A comunidade uspiana sofreu uma série de perdas importantes durante o feriado de Carnaval. Faleceram os professores José Álvaro Moisés, João Adolfo Hansen e João Baptista Borges Pereira, todos ligados à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), e o professor Antonio Roque Dechen, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq).

A seguir, o Informativo Adusp Online traça um breve perfil da trajetória acadêmica dos docentes como forma de homenageá-los e de expressar solidariedade a familiares e amigos(as).

José Álvaro Moisés (1945-2026)

Cecília Bastos/USP ImagensCecília Bastos/USP Imagens
José Álvaro Moisés

Professor aposentado do Departamento de Ciência Política (DCP) da FFLCH, José Álvaro Moisés faleceu de mal súbito no dia 13 de fevereiro em Ubatuba, litoral de São Paulo. Seu velório foi realizado no salão nobre do prédio da Administração da unidade no último domingo (15/2).

Graduado em Ciência Política na USP em 1970, fez especialização e mestrado na Inglaterra e concluiu seu doutorado na USP em 1978.

Moisés “mantinha uma atividade intelectual prolixa e engajada, e com frequência recebíamos suas notícias sobre a organização de seminários, e suas reflexões sobre o futuro da democracia brasileira, direitos humanos e cultura política, áreas nas quais dirigia fóruns como o de Formulação dos Direitos e o Fórum da Democracia”, registrou em nota o professor Rafael Duarte Villa, chefe do DCP.

Entre outras atividades, Moisés foi fundador do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP (Nupps) e também o primeiro coordenador do Curso de Gestão de Políticas Públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH). Coordenava o Grupo de Pesquisa da Qualidade da Democracia do Instituto de Estudos Avançados (IEA), ao qual era ligado como professor sênior.

Em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), do qual acabaria se afastando. No governo FHC, atuou como secretário de Apoio à Cultura e secretário de Audiovisual do Ministério da Cultura.

Como autor, coautor ou organizador, Moisés publicou vinte e dois livros e foi autor de 77 capítulos, segundo seu Lattes. Escreveu o livro Greve de massa e crise política, pioneiro estudo da “greve dos 300 mil” realizada em 1953 e 1954 em São Paulo, publicado em 1978. Foi organizador e coautor de Democracia e desconfiança: por que os cidadãos desconfiam das instituições públicas (2010) e A desconfiança política e os seus impactos na qualidade da democracia (2013). Em 2019, lançou Crises da democracia: o papel do Congresso, dos deputados e dos partidos. Em 2020, tendo como parceiro Francisco Weffort, publicou Crise da Democracia Representativa e Neopopulismo no Brasil.

“Sua trajetória acadêmica, marcada pelo rigor intelectual e pelo compromisso com a vida pública, deixa um legado incontornável para a área e para gerações de pesquisadoras e pesquisadores”, destacou em nota a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP).

João Adolfo Hansen (1942-2026)

Cícero Wandemberg/FFLCHCícero Wandemberg/FFLCH
João Adolfo Hansen

Professor Emérito da FFLCH, João Adolfo Hansen faleceu no dia 16 de fevereiro, e seu velório foi realizado no dia seguinte no salão nobre do prédio da Administração da unidade.

Em nota, a Reitoria da universidade ressaltou que o professor, “especialista em Literatura Brasileira Colonial, Moderna e Contemporânea, cumpriu em nome da USP um papel integrador das Ciências Humanas”.

“Sua produção intelectual, que se estende do século XVI à contemporaneidade, assenta-se numa compreensão própria da historiografia antiga, moderna e contemporânea; das retóricas e filosofias tradicionais e atuais; da teoria literária, da sociologia, da psicanálise e da cultura brasileira. Suas publicações tornaram-se referência em diversas áreas das Humanidades”, prossegue a nota da Reitoria.

Hansen graduou-se em Letras Anglo-Germânicas pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas em 1964 e obteve mestrado e doutorado na FFLCH, respectivamente em 1983 e 1988.

Foi professor visitante na Universidad de Chile, na Stanford University e na UCLA, dos Estados Unidos, e na École des Hautes Études, na França. Recebeu o título de Professor Emérito da FFLCH em 2022 e mantinha-se ativo como professor sênior na unidade.

Em 1990, recebeu o Prêmio Jabuti pelo livro A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII. Em 2014, conquistou o Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Artes (APCA) pela obra Gregório de Matos (5 Volumes), com Marcello Moreira.

