quase inconsciente.

Luiz Hirata foi perseguido, preso, torturado e assassinado porque alfabetizava trabalhadores rurais, porque participava ativamente do movimento estudantil, porque debatia política e porque lutava pela organização dos trabalhadores com vistas a melhores condições de trabalho. Luiz Hirata era um militante político engajado por uma sociedade sem desigualdade. A propósito, o livro Um tempo para não esquecer: ditadura, anos de chumbo, de Antonio Prado de Andrade, apresenta detalhes dos mais contundentes desta militância. Por mais triste e duro que seja divulgar a verdade sobre sua vida e sobre as condições de sua morte, esta comunicação é fundamental para impedir que a trágica história de Luiz Hirata, o Lua, possa se repetir. Assim, é essencial que Hirata seja reconhecido como uma daqueles que lutaram pelo “justo, pelo bom, pelo melhor do mundo”, como escreveu Olga Benário. 

Luiz Hirata foi assassinado, mas seus ideais permanecem vivos e suas ideias necessárias. 

Viva Luiz Hirata! Presente hoje e sempre!

 

Referências Bibliográficas

[1] https://www.adusp.org.br/index.php/ditadura-militar/4325-l-hirata

[2] Memórias da A68. Organizadores: Carlos Roberto Espindola, Sheila Zambello de Pinho, Sonia Maria Pessoa Pereira Bergamasco. Campinas: Autores, 2010.

[3] Antonio Prado de Andrade, dedica um capítulo a Luiz Hirata no livro Um tempo para não esquecer - ditadura: anos de chumbo, em que conta as experiências enquanto estudante e como militante da Ação Popular (AP).

[4] A obra Agro, Ditadura e Universidade: ESALQ/USP e a modernização conservadora (1964 a 1985) tem previsão de lançamento no primeiro semestre de 2022. 

[5] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2021/06/14/ditadura-militar-presos-politicos-internacao-manicomios.htm

[6] Direito à verdade e à memória: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Brasília : Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2007 400p. Disponível em: <https://www.gov.br/mdh/pt-br/centrais-de-conteudo/memoria-e-verdade/direito-a-memoria-e-a-verdade-2013-comissao-especial-sobre-mortos-e-desaparecidos-politicos/view>. 

 

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