Entre 31/3 e esta quarta-feira (7/4) faleceram Antonio Brancaglion, Lineide do Lago, Esmeralda Blanco, Ana Maria Marangoni, Neli de Mello-Théry e Alfredo Bosi. Lineide, Ana Maria e Bosi foram vítimas da Covid-19. Neli lecionava na EACH e todos os outros na FFLCH 

A USP perdeu nos últimos dias seis docentes de trajetória acadêmica e profissional respeitada e cujo legado é lembrado por familiares, colegas, amigos e discentes. O nome mais conhecido dentro e fora da universidade é o do professor Alfredo Bosi, falecido nesta quarta-feira (7/4).

Também nos deixaram as professoras Neli Aparecida de Mello-Théry, Lineide do Lago Salvador Mosca, Ana Maria Marques Camargo Marangoni, Esmeralda Blanco de Moura e o professor Antonio Brancaglion. Foram expoentes de suas respectivas áreas e responsáveis por relevantes contribuições ao conhecimento científico. A seguir um breve registro de suas atuações.  

Neli Aparecida de Mello-Théry

Maria Leonor de Calasans/IEA

Neli Aparecida de Mello-Théry

Neli Aparecida de Mello-Théry faleceu nesta terça-feira (6/4), vítima de câncer, em Paris, onde vivia com o marido, o pesquisador emérito do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) Hervé Théry, professor visitante do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Geógrafa formada pela Universidade Federal de Goiás (UFG) em 1978, Neli fez mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília (UnB) e na Université de Paris Ouest-Nanterre-La Defense, e doutorado na mesma universidade francesa e em Geografia Humana pela USP.

Lecionou na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) desde a sua criação, em 2005, e na unidade foi também coordenadora do bacharelado em Gestão Ambiental e vice-diretora (2014-2018). A professora “teve papel fundamental para o desenvolvimento da EACH”, ressalta nota publicada nesta terça pelo site da unidade.

Neli de Mello-Théry foi também professora visitante nas Université de Paris X, Nanterre, Université de Rennes 2 e na Université Paris Sorbonne-Nouvelle. Coordenou o Grupo de Pesquisa Políticas públicas, territorialidades e sociedade do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP e publicou livros como Território e gestão ambiental na Amazônia: terras públicas e os dilemas do Estado e Políticas territoriais na Amazônia. Atuou ainda, nas décadas de 1980 e 90, em órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Ministério do Meio Ambiente e no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Para o professor Wagner Costa Ribeiro, docente do Departamento de Geografia da FFLCH, Neli “deixa, sobretudo aos familiares e amigos, a lembrança de seu sorriso leve aliado a uma enorme disposição para o trabalho e o convívio social”.

Lineide do Lago Salvador Mosca

Reprodução

Lineide do Lago Salvador Mosca

No último sábado (3/4), faleceu a professora Lineide do Lago Salvador Mosca, docente do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas (DLCV) da FFLCH, vitimada por complicações decorrentes da Covid-19.

Lineide realizou seus estudos da graduação ao doutorado na USP e fez também pós-doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales e na Sorbonne Nouvelle Paris III, na França. Entre os seus projetos de pesquisa estava o de “Retórica e Argumentação: exame de procedimentos discursivos”. Desde 2012 atuava no DLCV como professora sênior.

A docente coordenava na FFLCH o Grupo de Estudos de Retórica e Argumentação (Gerar), criado em 1994. Os integrantes do grupo publicaram ainda no sábado uma nota intitulada “Retórica a meia luz - Nossas palavras de adeus”. O texto diz: “Nós, que lidamos com Retórica, como vamos utilizá-la para descrever tamanha perda, tamanha dor? A perda de nossa tão querida mentora, nossa querida professora Lineide do Lago Salvador Mosca, por essa doença que assola o planeta, nos machuca, nos faz sofrer, nos deixa desolados. Pedimos forças a Deus nesse momento e pedimos ao Senhor, com ardor, que console a família, com a qual nos solidarizamos profundamente”.

O DLCV expressou seu “profundo pesar a todos os familiares, colegas, amigos, orientandos e orientados que a admiravam e a amavam”. A Sociedade Brasileira de Retórica, da qual Lineide era sócia honorária, publicou nota na qual lamenta o falecimento da professora, que “sempre contribuiu para o campo da retórica e da educação em nosso país”.

Em artigo intitulado “O discurso presidencial”, publicado no Jornal da USP em outubro de 2019, a professora analisou os pronunciamentos de Jair Bolsonaro, os quais “denotam ausência de argumentação dialógica, que é um modo de gestão discursiva do desacordo e do conflito”, definiu.

“O baixo calão na linguagem não é bem-vindo e muito menos as esquisitices escatológicas [...]. Essas só servem para gerar chacota e desprestígio, explorados abundantemente pelos cartunistas e articulistas de humor”, apontou. “O sistema democrático nos coloca diante dessas situações por vezes aberrantes, que incluem as meias-verdades, as falsidades, a hipocrisia, os enganos e os equívocos, mas nos cabe encará-las e não deixar que estratégias diversionistas retirem o foco das questões vitais.”

