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Trabalhadores(as) têm organizado manifestações contra desmonte da ciência

A Argentina viveu nesta quarta-feira (22 de julho) o início de uma nova etapa de protestos e manifestações contra as políticas do governo do ultradireitista Javier Milei, no poder desde dezembro de 2023. Movimentos sociais e organizações sindicais e estudantis se uniram à tradicional manifestação que aposentados e aposentadas realizam toda quarta-feira em frente ao Congresso Nacional, em Buenos Aires, para exigir melhorias nos seus benefícios.

Os protestos foram engrossados pelas entidades de trabalhadores(as) das universidades públicas e instituições científicas do país, que vivem uma situação crítica de desfinanciamento, corte de bolsas e perda de recursos humanos qualificados, entre outros problemas.

Reportagem publicada pela agência Deutsche Welle relata que, de acordo com a Academia de Ciências Exatas e Naturais da Argentina, ao menos 6 mil cientistas deixaram o país nos últimos anos. Entrevistada pela reportagem, a física Guadalupe Aparicio, que emigrou para a Itália, afirma que, além do corte de verbas, há uma realidade de intimidação no instituto em que trabalhava, hoje “praticamente militarizado”, com a presença de policiais na entrada do prédio.

Na terça-feira (21), uma comissão de trabalhadores(as) do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet), maior agência de fomento do país, equivalente ao CNPq, e da Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA) se reuniram com deputados(as) da União pela Pátria, partido da ex-presidenta Cristina Kirchner, para denunciar o que chamaram de “cientificídio” na Argentina.

Os(as) trabalhadores(as) afirmam que o Conicet passa por uma “demolição”. Uma das situações graves em andamento é a possibilidade de que cerca de 400 pós-doutores(as) fiquem sem bolsas a partir de agosto. Muitos(as) deles(as) prestaram concurso para a carreira de pesquisador(a) científico(a) na instituição e dependem da efetivação para ter uma fonte de remuneração.

Já a representação da CNEA falou do “desmantelamento” na área da energia nuclear, com riscos para a soberania nacional. O governo de Milei trabalha para privatizar parcialmente a Nucleoeléctrica Argentina, que opera as três usinas do país.

Perdas salariais chegam a 40% desde o final de 2023

Um retrato alarmante da situação é dado pelo manifesto conjunto “Direito coletivo a uma Argentina melhor”, divulgado por trabalhadores(as) das universidades públicas e de instituições científicas como o Conicet, a CNEA, os institutos nacionais de Tecnologia Agropecuária (Inta) e Tecnologia Industrial (Inti) e o Serviço Meteorológico Nacional (SMN), entre outros.

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Policiais barram ato de servidores(as) do Conicet no início de julho

O comunicado conjunto, divulgado no início de julho, alerta para o que as categorias envolvidas definem como “um processo de destruição” do sistema científico, tecnológico e universitário argentino, o que consideram “absolutamente irracional” do ponto de vista político, social e econômico.

De acordo com o documento, o investimento público em ciência e tecnologia no país caiu a menos de 0,15% do PIB, o nível mais baixo registrado nos últimos 54 anos. Para efeito de comparação, no Brasil esse índice foi de 1,19% em 2023, enquanto nos Estados Unidos é de 3,44% (2024) e de 2,13% na média dos 27 países da União Europeia (2024). Na China, de acordo com a agência oficial Xinhua, o índice chegou a 2,8% em 2025.

A esse desfinanciamento se somam rescisões voluntárias, demissões e saída de pessoal qualificado, num contexto de perdas salariais próximas a 40% desde o início do governo Milei.

O documento afirma que a paralisação de programas estratégicos nesses organismos “é um processo planejado pelo atual governo que busca destruir capacidades construídas durante décadas”.

“Nunca um país que fez um esforço sustentado por mais de 200 anos para gerar capacidades científicas e tecnológicas a serviço da sociedade as destruiu em tão pouco tempo”, dizem as entidades, que prosseguem: “destruir é fácil, construir e reconstruir leva anos, e em alguns casos não é possível”.

