“Conhecimento científico, visão humanística e interesse pelo Brasil são três dimensões que a Universidade pode e deve abranger”, disse o professor Alfredo Bosi na abertura do 4º Congresso dos Estudantes da USP, na Faculdade de Direito, em 1997. Bosi, falecido na semana passada aos 84 anos, homenageou em sua fala o “estudante-cidadão” Alexandre Vannucchi Leme, do Instituto de Geociências, assassinado pela Ditadura Militar em 1973. Leia a seguir a íntegra da alocução — recém recuperada por Hélade Scutti Santos, ex-diretora do DCE-Livre da USP “Alexandre Vannucchi Leme” — na qual o professor aborda temas como a luta contra a ditadura, os desafios da consolidação da democracia e a realidade do país no sistema das relações econômicas internacionais


É uma honra participar desta sessão de abertura do Congresso dos Estudantes da USP promovido pelo DCE-Livre “Alexandre Vannucchi Leme”. Faço-o na qualidade de professor de nossa universidade há quase quarenta anos e, embora não tenha recebido delegação de meus colegas para representá-los neste ato, posso afiançar que são numerosos os docentes que partilham dos ideais de solidariedade e interesse pelo ensino e pela coisa pública, quaisquer que sejam as tendências ideológicas ou as siglas partidárias que perfilhem.

Estas palavras iniciais de simpatia pelos valores que presidiram à fundação do DCE-Livre poderiam soar como pura retórica se não lembrássemos que o nome desta agremiação está ligado, de maneira indissolúvel, ao espírito que o anima. O DCE-Livre chama-se, desde a sua fundação em 1976, “Alexandre Vannucchi Leme”.

É um nome-símbolo, um nome imantado pela memória de lutas, de repressão, de sangue, de morte, mas sobretudo de resistência.

Na manhã de 16 de março de 1973 um estudante do 4º ano de Geologia da USP, chamado Alexandre, e que contava apenas 22 anos de idade, foi preso e torturado por agentes da Operação Bandeirante em São Paulo. As torturas prolongaram-se até pouco depois do meio-dia, em seguida Alexandre foi encerrado na cela forte. Por volta das 17 horas o carcereiro foi retirá-lo da cela para levá-lo a mais uma sessão de tortura. Alexandre não respondia aos gritos do carcereiro que, intrigado, entrou na câmara negra e constatou que o preso estava morto. Os torturadores acorreram então para ver o corpo de Alexandre e o retiraram da cela forte arrastando-o pelas pernas. A cena, assistida por todos os demais presos, era lancinante e brutal. Alexandre sangrava intensamente na região do abdômen.

A covardia não parou aí. A família só foi notificada da prisão de Alexandre quatro dias depois de sua morte, por um telefonema anônimo. Quanto ao corpo, foi enterrado como indigente no Cemitério de Perus, sem caixão, em cova rasa, junto à terra para que a decomposição fosse acelerada e apagadas as marcas das sevícias que o levaram à morte.

No dia 30 de março de 73 foi celebrada missa na Catedral da Sé, por D. Paulo Evaristo Arns, com a presença de 3.000 pessoas. O policiamento era ostensivo, o que posso testemunhar, porque assisti à cerimônia.

Vejam o quanto a história do DCE-Livre está intimamente vinculada à memória deste estudante. Três anos depois de sua morte, em 76, o nome de Alexandre foi escolhido para batizar o órgão máximo dos estudantes da USP.

Em 83 reúne-se um Congresso de Estudantes, o último promovido pela agremiação. A época era fervilhante, celebrava-se a agonia da ditadura com a expectativa das eleições diretas. Comícios gigantescos uniam todas as forças progressistas da nação e exigiam a volta do regime democrático. E, tornando à memória do nosso Alexandre, só neste ano de 83 é que os seus restos mortais puderam ser transladados da cova de indigentes em Perus para sua terra natal, Sorocaba.