Em sua nota, a Reitoria enfatiza que a capacidade do professor “para transmitir assuntos complexos com sábia simplicidade levou-o a conquistar e a formar alunos que hoje são professores em diversas regiões do país”. “Destinava-lhes um afeto respeitoso e uma doação intelectual admiráveis”, e muitos dos seus alunos e alunas “se tornaram seus amigos”.

Numa entrevista concedida à revista Pesquisa Fapesp em 2022, Hansen afirmou que adorava a sala de aula, pois a “troca com os alunos é muito rica”. “Como diz Riobaldo, em Grande sertão: Veredas, mestre não é o que ensina, mas o que aprende”, ressaltou. O professor também lamentou a perda da importância da literatura: “Infelizmente, [o papel da literatura] é cada vez menor. Desde o início da década de 1990 ela não tem mais o caráter de formação que teve, por exemplo, para minha geração. Aprendi muito com a literatura, acho que muito mais do que no ginásio, no curso clássico e na universidade”.

João Baptista Borges Pereira (1929-2026)

FFLCHFFLCH
João Baptista Borges Pereira

Docente do Departamento de Antropologia da FFLCH, João Baptista Borges Pereira faleceu no dia 13 de fevereiro, em São Paulo. Pereira foi diretor da unidade em duas gestões: 1985-1989 e 1994-1998. Em 2001, tornou-se Professor Emérito.

Pereira graduou-se em Ciências Sociais na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) em 1958 e obteve o título de mestre em Antropologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo em 1964. No mesmo ano ingressou como docente na FFCL.

Em 1966, doutorou-se na USP, onde chegou a livre-docente dois anos depois. Em 1975, tornou-se professor titular do Departamento de Antropologia da FFLCH e, em 1980, fez pós-doutorado na Universidade de Coimbra, em Portugal.

“Dedicou-se aos estudos de antropologia, atuando principalmente nos temas imigração, questão racial, educação e diversidade religiosa”, ressaltou nota publicada pela FFLCH.

A Associação Brasileira de Antropologia (ABA) lamentou o falecimento do professor e destacou que Pereira “foi uma importante referência nos estudos das relações raciais na USP” e defendeu “a primeira tese na área de antropologia nesta instituição”.

A nota da ABA ressalta que Pereira “foi um intelectual com notável trajetória acadêmica”, que além de formar gerações de antropólogos(as) “teve uma atuação comprometida com a universidade pública, dedicando-se a políticas antirracistas”.

Outro tema que sempre marcou a atuação do professor foi a preocupação com a escola pública e a educação. Sua dissertação de mestrado, intitulada “A escola secundária numa sociedade em mudança”, já dava mostras disso. Pereira também foi professor e diretor do Ginásio Estadual de Vila Diva, na região de Sapopemba, zona leste paulistana.

Numa entrevista concedida em 2017 para o programa Memória FFLCH, Pereira falou sobre sua trajetória e relatou episódios de perseguição ocorridos durante a Ditadura Militar.

Antonio Roque Dechen (1950-2026)

Francisco Emolo/USP ImagensFrancisco Emolo/USP Imagens
Antonio Roque Dechen

Antonio Roque Dechen, docente da Esalq, faleceu no dia 15 de fevereiro em Piracicaba, cidade na qual foi sepultado no dia seguinte.

Dechen graduou-se em 1973 como engenheiro agrônomo na Esalq, onde também concluiu mestrado (1979) e doutorado (1980). Foi vice-diretor da unidade entre 1995 e 1999, e diretor na gestão 2007-2010.

Na USP, assumiu a Coordenadoria de Administração Geral (Codage) entre 2010 e 2014, além de ter ocupado outros cargos, como membro da Comissão de Planejamento (2008-2010) e presidente da Comissão de Cultura e Extensão da Esalq (1995-1999). Também exerceu funções nos conselhos regional e federal de Engenharia e Agronomia (CREA-SP e Confea), chegando a ser vice-presidente neste último (2003).

Em manifestação publicada nas mídias sociais, José Otavio Menten, professor sênior da Esalq, disse que na direção da unidade Dechen “exerceu uma liderança equilibrada e agregadora”. “Soube conduzir a instituição com diálogo, responsabilidade e visão de futuro, fortalecendo o ensino, a pesquisa e a extensão, sempre com o olhar voltado à excelência acadêmica e ao papel social da universidade”, considera.

​A diretora da Esalq, professora Thais Vieira, ressaltou que o docente foi um grande exemplo para várias gerações, como professor e gestor. “Nossa turma guarda um carinho especial pela proximidade durante a graduação. Deixa como legado sua dedicação à Esalq, à USP e à agricultura brasileira”, disse, em declarações registradas em nota publicada pela Esalq.

EXPRESSO ADUSP


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