Neste artigo a professora Elizabete Franco Cruz, coordenadora do Núcleo de Acolhimento Universitário da EACH, propõe uma reflexão sobre a dolorosa questão dos suicídios na universidade. Ela sugere uma profunda reformulação da cultura institucional da USP hoje ancorada numa visão de mundo neoliberal, meritocrática, que gera competição e opressão ao invés de solidariedade e por outro lado destaca que é urgente a implantação de respostas mais estruturadas da Reitoria às demandas de sofrimento psicossocial

A Universidade de São Paulo, assim como outras universidades, tem sido impactada pela ocorrência de suicídios de estudantes, funcionários (as) e docentes. O assunto causa dor, constrangimento, medo, insegurança e por isso pouco falamos do tema, ou falamos pontualmente após algum suicídio ou no “setembro amarelo”.

Como docente tenho me confrontado com esta temática ao longo da minha vida acadêmica, especialmente nos últimos anos. Foram muitas as histórias que vivi ou ouvi. E, em todas elas, testemunho a presença de uma dor tão intensa que levou alguém a se machucar e a pensar em ceifar a própria vida.

Dos episódios mais tristes que carrego na memória está a experiência do acolhimento que fiz para uma mãe, em 2019, no velório do seu filho. No auge do desamparo a mãe agarrava-se com muita força ao meu corpo e me perguntava em prantos: “Por que, professora?”. Eis que eu, no meu corpo de mulher-ser humano-professora, não tinha respostas para aquela mãe em desespero. E nem para os outros corpos-palavras-olhares de estudantes, professores(as) e funcionários(as) que buscavam no contato comigo alguma resposta.

Esta pergunta é o que resta após cada suicídio e as respostas nos levam a explicações diversas, todas elas vindas de nós, e não da única pessoa que poderia dizer algo a respeito, mas já não está mais aqui para responder.

Aprendi com a psicóloga Karina Fukumitsu que os motivos estão com quem partiu, não poderemos saber. E, diante disso, um cuidado importante é não especularmos sobre aquilo que não sabemos. Por mais que tenhamos informações, hipóteses, suspeitas, o fato é que não sabemos.

Entretanto, com frequência as pessoas próximas, buscam respostas e oscilam numa analítica binária: a pessoa se matou porque tinha uma doença, dessas descritas em manuais de psicopatologia; ou a pessoa se matou por culpa de algum agente externo — namorado(a), amigo(a), chefe, pai, mãe, professor(a) ou até mesmo governo ou universidade. E a questão da culpa é algo muito importante de ser debatido neste contexto, porque culpa é um sentimento muito comum após um suicídio. O que habitualmente se pensa é que alguém há de ser o(a) culpado(a) pelo tamanho daquela dor, ou todos(as) somos culpados(as) por não termos ajudado o suficiente.

Porém, a questão é muito mais complexa do que uma explicação linear de nexo causal, do tipo A conduz a B. O fenômeno do suicídio é multifacetado e nossa vida psíquica é um rizoma de muitas influências de nossa história pessoal e coletiva, passando por características individuais e pela cultura e sociedade em que vivemos.

Neste sentido, me afasto de leituras que sintetizam algo como “a Universidade (ou alguém) matou aquela pessoa”. Este tipo de análise não contempla a complexidade que mencionei acima.

No entanto, se não podemos (cada um de nós, e as instituições), ser culpabilizados pela perda de vidas, isto não quer dizer que não tenhamos nada a fazer diante deste cenário ou que não façamos parte dessa história.

É bastante limitado lamentarmos nossas perdas, sem fazermos uma análise profunda e incisiva dos processos de sofrimento vivenciados pelas pessoas da comunidade acadêmica e das responsabilidades condizentes com uma instituição do porte da Universidade de São Paulo.

Penso que esta analítica precisa interpelar os caminhos institucionais e seguir uma dupla injunção. Por um lado há que se pensar como a própria universidade como participante da biografia de seus(suas) integrantes se engendra num emaranhado de produtora de subjetividades e de sofrimentos e, por outro lado, há que se pensar em termos da existência de políticas institucionais voltadas para esta temática.

