A Reitoria da USP finalmente anunciou uma solução para o fracassado “muro de vidro” que, desde 2018, separava a Raia Olímpica da Marginal Pinheiros. A demolição, em abril daquele ano, de parte do muro de alvenaria então existente, e sua substituição por painéis de vidro transparente, foi sugerida em 2017 pelo então prefeito João Doria (PSDB), e aceita pela gestão M.A. Zago-V. Agopyan. Ao tomar posse como reitor, no ano seguinte, Agopyan deu continuidade ao trato com Doria.
 
Ao divulgar seus planos, a Prefeitura de São Paulo deu destaque a duas das empresas patrocinadoras: o escritório de arquitetura Jóia Bergamo, autor do projeto, e a operadora de saúde Prevent Sênior. Mas a iniciativa, cujo custo foi inicialmente orçado em R$ 15 milhões financiados por 43 empresas (mais tarde a USP falaria em R$ 20 milhões), revelou-se desastrosa: os paineis trincaram e perderam pedaços de vidro, além de matar pássaros que, em voo, colidiam com sua superfície.
 
Mesmo assim a Reitoria alegava que não tinha como providenciar reparos ou alternativas, sob o pretexto inacreditável de que se tratava de uma parceria celebrada com a Prefeitura (que também se encarregou da demolição parcial do antigo muro). Supostamente, o fato de a USP não ter arcado com custos diretos eximia a Reitoria de tomar providências.
 
Ainda em 2018 Doria viria a eleger-se governador, condição na qual, dois anos depois, voltaria a lembrar-se da Raia Olímpica da USP, onde conseguiria sediar, em plena epidemia de Covid-19, o “São Paulo Boat Show 2020”, episódio dos mais constrangedores da gestão V. Agopyan-A. C. Hernandes.
 
Em fevereiro de 2022, a Folha de S. Paulo registrou que, decorridos “quase quatro anos desde a inauguração”, o muro de vidro seguia com placas quebradas. Segundo o jornal, em meados de 2020 havia 22 placas danificadas no local. “Agora, no início de 2022, a reportagem contabilizou ao menos 30”. Coincidentemente, em março deste ano o reitor Carlos Gilberto Carlotti Jr. anunciou o projeto de um “corredor verde”.
 
No final de agosto a Folha voltou a tratar do assunto, informando que a USP iniciou, em junho, a instalação de grades em parte do muro, ao longo de 2,2 km, em substituição dos painéis de vidro quebrados, e que a obra envolve dois processos licitatórios. “Os documentos licitatórios não foram divulgados pela universidade, que costuma dar publicidade a todos os seus gastos por meio de seu portal, porém a reportagem apurou que o valor total do projeto deve ser de R$ 3 milhões”, disse a matéria. A ideia do corredor verde, acrescentou, foi “deixada de lado”.
 
Na opinião do professor Tercio Redondo, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), a Reitoria mostrou-se imprudente e nada sábia. “Há poucos dias, ficamos sabendo que o muro de vidro que separa a Raia Olímpica e a Avenida Marginal será finalmente derrubado. João Doria inventou-o, e uma submissa Reitoria acatou a estripulia publicitária”, resume ele, a pedido do Informativo Adusp.
 
“A alta cúpula uspiana foi devidamente alertada por especialistas sobre os riscos ambientais representados pelo projeto, danoso para a fauna local, especialmente para os pássaros. Achou por bem ignorar a ciência e abaixar a cabeça para o marqueteiro do Palácio”, considera o docente da FFLCH.
 
O patrimônio da universidade, avalia Redondo, foi alvo de uma espécie de “vandalismo de engravatados”, dirigentes que não atuaram corretamente, provocando prejuízos à USP. Porém, no seu entender, em casos como esse vigoram “dois pesos e duas medidas”, como ele exemplifica a seguir, citando um acontecimento da gestão J.G.Rodas-H. Nogueira.
 
“Em 2011 a sede da Reitoria da USP foi tomada por estudantes que seriam, dias depois, desalojados pela Polícia Militar. Ao que consta, os ocupantes deixaram atrás de si paredes pichadas, parte da mobília revirada e alguns danos infligidos a equipamentos de escritório. Foram processados pela Reitoria e ameaçados de expulsão”, relembra, para em seguida emendar uma reflexão: “Pergunto-me: o que representam os gastos com o ‘estrago’ deixado pelos estudantes de 2011, diante dos R$ 3 milhões que a USP vai desembolsar para retirar do campus aquilo que jamais deveria ter sido erguido?”.