Os(as) signatários(as) contestam as justificativas oficiais de que o “ajuste” nessas áreas possa ser explicado por restrições fiscais. “O desmantelamento que o atual governo tem perpetrado desde dezembro de 2023 em nossas instituições não tem absolutamente nada a ver com o déficit zero ou com restrições orçamentárias. É uma decisão política e cultural tomada por um governo que declarou abertamente sua vontade de destruir o Estado que dirige”, afirma o manifesto.

“Argentina destrói instituições que permitem o desenvolvimento”, diz manifesto

O comunicado apresenta o contraste dessa política com tendências internacionais: enquanto o mundo enxerga o conhecimento, a energia, os alimentos, a biotecnologia e as tecnologias avançadas como recursos estratégicos do século XXI, “a Argentina expulsa, presenteia o mundo com cientistas e destrói precisamente as instituições que permitem o desenvolvimento desses campos”.

“Os países que lideram a economia global investem cada vez mais em universidades, pesquisa, inovação e planejamento estratégico. A Argentina faz o oposto”, diz o texto.

O documento adverte que milhares de trabalhadores(as), pesquisadores(as), docentes e técnicos(as) qualificados(as) se veem obrigados(as) a migrar, mudar de ramo ou recorrer a múltiplos empregos. Também denuncia a queda do número de bolsas de pós-graduação, além da redução dos seus valores, o que “rompe o círculo virtuoso de formação de profissionais da ciência e jovens técnicos”. “Não teremos no futuro os recursos humanos de que precisaremos se quisermos viver melhor”, alerta o manifesto.

Os(as) trabalhadores(as) decidiram não assinar individualmente o documento “pela perseguição e militarização em algumas de nossas instituições”, e que por isso se identificam como “trabalhadores e trabalhadoras das universidades, Conicet, Inta, Inti, SMN e CNEA”.

“O futuro da Argentina nasce ali onde uma sociedade decide não resignar-se; cuidar de seu povo, educar os seus jovens, produzir conhecimento e construir esperança coletiva. Desde nossas instituições seguiremos de pé defendendo esse horizonte”, conclui o documento.

Reitores exortam governo a assegurar o financiamento das instituições

A manifestação de trabalhadores(as) se soma a outros alertas de instituições acadêmicas sobre o desmonte da ciência argentina.

Em março, o Conselho Interuniversitário Nacional (CIN) e a Rede Argentina de Dirigentes de Institutos de Ciência e Tecnologia (Raicyt) divulgaram uma declaração conjunta em que registram “a situação crítica e sem precedentes que o sistema científico-tecnológico do país atravessa”.

“A degradação acelerada do financiamento, das condições de trabalho, dos salários e da infraestrutura indispensável para a pesquisa ameaça diretamente a continuidade mesma das capacidades científico-tecnológicas construídas por décadas”, advertiam as instituições há quatro meses.

No início de julho, o CIN, que reúne as universidades públicas federais e provinciais (estaduais), voltou a se manifestar em defesa das instituições científicas. “A CNEA, o Conicet, o Inti, o Inta e as universidades nacionais integram um sistema público de ciência, tecnologia e inovação que permitiu à Argentina construir capacidades reconhecidas internacionalmente, formar recursos humanos altamente qualificados, impulsionar a inovação e contribuir para o desenvolvimento econômico, social e produtivo do país”, diz o documento.

O CIN exorta o governo a “garantir o financiamento e o fortalecimento dos organismos estratégicos do sistema científico e tecnológico nacional”; “suspender as medidas que impliquem a perda de capacidades científicas, tecnológicas e profissionais”; “assegurar o financiamento necessário para a continuidade dos projetos estratégicos, a manutenção da infraestrutura científica e tecnológica e a preservação dos recursos humanos altamente qualificados”; e “adotar medidas que garantam a continuidade das trajetórias de formação e pesquisa e promovam o diálogo com as instituições, as universidades nacionais, a comunidade científica e os e trabalhadores e trabalhadoras”.

EXPRESSO ADUSP


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