O jovem assassinado pela ditadura parecia reviver e regressar junto a seus pais e amigos. O povo que ele tanto amara despertava cheio de esperanças que, se em parte se frustraram, pois a Câmara não aprovou a Emenda das Diretas, em parte se realizaram, porque em 84 se elegeu um presidente civil, Tancredo Neves. Com esse ato pode-se dizer que o regime, instalado fazia vinte anos, fora institucionalmente abolido.

Reúne-se agora, de novo, um congresso da USP. O Brasil vive um regime formalmente democrático tendo suas instituições políticas e jurídicas em funcionamento, a imprensa formalmente livre e uma universidade na qual a pesquisa e a docência estão franqueadas ao empenho e ao mérito de quantos a integram.

Entretanto, as grandes perguntas, a que este Congresso se propôs responder ou, ao menos, formular, repontam como em 76 e em 83. O que fazer hoje? Que rumos tomar?

Essas não devem ser apenas as questões dos jovens; também nós, que percorremos boa parte do caminho, devemos junto com vocês fazer repetidamente as perguntas: qual é o rumo certo? O que escolher como prioridade? O que preterir, o que descartar como peso morto?

Nos anos 50 e 60 estávamos todos embarcados no projeto de desenvolvimento nacional. Sabemos hoje que o clima promissor daquela época arrefeceu, principalmente a partir dos anos 80, com a década perdida, que viu estagnarem-se quase todos os países do Terceiro Mundo. A chamada “globalização” serviu a muitos como pretexto para frear ou mesmo paralisar iniciativas internas, como se tudo dependesse de capitais e tecnologias de fora, e nada da inventividade, dos esforços ou da poupança interna. No entanto, há sinais de vida e de resistência em vários setores e particularmente nesta universidade onde a pesquisa, a docência e a multiplicação dos serviços à comunidade mostram o quanto é possível empreender com recursos exíguos mas muita boa vontade.

De todo modo, as perguntas estão de pé. E para tentar responder a elas, volto, neste momento, a explorar os corredores tantas vezes mal iluminados da memória. A memória é, na metáfora corpórea de Santo Agostinho, o ventre da alma. Lembrar é saber de cor. Cor é coração. É o coração que lembra primeiro. Mas cor é também a raiz da palavra coragem.

Memória, sentimento e coragem são palavras imbricadas.

Entre 70 e 73, nos anos negros, o que se propunha fazer um estudante universitário resistente? Li com atenção a biografia de Alexandre, que está impressa no Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos a partir de 1964, recentemente editado pelos governos de São Paulo e de Pernambuco. Uma biografia breve, como foi breve a sua passagem pela vida. Mas intensa.

E dessa narrativa desejo destacar quatro aspectos da sua atitude como estudante e como cidadão, ou, para dizer melhor, como estudante-cidadão. Até que ponto os caminhos que ele escolheu e trilhou com tanta firmeza seriam os nossos rumos? Em primeiro lugar, encontro a imagem do estudante concentrado na sua própria vocação e futura profissão. Alexandre entrou para o curso de Geologia passando em primeiro lugar no vestibular. Há um sinal de garra neste fato. O ideal revolucionário do jovem universitário não o eximia da responsabilidade fundamental de estudar, que era a sua identidade primeira. Um militante negligente, que despreza o estudo e o saber, será sempre um parlapatão, um frasista que não merece respeito da sociedade que o sustenta através de uma escola pública. O empenho na pesquisa, a competência com que o estudante se prepara para o exercício da sua profissão, a idoneidade intelectual são, ainda e sempre, a marca da identidade do universitário. Uma escola superior onde não se leva a sério a busca do conhecimento não é uma coisa séria, mas um ente parasitário no corpo da comunidade a que ela deveria servir. O que parece óbvio, mas é preciso começar enfrentando o óbvio.

Dar consistência cada vez maior aos nossos cursos de graduação; alongar, até o limite do possível, o alcance das nossas pós-graduações; enriquecer os nossos acervos, animar nossas bibliotecas (e não apenas informatizá-las), prover nossos laboratórios, desburocratizar os percursos do estudante e do professor: eis o que se pode e se deve fazer sem desalento nem pessimismo; ao contrário, olhando o muito que já se construiu e o muito que está à nossa frente, por fazer.

