Faleceu na última quinta-feira, 16 de julho, aos 100 anos de idade, a professora emérita Elza Salvatori Berquó, da Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP), pesquisadora pioneira da demografia e da bioestatística no Brasil e referência internacional na sua área.

Elza Berquó graduou-se em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), em 1947. Tornou-se mestre em Estatística pela Universidade de São Paulo (USP) já no ano seguinte e, em 1958, obteve seu doutorado em Bioestatística pela Columbia University, nos EUA. Foi professora titular da FSP-USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Em 1982, Elza fundou, na Unicamp, o Núcleo de Estudos de População (NEPO), do qual foi diretora por muitos anos. Em 2014 o NEPO teve sua denominação alterada pela Reitoria, passando a incorporar o nome da pesquisadora.

“Ela iniciou sua brilhante trajetória na FSP-USP em 1950, onde foi pioneira no estudo e no ensino da bioestatística. Na década de 1960, fundou o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip), o primeiro núcleo formal de formação em demografia do país, consolidando-se como um farol para a área em toda a América Latina”, declarou a faculdade em nota de pesar.

“Sua atuação sempre se caracterizou pela coragem e pelo compromisso ético, inserindo de forma pioneira as discussões sobre gênero, raça, sexualidade e direitos reprodutivos nos estudos demográficos e na formulação de políticas públicas”, prosseguiu a FSP-USP. “Em seus 100 anos de vida, foi uma referência visionária, influenciando decisivamente os campos da demografia e da saúde pública com sua mente livre e generosa”.

A unidade decidiu preparar uma matéria especial sobre ela, a ser publicada no portal da FSP-USP, e no seu perfil oficial no Instagram fez um chamado à comunidade com essa finalidade: “Se você conviveu com a professora Elza Berquó ou gostaria de prestar uma homenagem, envie seu depoimento, relato ou fotos para o e-mail imprensafsp@fsp.usp.br.”.

O Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina (FM-USP) também se pronunciou sobre o falecimento de Elza: “Neste momento de despedida, reverenciamos sua trajetória, que marcou profundamente a ciência brasileira, foi decisiva para a consolidação da Demografia como campo de conhecimento no país e estabeleceu uma estreita e fecunda interlocução com a Saúde Coletiva”, diz sua nota de pesar.

“A professora Elza reuniu, de forma singular, rigor intelectual, sensibilidade e um inabalável compromisso com a vida pública. Ao longo de sua extensa trajetória, colocou o conhecimento a serviço da democracia, da justiça social e da defesa dos direitos”, acrescentou. “Seu trabalho contribuiu para dar visibilidade às profundas desigualdades sociais, de gênero e de raça e desempenhou papel pioneiro na promoção dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e na construção de políticas públicas mais justas e equitativas”.

Nota emitida pelo NEPO destaca que Elza “coordenou grandes pesquisas nacionais e formou dezenas de mestres e doutores que hoje lideram a demografia e as ciências sociais no país e internacionalmente”, foi agraciada com prêmios nacionais e internacionais e unia excelência científica a um profundo compromisso com as políticas públicas e com a formação de quadros para o país e para a universidade pública.

“Agigantou-se sempre na defesa da democracia, da igualdade e da justiça social”, diz, observando que sua obra seguirá como base fundamental para as próximas gerações de pesquisadores. “Ao NEPO, que leva seu nome, Elza deixa o maior legado: uma instituição de excelência, plural e comprometida com a pesquisa rigorosa a serviço da sociedade”.

Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD)

Também a Presidência da República, por meio de sua Secretaria-Geral, emitiu nota sobre Elza, destacando a grande contribuição da pesquisadora. “Até o final de 2026, a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD), vinculada à Secretaria-Geral da Presidência da República, tem como objetivo lançar o Prêmio Nacional Elza Berquó de População e Desenvolvimento, que reconhecerá ações integradas sobre temas populacionais nos territórios do país”, informa.

“Essa Comissão foi presidida por Berquó Elza de 1995, ano de sua criação, até 2004. Sob a coordenação da demógrafa, a CNPD tornou-se um espaço estratégico de formulação, monitoramento e articulação intersetorial”, prossegue. “Elza Berquó, nossa primeira presidente da CNPD, acreditou profundamente no Brasil, contribuiu para a ampliação dos direitos humanos de todas as pessoas, viu pessoas atrás dos números e defendeu ao longo de toda sua vida, no marco dos seus 100 anos, a democracia e as políticas públicas baseadas em evidências”.