Ana Maria Marques Camargo Marangoni

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Ana Maria Marques Camargo Marangoni

Nesta segunda-feira (5/4), faleceu aos 78 anos, em decorrência de complicações da Covid-19, a professora Ana Maria Marques Camargo Marangoni, docente aposentada do Departamento de Geografia da FFLCH, no qual seguia atuando na pós-graduação.

Ana Marangoni graduou-se em Geografia em 1966 e doutorou-se também na USP em 1983. Trabalhou na universidade inicialmente como auxiliar de geógrafo, depois geógrafa, coordenando o Laboratório de Geografia Humana até 1986, e como professora doutora a partir de 1991.

A Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia publicou nota de pesar na qual registra que Ana Marangoni atuou na área de Planejamento Urbano e Regional e teve sua carreira marcada pela formação de inúmeros geógrafos nessa área. “Colaborou com inúmeras instituições públicas de pesquisa, prefeituras, universidades e órgãos de planejamento na consolidação de projetos de intervenção, planejamento e formação de pessoal no âmbito da gestão pública” e deixa um legado “como uma das pioneiras na aplicação da ciência geográfica em planejamento e políticas públicas, bem como um exemplo de dedicação, generosidade e rigor científico”, diz a associação.

Em sua página no Facebook, Maria do Céu de Lima, docente da Universidade Federal do Ceará e orientanda de Ana Marangoni no doutorado, registrou que, para além de seu trabalho na formação de alunos e pesquisadores, a professora sempre acreditou “na força do conhecimento para a transformação da realidade social”.

Esmeralda Blanco de Moura

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Esmeralda Blanco de Moura

Faleceu no último dia 3/4 a professora Esmeralda Blanco de Moura, docente aposentada do Departamento de História da FFLCH, unidade na qual foi também coordenadora do Programa de Pós-Graduação em História Econômica.

Esmeralda concluiu graduação (1971), mestrado (1977) e doutorado (1984) na USP, passando a lecionar na universidade em 1986.

A professora desenvolvia projeto de pesquisa individual relacionado à história da infância na cidade de São Paulo, área na qual era especialista. Também dedicou-se a temas como história da adolescência e da juventude e história da mulher. Coordenou o Grupo de Trabalho de História da Infância e da Juventude da Associação Nacional de História (Anpuh) desde a sua criação, em 2013, até julho de 2019. Também foi uma das fundadoras da Red de Estudios de Historia de las Infancias en America Latina (Rehial), criada em abril de 2014.

Em entrevista concedida à Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) em 2016, Esmeralda Moura falou sobre o trabalho infantil na Primeira República, afirmando que em 1910 cerca de 30% da força de trabalho nas fábricas de tecidos na cidade de São Paulo era constituída por crianças de 7 a 14 anos de idade.

A discussão sobre o tema atravessou o século 20 e ainda hoje está implantada, disse a professora. Durante a Primeira República, havia vozes que se colocavam fortemente contra essa realidade, mas existia também entre os empresários um discurso que escamoteava os seus próprios interesses e defendia que o trabalho infantil era positivo porque “impedia essas crianças de ficarem nas ruas”.

“Além de sua importante trajetória como professora e pesquisadora, lamentamos a perda humana, pela profunda gentileza e delicadeza que sempre votou a colegas, alunos e funcionários”, divulgou em nota o Departamento de História da FFLCH. O GT de História da Infância e da Juventude da Anpuh lamentou a morte da docente, dizendo que Esmeralda “deixa um legado intelectual e político de referência para pesquisadoras/es no Brasil e na América Latina”.

Antonio Brancaglion Junior

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Antonio Brancaglion Junior

Faleceu no dia 31/3 o egiptólogo Antonio Brancaglion Junior, professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisador visitante no Institut Français d’Archéologie Orientale do Cairo e professor e orientador da área de Estudos Árabes do Programa de Pós-Graduação em Letras Estrangeiras e Tradução da FFLCH.

Um dos poucos egiptólogos brasileiros, Brancaglion fez mestrado (1993) e doutorado (1999) em Antropologia Social na FFLCH e foi curador da coleção egípcia do Museu Nacional, onde lecionava desde 2002. A instituição divulgou nota na qual lamenta a morte do professor, “responsável pela consolidação dos estudos sobre o Egito Antigo, Arqueologia Egípcia, crenças funerárias egípcias, arte egípcia e mumificação, projetando o Museu internacionalmente neste campo”.

“Seu legado continua vivo em suas publicações, pelo Laboratório Seshat [do MN/UFRJ] e por meio dos diversos profissionais que ele formou e inspirou pelo mundo com sua dedicação e entusiasmo em compartilhar seus conhecimentos”, prossegue o comunicado.

O Laboratório do Antigo Oriente Próximo (LAOP), vinculado ao Departamento de História da FFLCH, também divulgou nota na qual lamenta o falecimento do professor, “que muito contribuiu para a Egiptologia no Brasil”, e envia as condolências aos amigos, familiares e alunos de Brancaglion.