Unidade lamenta a morte de quadros notáveis nas áreas de Ciência Política, História e Letras Clássicas

Faleceu neste domingo (1º/8), aos 84 anos, o cientista político Francisco Weffort, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, onde lecionou no Departamento de Ciência Política (DCP).

FFLCH

Weffort na cerimônia de outorga do título de Professor Emérito da FFLCH, em 2013

De acordo com informações publicadas pela jornalista Mônica Bergamo na Folha de S. Paulo, Weffort tratava-se de um problema cardíaco diagnosticado recentemente. O professor sofreu um desmaio no sábado (31/7) em Petrópolis e foi levado para o Rio de Janeiro, onde passaria por uma cirurgia para desobstrução das artérias, mas não resistiu a um infarto.

“Estou completamente chocado, arrasado mesmo, com a notícia que chega da morte do Professor Francisco Correa Weffort”, publicou em sua página no Facebook o professor José Álvaro Moisés, docente aposentado do DCP. “Não tenho palavras para expressar a dor que sinto com essa trágica passagem do meu professor, amigo e, sobretudo, o grande intelectual de defesa da democracia que foi Weffort, uma pessoa generosa, fraterna, e cuja voz e pensamento eram mais do que nunca necessários nesse momento da vida do país.”

Formado em ciências sociais pela USP, Weffort lecionou na universidade entre 1961 e 1964, quando deixou o país em razão do golpe militar. De acordo com informações do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas (CPDOC-FGV), o professor trabalhou então no Instituto Latino-Americano de Planificação Econômica e Social, no Chile, e mais tarde como professor visitante na Universidade de Essex, na Inglaterra.

Na década de 1970, integrou o corpo de pesquisadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e foi um dos fundadores e primeiro presidente do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec). Em 1977 tornou-se livre docente na USP.

Weffort participou em 1980 da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), do qual chegou a ser secretário-geral entre 1983 e 1987. No início dos anos 1990, lecionou no Woodrow Wilson Center e no Helen Kellogg Institute, nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, assumiu a chefia do DCP.

Vitorioso nas eleições presidenciais de 1994, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) convidou-o a assumir o cargo de ministro da Cultura, e Weffort comunicou à direção do PT o seu desligamento do partido. Permaneceria à frente do ministério nos dois mandatos de FHC.

Após deixar o ministério, voltou a lecionar nos Estados Unidos, presidiu o Conselho Superior da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e foi professor visitante do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Weffort escreveu livros como Formação do pensamento político brasileiro, Qual democracia?, Por que democracia? e O populismo na política brasileira.

“Protagonista de momentos decisivos da afirmação das ciências sociais brasileiras”, diz Anpocs

Em 2013, Weffort recebeu o título de Professor Emérito da FFLCH. Na ocasião, José Álvaro Moisés afirmou que em suas obras o professor fez referências “ao panorama que nos mostra a existência de muitas e diferentes experiências democráticas que resultaram das ondas de democratização iniciadas, em todo o mundo, nos anos 70 do século passado”. Em muitos casos, prosseguiu Moisés, “as novas democracias teriam que ser entendidas não só como não consolidadas, mas também como não democráticas”.

“Francisco Weffort foi um intelectual importante, incontornável para quem deseja pensar o Brasil das últimas décadas”, assinalou em sua página no Facebook o professor Luis Felipe Miguel, docente de Ciência Política na Universidade de Brasília (UnB). “Ainda como ideólogo do PT, nos anos 1980 e começo dos 1990, foi um dos grandes responsáveis pela virada que tornou a esquerda virtualmente incapaz de fazer a crítica aos limites da democracia liberal. Pegou a ‘democracia como valor universal’, de Carlos Nelson Coutinho, e limou o que nela restava de uma perspectiva de classe. (…) Esposava valores muitas vezes opostos aos meus, mas era impossível negar a argúcia de seu pensamento e o conhecimento sobre a história política do Brasil.”

O presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), André Botelho, divulgou nota na qual lamenta a morte do primeiro presidente da entidade (1977-1978). “Protagonista de momentos decisivos da afirmação das ciências sociais brasileiras e da luta pela democracia no Brasil, Francisco Correa Weffort nos deixa um legado intelectual e institucional que nos inspira num momento tão difícil para a sociedade brasileira. Nos solidarizamos com a viúva, senhora Helena Severo, filho, filhas, netos, amigos, colegas por ele formados e toda a nossa comunidade”, diz o comunicado.

FFLCH lamenta a perda das professoras Anita Novinsky e Zelia de Almeida Cardoso

Além de Weffort e de José Arthur Giannotti, a FFLCH lamenta a perda recente de outros nomes importantes de seus quadros.

No dia 20/7, faleceu aos 98 anos a Professora Emérita Anita Novinsky, docente do Departamento de História. “A professora recebeu o título de Pioneira da Ciência do CNPq e foi responsável pela formação de várias gerações de historiadores especializados nos estudos inquisitoriais e das comunidades cristãs novas ibéricas; fundou e inspirou numerosas instituições dedicadas ao combate ao racismo religioso e em defesa da livre expressão em todo país”, registrou em nota a direção da unidade.

“Poucas pessoas que eu tenha conhecido ou conheça tinham tanta energia e amor pela vida, ela, que teve sua família (ou boa parte dela) exterminada pelo nazismo, no Holocausto na Polônia, onde nasceu em 1922”, registrou em texto publicado no site da FFLCH o professor Osvaldo Coggiola. “Talvez por isso mesmo tinha esse espírito. E talvez por isso mesmo vivesse tanto, ativa até o fim (me lembro dela andando, com dificuldades, claro, nos nossos corredores ainda em finais de 2019, pouco antes da pandemia).”

No dia 10/7, faleceu aos 87 anos a professora Zelia Ladeira Veras de Almeida Cardoso, docente do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas (DLCV) e primeira formanda do Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas da FFLCH. Atuou no DLCV entre 1973 e 1998 e, entre outras atividades, foi líder do Grupo de Pesquisa “Estudos sobre o Teatro Antigo”, coordenadora do PPG em Letras Clássicas e fundadora e presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos.

Uma de suas filhas é a professora Elis de Almeida Cardoso Caretta, também docente do DLCV. “A professora Zelia desempenhou todos os papéis, na academia e na família, por toda a vida, com amável presença e sábia tranquilidade de espírito”, apontou em texto no site da FFLCH, em nome da direção da faculdade, o professor Marcos Martinho dos Santos, docente do departamento.

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