“A CNPD e o Estado brasileiro reconhecem, agradecem e celebram com emoção Elza Berquó. Somos imensamente gratos por seu protagonismo em institucionalizar a agenda de população e desenvolvimento em nosso país. Seu nome estará para sempre na história nacional”, aponta Richarlls Martins, presidente da CNPD.

Encontra-se disponível na rede Scielo um interessantíssimo depoimento de Elza sobre sua vida e sua trajetória acadêmica, publicado pelo Cebrap em 2017.

“Do lado materno, faço parte dos 25 milhões de descendentes de italianos que vivem no Brasil. Meu avô, Salvatori, veio de Gênova para cumprir um castigo imposto pela família. Enquanto estudava para ser padre, apaixonou-se pela filha de criação da casa. Acabou sendo mandado para o Brasil e foi para Minas Gerais”, conta. O avô deixou “o latim de lado”, abriu uma oficina mecânica e se tornou maçom.

“Minha avó, caçula de uma família de sete irmãos, os Abbate, veio da região rural de Bolonha, na grande leva que, a partir da metade do século 19, migrava à procura de trabalho. Foram colonos em Conquista (Minas Gerais)”, continua. “Minha avó estava de casamento marcado na colônia em que vivia, quando por acaso conheceu meu avô, no dia em que foi à cidade para comprar o vestido de noiva. Foi amor à primeira vista, e acabaram se casando”.

Do lado paterno, explica ela, os Berquó vieram com a corte portuguesa. “Cresci na religião católica, indo à missa todos os domingos e comungando com frequência. Na adolescência, passei por várias crises quanto à existência de Deus, que me acompanharam até a universidade”, recorda.

“Tive excelentes professores [na PUC de Campinas], com quem aprendi muito sobre análise e geometria. Quando conheci a geometria de Lobachevsky, segundo a qual, ao contrário da euclidiana, duas retas paralelas se encontram em algum lugar, a noção de infinito, de religiosa, passou a ser apenas científica. Tornei-me agnóstica, o que sou até hoje”.

Seu primeiro emprego foi como assistente do Departamento de Bioestatística da então Faculdade de Higiene e Saúde Pública da USP, dirigido pelo médico e matemático Pedro Egydio de Oliveira Carvalho. “Vim direto de Campinas, a despeito das preocupações familiares. Conhecia poucas pessoas, era uma vida muito solitária. Fui morar na casa de uns parentes distantes, com a condição de que, todas as tardes, voltasse do trabalho para casa. Com poucos recursos, lanchava na própria faculdade”, rememora.

“Certo dia, cheguei mais cedo e descobri que a dona do apartamento organizava carteado a dinheiro, no período da tarde, em meio a uma fumaceira danada. Eu sempre fui apaixonada por jogos. Ela me pediu sigilo quanto ao fato; prometi, desde que um dia pudesse jogar. Em uma tarde, perdi meu salário inteiro, sem me sobrar dinheiro sequer para o bonde. Com muita vergonha, fui até o dr. Pedro Egydio pedir um empréstimo. Ele me fez prometer que não jogaria novamente — o que, evidentemente, não cumpri”.

Seus primeiros passos na estatística “eram como caminhar em um mundo novo”, descreve. “Os modelos probabilísticos, em contraste com o determinismo matemático, alargavam e arejavam o pensamento. Particularmente marcante foi um curso de especialização em inferência estatística, ministrado na Faculdade de Filosofia da USP pelo professor convidado William Meadow. Baseava-se no livro recém-publicado do estatístico sueco Harald Cramér (1893-1985), disponível apenas em inglês. Com a ajuda do dr. Pedro Egydio, digerimos as quase seiscentas páginas do que se tornou nossa bíblia”.

Em diversas ocasiões, completa ela, “folheio Cramér e saudosamente afago as anotações deixadas pelo dr. Egydio, na tentativa de, às vezes com sucesso, propor alternativas para demonstrações de algumas fórmulas”.

EXPRESSO ADUSP


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