A primeira dimensão envolve o fato de que precisamos de uma revolução copernicana em diferentes dimensões da cultura institucional. A “melhor” universidade da América Latina, a “maior” Universidade do Brasil é de uma fragilidade flagrante no aspecto que aqui discuto. E este ideal de superioridade nos coloca uns(umas) contra outros(as) e faz, por exemplo, a progressão na carreira se transformar numa competição entre colegas. Observamos por vezes critérios de avaliação neoliberais, míticos e inatingíveis — para não dizer cruéis — que circulam desde a avaliação docente até a sala de aula, gerando opressão. A saúde se faz também com mudanças na produção da vida. É preciso que produzamos uma vida menos competitiva e mais solidária. Há um gozo de uma superioridade falaciosa que se calca na ideia de superioridade de uns em detrimento da incompetência de outros(as). Nada mais colonizador do que isso. Falamos tanto de processo civilizatório, mas o próprio processo civilizatório precisa se repensar, fundando-se numa visão única de mundo e civilização. Engendrado nos fios deste desolador contexto estão os preconceitos de raça/etnia, de gênero, de orientação sexual, classe, idade e religião que recrudescem os sofrimentos existentesi.

Fazemos parte de uma máquina de moer gente, uma instituição hegemonicamente meritocrática e burocrática que mal se pergunta o que fará quando atingir o topo dos rankings. Ou, dito de outro modo, não se pergunta: qual é o sentido de ser ou se sentir melhor do que algo ou alguém? E, além de tudo, não reflete sobre a finitude das pessoas (o que poderia fazer ver a vulnerabilidade da condição humana, diminuir a ideia de superioridade) e é incapaz de contar ou honrar suas mortas e seus mortos na pandemia.

Podemos ser mais que do que isso, tenho esperanças. Precisamos de respostas institucionais, de uma política institucional séria, com investimento em profissionais e o desenho de diretrizes de cuidado e promoção à saúde. Mas também precisamos, nós como parte da instituição, estarmos atentos(as) para não reproduzirmos uns com os(as) outros(as) a violência que está posta como norma.

Com relação à segunda injunção, penso que as respostas da USP para a questão do sofrimento psicossocial têm sido muito precárias. Basicamente o que existe são os serviços prestados pelo Instituto de Psicologia (em grande parte desenvolvidos por estágios), o Centro Saúde Escola Butantã e o Hospital Universitário. Na Escola de Artes, Ciências e Humanidades temos o NAU-Núcleo de Acolhimento Universitárioii. Todas estas instâncias funcionam e cumprem papel importante, mas com bastante fragilidade, especialmente ligada à falta de recursos humanos e de maior articulação com a rede do Sistema Único de Saúde (SUS), tão precarizada pelo atual governo. Temos pouquíssimas portas abertas para o acolhimento e, quando a comunidade precisa de um atendimento mais continuado no âmbito da psicologia ou da psiquiatria, encontrar apoio é algo bastante difícil. Não temos, por exemplo, uma porta aberta de psiquiatria para comunidade e agendamentos desta especialidade no Hospital Universitário são quase como jogar na loteriaiii.

A criação do Escritório de Saúde Mental foi uma resposta bastante protocolar, inclusive ao eleger a ideia de um escritório como espaço que poderia ser de cuidado. Esta ação tinha muito foco em pesquisa, perspectiva psicopatologizante e a e ideia de cuidado seguiu sem desenho de uma política institucional sólida, com diretrizes e investimentos.

O que acontece hoje na USP, e que evita uma tragédia maior que os tristes episódios que já vivemos, é o esforço das pessoas — docentes, estudantes e funcionários(as) — no cuidado mútuo. Para algumas pessoas, mais acolhedoras e portanto mais demandadas, a falta da instituição vira um peso e uma preocupação/responsabilidade, de tentar ajudar quem está sofrendo. Solidariedade e boa vontade são importantes, mas uma instituição de ensino do porte da nossa não pode sobreviver assim.

