Uma carta aberta de integrantes da comunidade científica internacional ao presidente Javier Milei, disponível na Internet, com versões em espanhol, português e inglês, pede ao governo argentino “novamente, a interrupção do desmantelamento do Sistema Argentino de Ciência, Tecnologia e Inovação”. Repudia a militarização de algumas instituições de pesquisa e a brutal repressão policial a cientistas que saíram às ruas em protesto contra centenas de demissões realizadas no Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet).

O documento faz menção a uma carta anterior, assinada por 68 cientistas que receberam o Prêmio Nobel, e no qual “a comunidade já manifestou sua preocupação a respeito de como a Ciência e a Tecnologia argentinas se aproximavam de um ‘precipício perigoso’ […] longe de serem revertidas, aquelas preocupações se aprofundaram, ultrapassando limites impensáveis mesmo naquela ocasião”.

Uma série de retrocessos — já apontados em matéria publicada no Informativo Adusp Online — é elencada na carta: redução do investimento nacional em C&T para 0,14% do PIB, com a perda diária de quase 8 postos de trabalho desde dezembro de 2023; “a dissolução do Instituto Nacional do Câncer, do Instituto Nacional de Sementes (INASE), do Instituto Nacional da Água (INA) e do Instituto Nacional de Medicina Tropical (INMET); o enxugamento da Administração Nacional de Medicamentos, Alimentos e Tecnologia Médica (ANMAT); a redução de pessoal e o leilão de terras no Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA)”; 26 meses de salários congelados, sem contracheques e abaixo da linha de pobreza; suspensão da cobertura médica do setor em grande parte do país.

A perda de recursos e de quadros mínimos de pessoal, diz ainda o documento, compromete a sobrevivência de organismos como a Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia, a Fundação Miguel Lillo, a Comissão Nacional de Atividades Espaciais (CONAE), o Instituto Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Pesqueiro (Inidep), a Administração Nacional de Laboratórios e Institutos de Saúde (ANLIS), o Serviço Geológico Mineiro Argentino (Segemar), o Instituto Geográfico Nacional (IGN), a Administração de Parques Nacionais (APN) e o Serviço Meteorológico Nacional (SMN).

Também estão em risco — acrescenta a “Carta Aberta da Comunidade Científica Internacional diante do colapso do Sistema Argentino de Ciência, Tecnologia e Inovação” — as atividades de pesquisa e desenvolvimento nas universidades nacionais, “onde trabalham 80% daqueles que fazem ciência na Argentina”.

Ainda segundo a carta, “alguns organismos científicos foram militarizados nos últimos tempos, em cenas descritas como uma ‘nova Noite dos Cassetetes’”, tendo ocorrido demissões na Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA), bem como um “inadmissível” bloqueio subsequente dos acessos ao edifício por agentes da Gendarmeria Nacional.

“Repudiamos a crescente militarização do Instituto Nacional de Tecnologia Industrial (INTI) e a repressão sofrida por esses organismos e pelo Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet), cujos membros reclamavam pacificamente contra 379 demissões e o desmantelamento das carreiras de Pessoal de Apoio e de Pesquisador. Estas são cenas inéditas em nível mundial: torna-se impensável encontrar exemplos de governos que violentem fisicamente seus cientistas”.

Tais agressões institucionais e físicas impactam também as capacidades acumuladas da comunidade de pesquisa, prossegue, sendo exemplos disso “a eliminação dos Projetos de Pesquisa Científica e Tecnológica (PICT), substituídos por um novo instrumento da Agencia I+D+i que nunca foi executado, e a paralisação de programas-chave para o desenvolvimento nacional, como o Reator CAREM, a planta de produção de radioisótopos do Reator Argentino Multipropósito RA-10 e a do Radiotelescópio Chinês-Argentino (CART)”.

O documento destaca contribuições da ciência argentina, como “a identificação de causas e tratamentos contra doenças insidiosas; tecnologia de alimentos; políticas eficazes para a conservação da natureza; conhecimento sobre física de partículas, vírus e genética; a formação dos Andes e a fauna que habitou o continente há milhões de anos (o que explica sua riqueza em minerais e petróleo), entre outros”.

A Argentina, acrescenta, ocupava o décimo lugar no mundo em número de empresas de biotecnologia, destacando-se o fato de haver desenvolvido, com recursos públicos, “bem-sucedidas variantes genéticas de trigo resistentes à seca”. Continua fazendo parte, ainda, “de um reduzido grupo de países com capacidades próprias no setor de satélites e de energia nuclear”, e possui “uma alta competência na elaboração de políticas públicas eficientes baseadas no conhecimento em ciências sociais e humanidades”.

A “Carta Aberta da Comunidade Científica Internacional diante do colapso do Sistema Argentino de Ciência, Tecnologia e Inovação” continua disponível para adesões.

Clarín critica Milei por insultos lançados contra Lula

Tiveram repercussão na mídia argentina os recentes ataques de Milei ao presidente Lula, desfechados em solo brasileiro, durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República.

“Não é trivial chamar de ‘ladrão’, ‘presidiário’ e ‘lixo’ o presidente de um país amigo e vizinho que, ademais, é nosso principal parceiro comercial: estima-se que foram intercambiados 31,195 bilhões de dólares em 2025, recorde em 13 anos. Duas perguntas surgem de imediato: ‘Era necessário?’, ‘Para que?’”, questionou o jornalista Pablo Vaca, secretário de redação e editor do jornal conservador Clarín.

“Em princípio, à parte o contencioso pessoal que não é de hoje entre Javier Milei e Lula da Silva, tudo indica que o libertário aposta que sua performance o destaque ainda mais entre os líderes mundiais da chamada ‘direita dura’”, prossegue o artigo publicado nesta terça-feira, 28 de julho, observando que para atacar Lula o presidente argentino usou em seu discurso o palavreado grosseiro típico dos torcedores de futebol (barrabravas).

No entender do jornalista do Clarín, a apresentação de Milei no lançamento de Flávio “foi encenada para um espectador especial, Donald Trump”, porque “Milei quer ser o favorito do republicano, que já o salvou antes das eleições legislativas do ano passado, com seu swap [empréstimo] de 20 bilhões de dólares. Basicamente, não sabe se não voltará a precisar desse favor”.

A seguir, faz alusão à impopularidade do presidente argentino: “O índice de confiança da Universidade Di Tella está em vermelho, foi de 1,94 pontos em julho, uma queda de 66,5% frente a junho e de 21% no ano. Pior: 3,9% abaixo do obtido por Maurício Macri a essa mesma altura da gestão. E todos se recordam o que sucedeu com Macri no seu último ano de governo”.

EXPRESSO ADUSP


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