Que a memória continue a nos assistir. Alexandre não era apenas um estudante voltado para o saber científico na área particular que elegera, não era apenas um bom geólogo em formação — o que, aliás, já não seria pouco no Brasil. Conhecem-se vários testemunhos da sua curiosidade intelectual humanística. Ele traduzia artigos de filosofia, política e economia para chegar a uma compreensão ao mesmo tempo extensa e articulada do mundo em que vivia.

Não é preciso encarecer esta necessidade de pensar os conjuntos – hoje, mais do que nunca, quando vivemos sob o império da informação múltipla, disparatada e, afinal, descartável. Uma universidade técnica poderá virar apenas o hábitat de funcionários da ciência ou de candidatos a desempregados de alta qualificação. A sociedade contemporânea não pode ou, ao menos, não deveria ser um agregado de pequenos especialistas: o cimento tem de ser a vigência de valores, numa delicada dialética entre o real próximo e o ideal distante, entre o que apenas é aqui e agora e o que deveria ser. Por isso Alexandre traduzia textos de economia, política e filosofia.

A economia sem vontade política é jogo feroz de competições darwinianas, mas a política sem cálculo é retórica vazia, promessa demagógica; enfim, a filosofia é a reflexão sobre a ação e sobre o pensamento, e, na medida em que a filosofia penetra na história concreta dos homens, o pensamento crítico exige a retificação da rota, a avaliação do projeto. A filosofia alimenta a política, que alimenta a economia, que, por sua vez, se alimenta da técnica, a qual, enfim, se alimenta da ciência. Bela circularidade do saber.

Um estudante de ciência será míope na sua vida de cidadão se não enveredar pela análise econômica, pelo conhecimento político e, em última instância, por essa perpétua ruminação dos conceitos e valores que se chama filosofia. E este é outro dos rumos da Universidade: aceitar o desafio da transdisciplinaridade; habitar as fronteiras, cavar os túneis entre as disciplinas afins; propiciar lugares de encontro onde o físico ouça o filósofo, o biólogo conheça as obras do poeta, e o músico e o matemático pensem juntos o que disse Leibniz da música: que é uma matemática inconsciente.

Mas a memória ainda traz mais sugestões para este nosso desenho exploratório. Se Alexandre fosse apenas um bom estudante de Geologia e um leitor atento de obras de cultura humanística, ele teria sido, afinal de contas, um intelectual; o que parece ser o próprio ideal da formação universitária. Para que mais? Na verdade, era pouco e ainda é pouco. Por isso, ele não só estudava, mas olhava para o que acontecia com a sua pátria, o seu povo. O Brasil o chamava. Como geólogo, ele se interessou pelos recursos naturais do país e pelas formas de sua exploração. Assunto que não é só técnico, evidentemente, mas econômico e político e rigorosamente ético, pois envolve o destino das nossas potencialidades naturais e do povo que nasce, vive, trabalha e morre aqui, perto de nós. Sabe-se que Alexandre redigiu um Boletim Especial do Centro Acadêmico de Geologia em que fez o levantamento das jazidas de vários minérios e o elenco das empresas que os exploravam.

O imperativo de um desenvolvimento capaz de articular crescimento e distribuição equitativa de renda não se esgotou nos anos 60 pelo fato de que o mundo teria mudado. Está ainda no horizonte de uma sã política científica pensar no desenvolvimento como síntese de crescimento e bem-estar para a maioria. O espírito que marcou os primeiros trinta anos desta universidade não deve morrer, mesmo que o entreguismo mais deslavado acabe, a pretexto da “globalização”, paralisando qualquer ideia de projeto nacional.