A volta às aulas num cenário ainda pandêmico configurou um contexto em que parece que temos a presença de três turmas de ingressantes em único ano. Isso implica muitas adaptações, desde saída do cursinho e do ensino médio até mudanças de endereço e afastamentos familiares. Além disso, a pandemia deixou rastros de adoecimentos, dor com lutos decorrentes de perdas — e todos(as) nós temos uma adaptação coletiva à convivência com outra rotina cotidiana. Nossos corpos vivem readaptações que vão desde o abandono dos chinelos à possibilidade de assédio no transporte público. Tudo isso acrescido por um cenário de guerras e incertezas.

Se a volta ao presencial trouxe a grande alegria do reencontro (me senti radiante como menina indo para a escola!), a recuperação de melhores condições de aprendizado, ela trouxe à tona a ferida aberta da falta de espaços institucionais de acolhimento e cuidado.

Sei que a nova gestão reitoral pensa em propostas, mas há urgência e é preciso acelerar ações nesta área antes que todos(as) estejamos chorando novamente, como recentemente estivemos. Creio que precisamos de diretrizes nítidas de uma política institucional de saúde que inclua o sofrimento psicossocial, seu acolhimento e fluxos definidos e articulação em redes de cuidados. E muita arte, cultura, projetos e espaços de participação e promoção de vida e saúde.

Mesmo as respostas muito qualificadas podem não impedir o suicídio. Contudo, a inexistência de respostas institucionais e a manutenção de uma cultura institucional similar à da família maravilhosa, que esconde as sujeiras debaixo do tapete, não nos ajudam a enfrentar os problemas de frente e ofertar amparo e diminuir o sofrimento.

Para finalizar, digo que ressoam em mim várias questões. Quando seremos capazes de produzir uma vida com mais sentido? Uma vida de trabalho e estudo que se distancie da opressão e valorize nossas diferenças, potencialidades, pluralidades e experiências? Quando teremos uma política institucional de cuidado e acolhimento, estruturada em rede e com recursos adequados? Quando?

Não tinha respostas para a mãe do nosso aluno. Entretanto, sei que com muita precariedade temos ofertado algumas respostas para que não tenhamos que formular indagações como a que ela me fez. Melhor seria que — como sociedade, instituições e pessoas — pudéssemos fazer interpelações sobre éticas e estéticas das existências para evitar questões tão profundamente dolorosas quanto aquela que ouvi da mãe do nosso aluno. Façamos nossas perguntas para produzir uma vida com sentido e não para chorar uma morte em que o sentido nos escapa.

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Se você ou alguém que você conhece precisa de apoio, busque ajuda:

CVV 188

https://mapasaudemental.com.br/

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i Produzi um texto em parceria com professoras de várias unidades que explora questões como as que aqui sinalizo. O que destaco e seria digno de outro texto é a reflexão a respeito do quanto as instituições nos atravessam produzindo modos de pensar e de ser/estar no mundo, normativas e mecanismos que são mobilizadores de saúde/adoecimento.

ii Importante pensar o interior e suas respostas. Com frequência a EACH e o interior são deixados de lado nas considerações das prioridades.

iii Sou psicóloga social, do campo da saúde coletiva e com perspectiva da luta anti-manicomial. Portanto, não estou defendendo a medicalização ou psicopatologização de sofrimentos que tem tramas sócio-culturais/institucionais. O que digo é que por vezes este cuidado é necessário, mas inexistente. Os agendamentos de psiquiatria no Hospital Universitário dependem de entradas permanentes no sistema para verificar quando estão abertos os agendamentos das consultas. Uma pessoa em sofrimento, ou vivendo um momento de desorganização, tem pouco ânimo para acessar um serviço assim e a dificuldade acaba desmotivando, indo na contramão do trabalho que o acolhimento fez para motivar a busca de ajuda qualificada.

 

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