Nota da Diretoria
Adusp lamenta falecimento da socióloga Irene Cardoso, que refletiu sobre autoritarismo, cultura e as transformações da universidade
A Adusp expressa seu profundo pesar com a notícia do falecimento, aos 80 anos de idade (1945-2025), da socióloga e psicanalista Irene Cardoso, professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), ocorrido em 4 de agosto.
Como contou em entrevistas, a professora ingressou no curso de Pedagogia, na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), situada na Rua Maria Antônia, poucas semanas antes do golpe de 1964 e testemunhou de perto os desdobramentos da ditadura militar na Universidade, tomando tais acontecimentos como objeto de uma longa reflexão sobre o autoritarismo, a cultura e os nexos entre memória e história.
Sua tese de doutorado, defendida em 1980, recuperava as concepções em disputa no contexto de criação da Universidade de São Paulo e foi publicada como A Universidade da Comunhão Paulista (Cortez, 1982). Para uma crítica do presente (PPGS-FFLCH/Editora 34, 2001), fruto de sua livre-docência, reuniu suas reflexões sobre a trajetória da universidade desde as transformações impostas durante a ditadura até as reformas neoliberais a partir dos anos 1980.
Vale destacar que Irene apresentou, a gerações de estudantes e pesquisadores, autorias que nem sempre estavam contempladas no curso de Sociologia; suas disciplinas se articulavam em torno do pensamento da Escola de Frankfurt e de Michel Foucault, por exemplo.
Entre as transformações rápidas que iam reconfigurando os sentidos públicos da universidade no início dos anos 2000 e a ameaça da reforma previdenciária, Irene se aposentou em 2003, passando a dedicar-se à clínica psicanalítica. Mas seguiu próxima dos debates que lhe eram caros, tendo organizado, em parceria com Abílio Tavares, o Livro Branco sobre os Acontecimentos da Rua Maria Antônia – 2 e 3 de outubro de 1968 (Edusp/FFLCH, 2018), sobre o que ficou conhecido como a “Batalha da Rua Maria Antônia”.
O livro, baseado em documentos e relatórios guardados por Antonio Candido e a ela confiados, oferece um testemunho vivo daquele acontecimento e de seus efeitos continuados, presentes na conformação contemporânea da USP sob a forma dos projetos, apostas e utopias que naquele momento se buscou reprimir e fazer desaparecer.
No seu engajamento institucional, em sala de aula, nos seus escritos e participações em debates, Irene Cardoso nos ofereceu sempre um exemplo de vivacidade intelectual e de compromisso com a dimensão pública da universidade.
A Adusp expressa sentimentos e solidariedade à sua família e às suas amizades neste momento de tristeza e dor.
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