Indo ao fundo da questão, que inquietava a geração de Alexandre e inquieta o nosso tempo: será verdadeiro afirmar que exista hoje uma Política do Globo, uma economia regida por uma entidade chamada Globo? Nos anos 50, Raúl Prebisch, economista-chefe da Cepal [Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe], com quem Celso Furtado colaborou estreitamente, descrevia o quadro das relações internacionais, o quadro do sistema centro rico-periferia pobre, em termos que me parecem atualíssimos. Chamava este quadro de “sistema global em interesse próprio”. Ou seja, as empresas internacionais não operam fora de um centro de decisão e de uma constante absorção de lucros. Estes centros estão sediados nas respectivas nações de origem, e utilizam em interesse próprio uma rede mundial de consumo. Soube recentemente que a Nestlé, exemplo de multinacional poderosa e bem-sucedida, vende para todo o mundo, mas os seus estatutos exigem que 97% dos acionistas votantes sejam suíços. Não é ó “globo” que possui ou controla a multinacional: é uma empresa particular que, por sua vez, tem relações econômicas e políticas com a sua nação e o seu Estado nacional de origem.

O sistema de relações econômicas internacionais acentua a diferença entre concentração de riqueza e multiplicação de pobreza. A Universidade não deve repetir o jargão globalizante. A globalização integra o seguinte esquema: o pobre entrega e o rico, no melhor dos casos, emprega. Mas até essa última cláusula começa a ser descumprida. Depois que o pobre se integra e se entrega, o rico o desemprega. Não se trata de mera interdependência, como propala o discurso oficial e diplomático, mas de assimetria de forças, ou, para dizê-lo cruamente, trata-se de uma lógica de dominação e exploração.

A Universidade pode e deve debruçar-se sobre essa realidade que vai afetar todo o sistema de ensino, pois um país que não se desenvolve gera um Estado pobre, e um Estado pobre e fraco não pode gastar, ou gasta pobre e fracamente, com todas as consequências que a escassez produz no mundo da educação e da saúde. A Universidade, como o fazia a geração de Alexandre, pode e deve analisar criticamente o que está acontecendo nas múltiplas áreas de produção e serviços; e, exatamente como acontecia com a geração de Alexandre, ela deve descer ao fundo da realidade para daí conceber propostas de transformação.

Remeto os interessados à leitura do debate sobre globalização que se acha na revista Estudos Avançados nº 29, e especialmente às observações do economista Paulo Nogueira Batista Jr. sobre os mitos que o termo envolve, dentre eles a ideia de que os Estados nacionais estariam gastando hoje menos do que no passado, e que esta diminuição deve ser regra no Brasil: falácia ideológica neoliberal que a análise dos orçamentos públicos norte-americano, japonês, canadense, francês e italiano desmente.

Enfim, ao lado dessas três dimensões que a Universidade pode e deve abranger (conhecimento científico; visão humanística abrangente; interesse pelo Brasil), o estudante Alexandre Vannucchi Leme entrou no confronto com o regime armado optando pela via da militância revolucionária. Olhando retrospectivamente esta sua escolha, e sabendo o quanto se tratava de uma proposta desproporcional às suas forças, um projeto de altíssimo risco que fatalmente acabaria como acabou, em perseguições, torturas e morte — não podemos ocultar o nosso confrangimento, e deplorar que a beleza daquela juventude generosa e temerária tenha sido destruída precocemente quando a Universidade e o povo brasileiro tanto precisavam dela. O preço pago por aquela opção radical foi o mais alto possível, foi o preço da vida de centenas de seres humanos excepcionais.

Certamente hoje não repetiríamos essas modalidades de luta, mesmo porque se tratava, como o disse exemplarmente outro militante insigne, Jacob Gorender, de um “combate nas trevas”. Não direi que a luz hoje seja intensa; há sombras, há lusco-fusco, mas a escuridão não se abate sobre nós como naqueles anos desesperados. Há luz suficiente para que nós, estudantes e professores da Universidade, tentemos percorrer aquelas três vias que a biografia breve de Alexandre nos mostrou. De minha parte, só posso esperar que as propostas emanadas deste Congresso de Estudantes da USP estejam à altura do nome de seu Diretório Central; e que recordem todas o coração e a coragem de um estudante chamado Alexandre Vannucchi Leme.