Neste sábado (5/2), manifestação no MASP pedirá justiça para o trabalhador congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, assassinado a pancadas num quiosque da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, em 24/1, por reivindicar o pagamento devido. Este artigo do professor Celso de Oliveira (FZEA), segundo vice-presidente da Adusp, convida à reflexão sobre a indiferença da sociedade frente ao racismo e à violência

Na música de Aldir Blanc e João Bosco “De frente pro Crime”, o poeta nos narra a cena surreal de se encontrar um morto na rua e a normalização da comunidade frente aquele fato. A música dá a entender que a situação se passa numa comunidade em período eleitoral.

O bar mais perto depressa lotou
Malandro junto com trabalhador
Um homem subiu na mesa do bar
E fez discurso pra vereador

Numa rápida olhada, ou ouvida, a música poderia estar falando da morte do jovem Moïse Kabagambe, mas não está! Não está, pois a morte dentro das comunidades nunca é normalizada, nunca é esquecida apesar de virar estatística de crueldade. A morte de Moïse competiu no noticiário com as enchentes em São Paulo, com o jogo da seleção brasileira e a possível guerra na Ucrânia.

Disse o João:

Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto, uma foto de um gol
Em vez de reza, uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém

O silêncio só não foi possível pela era da Internet, pela velocidade dos bytes de informação que levaram ao grito nas redes. Mas da mesma forma que na música o que mais me impressiona não é a violência contra o pobre preto, mas um fato narrado e visto nas imagens das câmeras de segurança. O quiosque não fechou, as pessoas passaram, viram o que estava acontecendo e nada fizeram.

O fato não aconteceu numa comunidade com pessoas que sabem que há armas nas mãos dos violentos, onde envolver-se numa briga pode significar levar um tiro ou encontrar uma bala perdida. Num lugar onde outros pretos são vítimas de violência cotidianamente e resistem.

O fato aconteceu num dos bairros ricos de brancos onde não se ouve tiroteio, não se registram mortes de crianças por bala perdida. Assim aquela inação não era medo, era indiferença.

Será que Moïse errou de compositor e deveria ter morrido numa canção do Chico? Talvez parar o tráfego fosse a única alternativa para incomodar aquela gente insensível. Seria a forma de gritar sua humilhação por trabalhar e não receber, denunciar o racismo, a xenofobia.

Chico disse assim:

E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Como explicar àquela gente o que os poetas escreveram e os cantores gritaram com lindos arranjos? Como tornar compreensível ao cidadão de classe média que vidas negras importam?

Atrapalhar o tráfego, colocar uma vela ao lado do corpo, inundar as redes sociais, nada disso parece ser suficiente para entender a lição de Angela Davis: “Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. Este soco na consciência da classe média ascendente tem que ser levado das ruas e redes para as casas, empresas e escolas.

A luta agora é o combate à impunidade, ao esquecimento e à indiferença que começou antes da primeira paulada em Moïse.

Sem pressa, foi cada um pro seu lado
Pensando numa mulher ou num time
Olhei o corpo no chão e fechei
Minha janela de frente pro crime

A cada um de nós cabe um papel nesta história. Li em um artigo que essa morte poderia ter sido evitada se finalmente se revelasse quem mandou matar Marielle. E acredito ter sido esta a posição mais correta. Pois só através da continua administração da justiça estaríamos de verdade tornando todos e todas seres humanos neste país.

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague